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Crise bancária e renúncia presidencial: Paraguai expõe riscos da influência privada no poder público

© AP Photo / Jorge SaenzProtestos contra o presidente Santiago Peña tomara as ruas de diversas cidades do Paraguai após a falência do Ueno Bank, em 4 de novembro de 2026
Protestos contra o presidente Santiago Peña tomara as ruas de diversas cidades do Paraguai após a falência do Ueno Bank, em 4 de novembro de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 06.11.2026
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Uma das principais instituições financeiras do Paraguai, o Ueno Bank foi, inclusive, a ser citado por influenciadores no Brasil como referência no setor de investimentos. Até o ano passado, o grupo controlador do banco tinha entre seus acionistas o presidente Santiago Peña, que sofre processo de impeachment após ter a renúncia negada.
De uma modesta instituição financeira a um banco que concentrava três em cada quatro pagamentos e mantinha uma carteira de clientes invejável. Ainda era 2023 quando o Ueno Bank recebeu autorização para operar como uma instituição bancária, deixando de ser uma fintech. Foi também naquele ano que o economista Santiago Peña, do Partido Colorado, foi eleito presidente do Paraguai.
Em menos de três anos, a operação ganhou escala, ultrapassou a marca de 3 milhões de clientes em um país de pouco mais de 6,5 milhões de habitantes e ainda passou a administrar fundos públicos, como os de pensão, que ultrapassariam US$ 850 milhões (R$ 4,6 bilhões).
Até 2025, o grupo Vásquez, controlador do banco, tinha entre seus sócios o presidente paraguaio. Além disso, um de seus principais diretores, Carlos Carvallo Spalding, deixou o Ueno Bank para assumir o principal cargo do sistema financeiro do país sul-americano: a presidência do Banco Central do Paraguai. Mas, no início desta semana, a falta de solvência mínima exigida pela legislação local para a operação de um banco levou a própria entidade a decretar o fechamento do Ueno Bank.
Com isso, milhões de pessoas tentam acessar suas contas, que deixaram de exibir até mesmo os saldos, e ficam com o dinheiro retido. Outro efeito em cascata atingiu o comércio: pelo menos 70% dos estabelecimentos do país deixaram de funcionar por não conseguirem mais processar compras pelos sistemas da instituição.

"Imagine pessoas que recebiam seus salários, faziam depósitos, como se fosse uma poupança, e tinham até aplicações como reserva de dinheiro familiar. Em um belo dia, vão até o banco ou acessam o aplicativo e não conseguem mais sacar dinheiro ou efetuar uma transação com o cartão. É uma situação muito delicada. Há relatos, inclusive, de muitas pessoas que entraram nos aplicativos e não conseguiam nem visualizar seus saldos", diz o membro do grupo de pesquisa MUNDUS (Geopolítica, Direito e Relações Internacionais) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutorando em geografia, Alexandre Pérez, à Sputnik Brasil.

Uma série de acontecimentos toma conta do país: o presidente do Banco Central é demitido e milhares de pessoas vão às ruas em protesto contra o governo. Porém, Santiago Peña decide recorrer à repressão policial para impedir os atos, acrescentando mais um ingrediente à crise política interna. Sem alternativa, resta ao então líder paraguaio apresentar seu pedido de renúncia.
Há, porém, um detalhe: a legislação local, que não permite mais de um mandato, estabelece que o presidente da República se torna senador vitalício, com salário e foro privilegiado garantidos, mas sem direito a voto no Congresso. Mas foi tudo em vão: os parlamentares não aceitam o pedido de renúncia e formalizaram o impeachment contra Peña. Pouco tempo depois, ele foi preso em prisão domiciliar após um pedido do Ministério Público ser emitido.

"Então, em uma tentativa de evitar possíveis investigações e um processo judicial por seu próprio envolvimento com a holding à qual pertence o Ueno Bank, Santiago Peña apresenta sua renúncia em meio aos protestos. […]. Ele até pediu um prazo maior para a tramitação do impeachment, com o objetivo de montar sua defesa, mas os parlamentares parecem não ter aceitado", explica.

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Caso mostra fragilidade do Estado e promiscuidade entre público e privado

Já o especialista em política latino-americana dos séculos XX e XXI e doutorando em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) Paulo Pereira defende, em entrevista à Sputnik Brasil, que a queda de Santiago Peña escancara como a "promiscuidade" entre o capital privado e a gestão pública pode arruinar a governabilidade de um país em poucos dias.
"É uma afronta ver a maioria da população sofrendo por não conseguir movimentar seu dinheiro, inclusive aposentados, e ver como a elite paraguaia pode tudo", afirma. Ele lembra que, nesta sexta-feira (6), a filha do presidente, que vive nos Estados Unidos, publicou uma foto nas redes sociais usando uma blusa com a frase em inglês "taxem os pobres".
Conforme Pereira, a crise paraguaia ocorreu devido à fusão praticamente sem limites entre o poder público e o capital privado, sem mecanismos adequados de regulamentação e controle. Com isso, acrescenta ele, um problema econômico se transforma em um risco sistêmico para a segurança nacional. "Durante a gestão Peña, o dinheiro estatal irrigou o Ueno Bank de forma massiva. Só o Instituto de Previdência Social do país mantinha cerca de US$ 400 milhões (R$ 2,2 bilhões) depositados na instituição", diz.
Ele argumenta que quatro grandes escândalos ficaram evidentes:
A alocação de recursos públicos em uma única instituição financeira sem nenhum tipo de controle;
A "cegueira deliberada" dos órgãos de fiscalização diante do crescimento vertiginoso do banco;
A investigação do Ministério Público do Paraguai sobre a concessão desenfreada de empréstimos pela instituição;
A redução da nota de crédito do próprio banco, que indicava risco de calote, sem que isso servisse de alerta no país.

"Mesmo com tudo isso, Peña ainda tentou aprovar um projeto para utilizar o Fundo de Garantias de Depósito do país para cobrir integralmente as perdas de nove instituições públicas. A iniciativa foi vista pela oposição como uma tentativa de salvar o banco com chapéu alheio. Para piorar, a proposta não oferecia proteção alguma aos investidores do país e, de tão descabida, sequer foi votada."

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Quem deve assumir a Presidência do Paraguai?

A expectativa no Paraguai é de que o processo de impeachment fique restrito a Santiago Peña, o que abriria caminho para que o atual vice-presidente, Pedro Alliana, também do Partido Colorado, assumisse o comando do país.
Aos 52 anos, Alliana é um dos principais articuladores da atual política externa paraguaia, muito próxima dos Estados Unidos. Além disso, foi uma das figuras políticas do país mais críticas a uma declaração recente do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra da Tríplice Fronteira. Na ocasião, Alliana afirmou que o petista distorceu fatos históricos sobre o Paraguai, derrotado pelo Brasil no conflito.
Questionado se a crise atual pode afastar o país dos Estados Unidos, que no próximo ano passarão a ter um Congresso de maioria democrata, Paulo Pereira não prevê mudanças, inclusive na adesão do país vizinho ao Escudo das Américas.

"O Congresso paraguaio aprovou, em sua maioria, o acordo que concedia imunidades jurídicas e diplomáticas para a presença temporária de tropas e também de empreiteiros militares dos Estados Unidos no Paraguai. Além disso, o Paraguai aderiu a uma iniciativa de Washington para monopolizar cadeias globais de tecnologia e inteligência artificial e anunciou a construção de um megacentro de dados movido pela energia de Itaipu."

Mesmo com a saída de Peña, considerado pelo especialista quase "um embaixador da influência estadunidense no Cone Sul", o então vice-presidente é uma "figura conhecida em Washington" e deve preservar a atual estrutura de alinhamento. "A única diferença é que ele deve focar mais nas questões domésticas, já que precisa apagar um enorme incêndio", finaliza.
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