https://noticiabrasil.net.br/20261023/centrao-contra-ataca-voto-distrital-pode-incentivar-radicalizacao-diz-cientista-politico-55423883.html
Centrão contra-ataca: voto distrital pode incentivar radicalização, diz cientista político
Centrão contra-ataca: voto distrital pode incentivar radicalização, diz cientista político
Sputnik Brasil
Proposta de voto distrital misto divide partidos e, segundo cientista político, pode fortalecer cúpulas partidárias e lideranças regionais sem reduzir a... 23.10.2026, Sputnik Brasil
2026-10-23T14:08-0300
2026-10-23T14:08-0300
2026-10-23T16:08-0300
notícias do brasil
hugo motta
nikolas ferreira
gilmar mendes
brasil
alemanha
japão
congresso
pl
republicanos
https://cdn.noticiabrasil.net.br/img/07ea/04/02/49422676_0:160:3072:1888_1920x0_80_0_0_ca9030ff6ba0008755bb3241b3dcf640.jpg
Após se ver espremido pela esquerda e pelo PL, os partidos do centrão articulam a elaboração de uma reforma eleitoral no país para instituir o voto distrital misto. No dia 28 de outubro, partidos do bloco pretendem discutir possíveis mudanças no sistema eleitoral brasileiro três dias depois da eleição.A proposta por voto distrital não é inédita e já é adotada em países como Alemanha, Japão e México, onde o sistema combina a eleição de representantes por distritos com a votação em listas partidárias, buscando conciliar representação regional e proporcionalidade política.Se para o Centrão está ruim, para o PL, o status quo é ótimo do jeito que está, enquanto o PT vem defendendo o voto por lista. A ideia do projeto é minimizar o impacto dos chamados influenciadores "puxadores de voto" como Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP), que fazem milhões de votos e, com isso, conseguem eleger outros candidatos da legenda.Debate de idas e vindasA questão do voto distrital é antiga, com diferentes versões do sistema debatidas desde a época do Brasil Império. O atual presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), já se pronunciou em sua defesa, assim como os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Motta já disse que o tema deve ser discutido no ciclo eleitoral de 2030, avaliando que a mudança ajudaria a evitar representantes do crime organizado na política brasileira.Um exemplo é o Código Eleitoral de 1932, que introduziu um sistema misto de representação, combinando elementos majoritários e proporcionais. Décadas depois, durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987–1988, o modelo distrital voltou a ser debatido, mas o país manteve a representação proporcional para a eleição de deputados federais.Mais recentemente, propostas de adoção do voto distrital misto voltaram à pauta do Congresso. O modelo combina a eleição de representantes por distritos, nos quais vence o candidato mais votado, com a escolha de parlamentares por listas partidárias, buscando conciliar representação territorial e proporcionalidade.Segundo Rafael Marino, doutor e mestre em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Núcleo Direito e Democracia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (NDD-CEBRAP), a retomada do debate acontece em meio à busca do Centrão de recuperar espaço após perder cadeiras para o bolsonarismo, fortalecendo as direções partidárias e as lideranças regionais.Marino relaciona esse movimento às reformas políticas de 2015 e 2017, que ampliaram o poder das cúpulas partidárias sobre a distribuição de recursos e a organização das candidaturas. Na sua avaliação, a mudança no sistema eleitoral pode dar mais controle às direções das legendas sobre candidatos com grande votação individual."Eu acho que, na verdade, o sentido dela é de centralização", afirma, vendo que partidos com estruturas regionais consolidadas, como MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos, poderiam se beneficiar da mudança.Representação de minorias e polarizaçãoEntre os argumentos favoráveis ao voto distrital misto estão a aproximação entre eleitores e representantes, a redução da influência de "puxadores de votos" e o estímulo a campanhas mais baratas. O pesquisador, porém, questiona se esses objetivos seriam alcançados no cenário político brasileiro e alerta para possíveis efeitos sobre a representação de grupos minoritários."O risco é bastante real de candidatos que apresentam ali causas urbanas, mulheres, pessoas LGBTQIA+ etc., terem uma dificuldade maior de ter uma base territorial concentrada."Candidaturas ligadas a pautas sociais podem perder espaço caso precisem concentrar seus votos em determinadas regiões para conquistar uma cadeira. O pesquisador também contesta a ideia de que o modelo necessariamente reduziria a polarização política. A disputa em distritos não garante que os candidatos busquem posições moderadas, especialmente em regiões onde predominam eleitores alinhados à direita ou à extrema-direita. Outro risco apontado pelo cientista político é o fortalecimento de lideranças locais que já mantêm redes de influência sobre o eleitorado. Em vez de reduzir a interferência de grupos políticos tradicionais, o voto distrital poderia ampliar a dependência de candidatos em relação a máquinas regionais e à distribuição de recursos públicos."Você pode enfatizar determinadas figuras políticas, aumentar o paroquialismo e o clientelismo". Nesse cenário, a disputa eleitoral poderia ficar ainda mais ligada à capacidade de parlamentares de entregar obras e benefícios localizados, em detrimento de debates de alcance nacional.O modelo também não resolveria, por si só, o problema da influência do crime organizado nas eleições. Ao contrário, a concentração territorial dos votos pode criar condições para que facções exerçam maior pressão sobre candidatos e eleitores.Impactos na relação entre Executivo e LegislativoSobretudo, o voto distrital misto não garantiria uma relação mais equilibrada entre o governo federal e o Congresso, avalia Marino. O fortalecimento da autonomia parlamentar sobre o orçamento, especialmente por meio das emendas, já ampliou a capacidade dos deputados de negociar recursos diretamente com o Executivo.Com representantes eleitos por distritos, a pressão por obras e investimentos em regiões específicas poderia ganhar ainda mais peso nas negociações políticas.Na avaliação do pesquisador, portanto, os possíveis benefícios democráticos da mudança não são garantidos. O efeito mais provável, em sua análise, seria o fortalecimento das cúpulas partidárias e das lideranças regionais, sem assegurar maior moderação política ou melhorias na governabilidade."Acho que dificilmente vai ter algum efeito virtuoso de uma possível mudança no sentido distrital misto para o Brasil e para a democracia no Brasil."
https://noticiabrasil.net.br/20261020/abstencao-no-segundo-turno-o-que-pode-mobilizar-eleitores-para-lula-ou-flavio-bolsonaro-55288812.html
https://noticiabrasil.net.br/20261022/quando-a-populacao-lota-as-ruas-vemos-o-escape-da-bolha-com-muita-nitidez-diz-pesquisador-55385139.html
brasil
alemanha
japão
Sputnik Brasil
contato.br@sputniknews.com
+74956456601
MIA „Rossiya Segodnya“
2026
notícias
br_BR
Sputnik Brasil
contato.br@sputniknews.com
+74956456601
MIA „Rossiya Segodnya“
https://cdn.noticiabrasil.net.br/img/07ea/04/02/49422676_171:0:2902:2048_1920x0_80_0_0_f255f5a7a37136d035d5c80d4358922b.jpgSputnik Brasil
contato.br@sputniknews.com
+74956456601
MIA „Rossiya Segodnya“
hugo motta, nikolas ferreira, gilmar mendes, brasil, alemanha, japão, congresso, pl, republicanos, eleições, eleições 2026, exclusiva
hugo motta, nikolas ferreira, gilmar mendes, brasil, alemanha, japão, congresso, pl, republicanos, eleições, eleições 2026, exclusiva
Centrão contra-ataca: voto distrital pode incentivar radicalização, diz cientista político
14:08 23.10.2026 (atualizado: 16:08 23.10.2026) Especiais
Proposta de voto distrital misto divide partidos e, segundo cientista político, pode fortalecer cúpulas partidárias e lideranças regionais sem reduzir a polarização.
Após se ver espremido pela esquerda e pelo PL, os partidos do centrão articulam a elaboração de uma reforma eleitoral no país para instituir o voto distrital misto. No dia 28 de outubro, partidos do bloco pretendem discutir possíveis mudanças no sistema eleitoral brasileiro três dias depois da eleição.
A proposta por
voto distrital não é inédita e já é adotada em
países como Alemanha, Japão e México, onde o sistema combina a eleição de representantes por distritos com a votação em listas partidárias, buscando conciliar representação regional e proporcionalidade política.
Se para o Centrão está ruim, para o PL, o status quo é ótimo do jeito que está, enquanto o PT vem defendendo o voto por lista. A ideia do projeto é minimizar o impacto dos chamados
influenciadores "puxadores de voto" como
Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP), que fazem milhões de votos e, com isso, conseguem eleger outros candidatos da legenda.
A questão do voto distrital é antiga, com diferentes versões do sistema debatidas desde a época do Brasil Império. O atual presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), já se pronunciou em sua defesa, assim como os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do
Supremo Tribunal Federal (STF).
Motta já disse que o tema deve ser discutido no ciclo eleitoral de 2030, avaliando que a mudança ajudaria a evitar representantes do crime organizado na política brasileira.
Um exemplo é o Código Eleitoral de 1932, que introduziu um sistema misto de representação, combinando elementos majoritários e proporcionais. Décadas depois, durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987–1988, o modelo distrital voltou a ser debatido, mas o país manteve a representação proporcional para a eleição de deputados federais.
Mais recentemente, propostas de adoção do voto distrital misto voltaram à pauta do Congresso. O modelo combina a eleição de representantes por distritos, nos quais vence o candidato mais votado, com a escolha de parlamentares por listas partidárias, buscando conciliar representação territorial e proporcionalidade.
Segundo Rafael Marino, doutor e mestre em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Núcleo Direito e Democracia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (NDD-CEBRAP), a retomada do debate acontece em meio à busca do Centrão de recuperar espaço após perder cadeiras para o bolsonarismo, fortalecendo as direções partidárias e as lideranças regionais.
Marino relaciona esse movimento às reformas políticas de 2015 e 2017, que ampliaram o poder das cúpulas partidárias sobre a distribuição de recursos e a organização das candidaturas. Na sua avaliação, a mudança no sistema eleitoral pode dar mais controle às direções das legendas sobre candidatos com grande votação individual.
"Eu acho que, na verdade, o sentido dela é de centralização", afirma, vendo que partidos com estruturas regionais consolidadas, como MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos, poderiam se beneficiar da mudança.
Representação de minorias e polarização
Entre os argumentos favoráveis ao voto distrital misto estão a aproximação entre eleitores e representantes, a redução da influência de "puxadores de votos" e o estímulo a campanhas mais baratas. O pesquisador, porém, questiona se esses objetivos seriam alcançados no cenário político brasileiro e alerta para possíveis efeitos sobre a representação de grupos minoritários.
"O risco é bastante real de candidatos que apresentam ali causas urbanas, mulheres, pessoas LGBTQIA+ etc., terem uma dificuldade maior de ter uma base territorial concentrada."
Candidaturas ligadas a pautas sociais podem perder espaço caso precisem concentrar seus votos em determinadas regiões para conquistar uma cadeira. O pesquisador também contesta a ideia de que o modelo necessariamente reduziria a polarização política. A disputa em distritos não garante que os candidatos busquem posições moderadas, especialmente em regiões onde predominam eleitores alinhados à direita ou à extrema-direita.
"Eu acho que ele teria incentivos dentro do sistema para uma radicalização, não para uma moderação necessária."
Outro risco apontado pelo cientista político é o fortalecimento de lideranças locais que já mantêm redes de influência sobre o eleitorado. Em vez de reduzir a interferência de grupos políticos tradicionais, o voto distrital poderia ampliar a dependência de candidatos em relação a máquinas regionais e à distribuição de recursos públicos.
"Você pode enfatizar determinadas figuras políticas, aumentar o paroquialismo e o clientelismo". Nesse cenário,
a disputa eleitoral poderia ficar ainda mais ligada à capacidade de parlamentares de entregar obras e benefícios localizados, em detrimento de debates de alcance nacional.
O modelo também não resolveria, por si só, o problema da influência do crime organizado nas eleições. Ao contrário, a concentração territorial dos votos pode criar condições para que facções exerçam maior pressão sobre candidatos e eleitores.
Impactos na relação entre Executivo e Legislativo
Sobretudo, o voto distrital misto não garantiria uma relação mais equilibrada entre o governo federal e o Congresso, avalia Marino. O fortalecimento da autonomia parlamentar sobre o orçamento, especialmente por meio das emendas, já ampliou a capacidade dos deputados de negociar recursos diretamente com o Executivo.
Com representantes eleitos por distritos, a pressão por obras e investimentos em regiões específicas poderia ganhar ainda mais peso nas negociações políticas.
"Se cada deputado distrital depende das entregas no local, ali no seu curral eleitoral, por assim dizer, a negociação passa a ser muito mais no varejo via emenda e obra."
Na avaliação do pesquisador, portanto, os possíveis benefícios democráticos da mudança não são garantidos. O efeito mais provável, em sua análise, seria o fortalecimento das cúpulas partidárias e das lideranças regionais, sem assegurar maior moderação política ou melhorias na governabilidade.
"Acho que dificilmente vai ter algum efeito virtuoso de uma possível mudança no sentido distrital misto para o Brasil e para a democracia no Brasil."
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!
Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.
Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).