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'Tiro no pé': venda ilimitada de terras argentinas a estrangeiros mina soberania e governo Milei

© AP Photo / Teresa SuarezO presidente da Argentina, Javier Milei, discursa durante evento para atrair investimentos estrangeiros, em Paris, na França, em 1º de outubro de 2026
O presidente da Argentina, Javier Milei, discursa durante evento para atrair investimentos estrangeiros, em Paris, na França, em 1º de outubro de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 20.10.2026
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Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicam possíveis complicações da medida proposta pela Casa Rosada e travada pela Suprema Corte do país.
A Suprema Corte da Argentina decidiu há pouco mais de uma semana pela manutenção dos limites de venda de terras a estrangeiros, estabelecido a 15% do território nacional, assim como provincial e municipal. A proposta foi feita em 2023 pelo presidente do país, Javier Milei, por meio de um Decreto de Necessidade e Urgência (DNU).
À época, a medida estava em meio a outras em um pacote enviado por Milei ao Congresso argentino já no começo de seu governo. A revogação da Lei de Terras, de 2011, logo foi suspensa após decisão de um tribunal. Contudo, no fim de setembro, a própria Suprema Corte restabeleceu a vigência do decreto presidencial de três anos atrás.
O nível mais alto do Judiciário argentino, no entanto, recuou e decidiu por uma "suspensão interina" do trecho do decreto que fala sobre essa Lei de Terras.
Mundioka #991 - Sputnik Brasil, 1920, 20.10.2026
Mundioka
Argentina à venda?
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que a proposta de vender terras de maneira ilimitada a estrangeiros pode minar tanto a soberania da Argentina quanto o governo de Milei, que apresenta queda de popularidade a um ano das eleições presidenciais.
Flavia Loss, professora do Instituto Mauá de Tecnologia, diz que a limitação de compra de terras por parte de estrangeiros é uma lei que existe em diversos países, justamente para a manutenção do controle nacional sobre a terra.
Na visão da especialista, trata-se de uma pauta muito cara para a população argentina, sobretudo os agricultores: "Essa questão da venda das terras para estrangeiros foi um tiro no pé".

"[O DNU] acaba ferindo a soberania. Ainda mais pensando na Argentina, uma economia agroexportadora, que depende muito das suas terras para gerar riqueza interna. Por isso teve tanta polêmica e teve um rechaço massivo contra essa lei."

Loss destaca que o setor agrícola argentino apresenta uma grande pujança nas mãos de Milei. No entanto, a situação interna no país, mesmo com a inflação controlada, é de um empobrecimento da população. O nível de argentinos com menos recursos cresceu 32% em 2026, acompanhado pelo aumento das solicitações de inclusão em benefícios sociais.
"Saíram alguns dados de compra em supermercado, compra de comida que tem diminuído muito. Você está tendo recorde de queda na compra de alimentos. Então, é muito preocupante tudo isso porque a população não está sentindo essa melhora [econômica]."
Outro setor que apresentou queda durante o governo Milei é a indústria, que vive, segundo a especialista, "uma quebradeira".

"A gente tem mais de 33 mil empresas do ramo de manufatura que fecharam. É muito preocupante porque o setor industrial é o que mais gera empregos e são os melhores remunerados. Você está tendo agora um movimento contrário, com a população migrando para empregos informais que pagam menos, e uma situação na Argentina em que muitas pessoas têm dois ou três empregos informais."

Argentina lança programa que oferece cidadania em troca de investimentos - Sputnik Brasil, 1920, 02.10.2026
Panorama internacional
Argentina lança programa que oferece cidadania em troca de investimentos

Patagônia pode virar terra de IA

Matheus de Oliveira, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), explica que a extinção da Lei de Terras está alinhada com a política de Milei, que visa a entrada de capital estrangeiro no país, além da aproximação política com países de líderes de direita, sobretudo Estados Unidos e Israel.

"Quando ele propõe uma iniciativa como essa, de abrir o mercado de terras no país, nesses termos, ele está visando, principalmente, viabilizar a esses atores a possibilidade de controlar recursos que são estratégicos para a economia mundial e que são muito importantes dentro do quadro atual que a gente tem de rivalidade entre China e EUA."

Segundo Oliveira, os norte-americanos devem liderar a compra de terras argentinas, caso a lei de limitação seja extinta, assim como empresários britânicos e grupos do Oriente Médio.
Uma região muito conhecida, mas pouco explorada da Argentina, todavia, pode receber grande atenção dos compradores estrangeiros: a Patagônia. Oliveira explica que a região possui vastas extensões de terra, ampla disponibilidade de água, recursos energéticos e condições favoráveis para a instalação de data centers.
"A Patagônia é uma região muito interessante para empresas de tecnologia que querem construir e instalar o centro de processamento de dados. Como a gente sabe, eles são uma peça fundamental do ecossistema de inteligências artificiais, que alimentam os modelos generativos de IAs."
Para Oliveira, vender terras de forma ilimitada a estrangeiros, ainda que se mantenha a soberania jurídica, mostrará que esse conceito não é meramente um atributo formal. O especialista destaca que a soberania é, sobretudo, a capacidade do Estado de decidir o que acontece em seu território.
Oliveira também alerta para quem comprará essas terras. O professor ressalta que não serão estrangeiros de classe média, mas sim grandes empresários cercados de investidores e com capacidade econômica para impor vontades sobre o território argentino.

"Se, por exemplo, esses investidores compram terras e passam a controlar uma extensa área territorial que tem um curso d'água muito importante ou que tem minas, jazidas, gás, o governo argentino continua sendo soberano sobre essa faixa de terra, mas não necessariamente é capaz de tomar uma decisão e exercer autoridade diretamente sobre essa faixa de terra."

O analista destaca que a situação argentina pode se repetir no Brasil. Para Oliveira, é necessário avaliar se a atração de investimento em condições tão favoráveis e amigáveis pode resultar ou não na perda de controle do próprio país sobre seu território.
"O que está acontecendo na Argentina é um alerta do que pode acontecer conosco no futuro. Sem dúvida, esse apetite voraz que o Milei tem tido para modificar a legislação sobre venda de terras no país é um apetite que também está sendo estimulado pela política de alinhamento aos Estados Unidos. Nós não podemos ser ingênuos e perder esses elementos de vista. Acho que a Argentina de hoje pode ser o Brasil de daqui a um ou dois anos."
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