Nesta quarta-feira (26), o governo norte-americano liderado por Donald Trump obteve autorização da Suprema Corte para manter os cortes na ajuda humanitária internacional concedida pelos EUA. Após o aval, Trump anunciou o fim de mais de 10 mil contratos firmados com organizações estrangeiras, reportou o jornal The New York Times.
A decisão da Suprema Corte fortalece o programa de cortes de gastos implementado pelo aliado de Trump, Elon Musk, e seu controverso Departamento para Eficiência Governamental. A força-tarefa de Musk tem como objetivo reduzir os gastos do governo em cerca de US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5,8 trilhões).
"A meta geral é tentar tirar um trilhão de dólares do déficit e, se o déficit não for controlado, os EUA vão à falência", disse o bilionário Elon Musk durante entrevista conjunta com o presidente Donald Trump concedida à Fox News.
Com o aval do presidente, Musk encontra-se em uma cruzada contra a burocracia estatal, cortando postos de trabalho, estimulando demissões voluntárias e fechando agências cujas funções considera duvidosas. A velocidade das medidas de Musk foi simbolizada pela motoserra presenteada ao bilionário pelo presidente da Argentina, Javier Milei.
Elon Musk segura uma motosserra durante a Conferência de Ação Política Conservadora, CPAC, em Oxon Hill, Maryland, EUA, 20 de fevereiro de 2025
© AP Photo / Jose Luis Magana
No entanto, a meta de cortar US$ 1 trilhão pode ser uma quimera. Apesar de os gastos federais previstos para 2025 estarem na casa dos US$ 7 trilhões (o equivalente a RS$ 41 trilhões), três quartos são constituídos por despesas obrigatórias, portanto fora do alcance da motosserra de Musk.
Os gastos discricionários sujeitos a cortes, por outro lado, são em boa parte absorvidos pelo Pentágono e outras agências do complexo industrial militar do país – setor que o Partido Republicano de Trump já prometeu fomentar.
Imagem aérea mostra o Pentágono (Departamento de Defesa dos EUA), em Washington, D.C.
© Eva Hambach
Ao fim e ao cabo, resta pouco espaço para Musk manobrar. E esse espaço é justamente os salários de funcionários públicos e gastos sociais. Estimativa realizada pela Apollo Global Management aponta para o corte de até 1 milhão de postos de trabalho na burocracia e empresas estatais norte-americanas.
De acordo com o professor de economia do Mackenzie, Milton Pignatari, os cortes podem gerar redução no consumo das famílias e, portanto, na demanda da economia norte-americana.
"Em um primeiro momento, essas pessoas terão uma redução salarial. E pode demorar para que essas pessoas se acostumem a sua nova posição e atinjam esse nível salarial em outros setores da economia – se é que vão conseguir chegar a esse patamar novamente", disse Pignatari à Sputnik Brasil.
Segundo o economista, a retomada da demanda poderá ocorrer em um segundo momento, caso as políticas de incentivo à produção industrial doméstica prometidas por Trump surtam efeito. "Mas sabemos que economia não é uma ciência exata, então o risco da queda na demanda da economia dos EUA realmente ocorre."
Funcionários da agência de saúde e serviço social dos EUA realizam protesto contra a política de cortes promovida pelo presidente dos EUA, Donald Trump e seu aliado Elon Musk, em Washington, EUA, 19 de fevereiro de 2025
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Por ora, os cortes de Musk atingem programas federais focados em agendas que o governo Trump não esposa, como diversidade, mudanças climáticas ou debates sobre gênero. Nesta quarta-feira (26), Trump anunciou a demissão de 65% dos funcionários da agência de proteção ambiental dos EUA.
Cortes como esse também atingem departamentos considerados sensíveis, como o de controle de doenças e regulação aérea. Ademais, a administração Trump demitiu 300 funcionários do Departamento de Segurança Nuclear norte-americano, responsável por resguardar o arsenal nuclear do país, reportou a Reuters.
Elon Musk discursa durante reunião de gabinete presidida por Donald Trump na Casa Branca, em Washington, EUA, 26 de fevereiro de 2025
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No entanto, existe uma diferença significativa entre o discurso combativo de Musk e a redução dos gastos dos EUA na prática. De acordo com a revista The Economist, até agora o departamento de Musk não conseguiu reduzir os gastos diários do governo dos EUA, que seguem na casa dos US$ 30 bilhões diários (cerca de R$ 176 bilhões).
Servidores públicos dos EUA iniciam campanha para evitar demissões em massa, com o slogam 'obrigada pelos seus serviços', em Washington, EUA, 27 de fevereiro de 2025
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O muito debatido fechamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), por exemplo, significará uma economia de somente US$ 45 bilhões por ano, ou seja, menos de 0,6% do orçamento federal dos EUA.
Velha nova receita
Além dos resultados dúbios, a política de cortes de gastos promovida por Trump e Musk tampouco é inovadora. De acordo com o professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Andrés Ferrari Haines, o receituário é aplicado desde a administração de Richard Nixon.
"Desde a década de 70, os EUA vêm adotando medidas neoliberais voltadas ao corte de gasto social, redução de impostos para os mais ricos e regulação dos mercados em favor das grandes empresas", disse Haines à Sputnik Brasil. "Essas políticas não preveem a retirada do papel do Estado, mas sim seu trabalho em favor de grupos específicos."
O receituário também é adotado com afinco na América Latina – por vezes de maneira radical, como no caso do governo do ex-ditador chileno Augusto Pinochet. No caso argentino, as medidas atualmente aplicadas por Milei também já foram implementadas no passado, em particular na administração Menem.
"As políticas e econômicas de Musk ou de Milei não são a novidade em si, mas sim a brutalidade com a qual estão sendo implementadas", notou Heines. "A imagem da motosserra se refere justamente a essa violência."
No passado, as políticas de cortes de gastos sociais e no funcionalismo público geraram outras despesas ao Estado, em especial na área de segurança pública, declarou o economista.
O presidente da Argentina, Javier Milei, faz uma reverência à multidão antes de discursar na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Oxon Hill, Maryland, EUA, 22 de fevereiro de 2025
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"No caso dos EUA, desde a década de 70 vemos cortes nos gastos sociais, mas aumento na população carcerária – que representa 1% da população adulta e 10% da população economicamente ativa. Então trocamos o custo social pelo custo com o aparato repressivo", explicou Haines. "Na Argentina está acontecendo a mesma coisa: Milei corta gastos de um lado, mas os custos com a polícia só aumentam."
Para ele, as consequências dessas políticas são evidentes na economia dos EUA, que sofre cada vez mais com forte concentração de renda e precarização na qualidade de vida dos mais pobres.
Desigualdade nos EUA: americanos fazem fila para receber atendimento médico na Flórida
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"Os programas de assistência alimentar dos EUA já estão atendendo cerca de 40 milhões de pessoas. A situação de pessoas sem moradia, vivendo nas ruas, atinge níveis de barbárie", disse Haines. "As consequências dessas políticas nos EUA não são diferentes das consequências na América Latina."
Imperialismo neoliberal
A "política da motoserra" implementada por Musk tampouco terá sucesso em fortalecer os EUA na competição internacional com potências em ascensão, como Rússia e China, acredita o economista da UFRGS.
"Os EUA não são uma potência industrial, mas um país dominado pelo setor financeiro e especulativo. E essa é uma posição frágil, porque ativos financeiros podem perder o valor repentinamente", notou Haines.
Para ele, a manutenção do receituário neoliberal favorecerá o aumento da concentração de renda e vulnerabilidade social nos EUA, dificultando a retomada da indústria doméstica.
"Nesse contexto, a única solução será enfatizar o imperialismo neoliberal. Isto é, Trump buscará vantagens para suas empresas no mercado global às custas dos outros países", acredita Haines.
A prática tampouco é inovação de Trump, afinal "Biden fazia coisas semelhantes, ao forçar empresas europeias a se instalar nos EUA caso quisessem continuar operando". Outro caso é a imposição da venda de gás natural liquefeito à Alemanha, gerando grave crise no principal motor da economia europeia.
Donald Trump segura a carta que o ex-presidente Joe Biden deixou para ele na mesa enquanto assina ordens executivas no Salão Oval da Casa Branca, em Washington DC. EUA, 20 de janeiro de 2025
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Mesmo que Trump consiga prover alguma melhora econômica aos EUA – o que ainda não está claro – ela virá às custas dos países latino-americanos e outros parceiros regionais.
"Trump poderá até tentar retomar a indústria nacional como disse que faria. Mas isso virá às custas dos demais: às custas do Canadá, do México e inclusive de nós aqui no Brasil", concluiu o economista.