O FBI denunciou Milei formalmente ao procurador-geral de Justiça dos EUA e Trump, até o momento, não fez nenhum gesto em defesa do "colega", mas postou em suas redes sociais a enigmática frase logo após o escândalo: "Se imprimir dinheiro acabasse com a pobreza, imprimir diplomas acabaria com a estupidez".
O programa Mundioka, da Sputnik Brasil, ouviu nesta terça-feira (25) dois estudiosos sobre a política argentina para debater o atual panorama envolvendo o país sul-americano e os EUA.
Para o professor de relações internacionais, cientista político e jornalista Bruno Lima e o professor de relações internacionais do IBMEC de Brasília Eduardo Galvão, a esperança argentina de conseguir benefícios financeiros devido apenas ao alinhamento político-ideológico com o atual governo norte-americano já era ilusória:
"O fato é que a afinidade política por si só não vai pagar conta e também não vai assinar nenhum acordo comercial. A grande questão é se esse alinhamento vai ser suficiente para transformar as intenções que ele tem em resultados concretos para a economia argentina", opinou Galvão.
Já para Lima, essa expectativa de Milei é um "delírio", pois mesmo antes do escândalo das criptomoedas, o valor do dólar mantido pelo governo é fictício e não se mantém, dificultando empréstimos internacionais e a credibilidade do país por investidores estrangeiros.
"A Argentina está com um câmbio em que o peso argentino está sobrevalorizado [...] o valor do mercado de consumo interno argentino aumentou mais de 100%. Algumas contas aumentaram 1.000% e conseguiram segurar a inflação argentina garantindo um ingresso de dólares. Esse ingresso vem por atração de capital líquido, volátil. Milei faz o possível para quebrar o conjunto de regras que regulam o fluxo de dinheiro no país [...] Então como Milei conseguiria manter esse dólar fictício?".
A meta de Milei, defendeu Lima, era "esticar o câmbio fictício até outubro" na esperança de então ganhar as eleições legislativas, formando maioria nas duas casas federais ou pelo menos em uma, e, com isso, "fazer a segunda parte do governo, tipo arrasa o quarteirão no sentido de privatizar tudo que pode e mais alguma coisa".
Segundo o cientista político, a fraude supostamente perpetrada pelo presidente ajudou a piorar a situação do país, causando prejuízos iniciais de US$286 milhões (R$ 1,643 bilhão) e prejudicando cerca de 44 mil pessoas.
"Isso é um negócio muito sério. Então cada vez mais o governo pode perder a legitimidade, porque agora ele estafou a própria base: quem acreditou na moeda Libra, basicamente, é quem segue o Milei na Internet", disse Lima.
Galvão chamou a atenção para o fato de a valorização de títulos da dívida, a queda do risco país e o aumento das ações argentinas serem sinais promissores para o mercado, porém ainda não suficientes para atraírem investimentos de fato.
"Boa parte da população sofre com preços altos, porque não houve reajuste de salários, mas a gente está vendo que nos grandes números a situação da Argentina está melhorando, porém está longe de estar boa".
A abertura do capital do Banco Nación por decreto, sem passar pelo Congresso, é outro ponto negativo, segundo Lima, para a legitimidade do atual governo.
"Acho difícil esse decreto passar, abrir capital de um banco gigantesco como o Banco Nación, que tem sucursal em todo o país, sem ter uma luta jurídica política em cima disso".
Além disso, acrescentou o especialista, Donald Trump tem histórico protecionista e barreiras para os produtos argentinos pelos EUA podem virar uma realidade.
"E se a outra parte não tiver algo a oferecer, algo em troca, com certeza ele vai pedir alguma coisa que o beneficie".
Há duas semanas Trump anunciou que vai impor tarifas de 25% sobre o aço e alumínio, sendo que a Argentina é o sétimo maior fornecedor de alumínio para os EUA, de acordo com o Bureau do Censo.
O presidente norte-americano também impôs tarifas recíprocas sobre países que cobram tarifas altas sobre os produtos americanos, o que também respinga sobre a economia argentina.
No afã de agradar Trump, Milei pode correr o risco de "descartar a China e acabar trocando uma dependência por outra e ainda perder no mercado", ponderou o professor do IBMEC.