Apesar de ter ampliado, nos últimos anos, a cooperação militar com os Estados Unidos, a Índia optou por aprofundar seus vínculos estratégicos com a Rússia, mantendo uma tradição que remonta à Guerra Fria. A decisão reflete a lógica da "autonomia estratégica" defendida por Nova Deli, segundo a qual o país evita alianças rígidas e busca preservar liberdade de ação.
O acordo militar com Moscou estabelece regras para o deslocamento de tropas, navios e aeronaves, além de exercícios conjuntos e cooperação em missões humanitárias e de resposta a desastres. Para a Índia, os ganhos são claros: acesso contínuo a sistemas de armas estratégicos, transferência e coprodução de tecnologia e compatibilidade com um arsenal historicamente baseado em equipamentos russos. O presidente russo, Vladimir Putin, descreve a relação como uma "parceria estratégica especial", destacando o alto grau de confiança no campo da defesa.
Em Washington, a escolha indiana gerou críticas, mas não levou a uma ruptura. O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou recentemente que os Estados Unidos "preferem ver a Índia comprando equipamentos americanos", ao mesmo tempo em que reconheceu que Nova Deli "toma decisões soberanas, de acordo com seus próprios interesses". A reação americana foi, portanto, ambígua: pressão retórica combinada com a aceitação do peso geopolítico indiano.
O Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, aborda nesta segunda-feira (9) a cooperação militar Índia-Rússia, o que isso significa para a região do Indo-Pacífico e como a decisão indiana foi recebida por Washington. Para este episódio, ouvimos Luciana Garcia de Oliveira, professora de geopolítica da Ásia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
A cooperação entre Índia e Rússia procura, acima de tudo, modificar e promover uma ordem mundial mais multipolar, segundo Garcia de Oliveira, permitindo também equilibrar as influências tanto dos Estados Unidos quanto da China, um aliado de ambos os países. A professora também ressalta o contexto histórico entre as duas nações, como o apoio industrial da União Soviética após a independência indiana, em 1947, e o apoio militar na guerra entre Índia e Paquistão pelo controle da Caxemira em 1971.
"É um encontro estratégico de cooperação […], que também é histórico, que provavelmente vai afetar o equilíbrio de poder, já deve estar afetando o Indo-Pacífico e reforça, sobretudo, a autonomia estratégica da Índia", explica.
"A meu ver, é muito positivo para a Índia, porque permite equilibrar a influência da China e dos Estados Unidos e promove uma ordem mundial multipolar nessa região."
Entre Rússia e EUA, a Índia poderia receber alternativas tecnológicas similares dos dois países, já que ambos possuem grandes capacidades de tecnologia de defesa e de segurança. Contudo, a professora acredita ser menos benéfico receber dos norte-americanos, ressaltando que a transferência tecnológica sempre veio atrelada à segurança nacional dos Estados Unidos e seus "valores democráticos". Em contraste, não há as mesmas exigências em um acordo com os russos.
Sobretudo, a cooperação entre Índia e Rússia ajuda o país asiático a diversificar seu poderio militar e promover mais autonomia e soberania em um momento que os Estados Unidos travam sua guerra comercial pelo mundo, também sobretaxando produtos indianos. Para Oliveira, a Índia procura novos parceiros no sentido de equilibrar os poderes no cenário geopolítico.
Acima de tudo, existe um interesse da Índia de se inserir no cenário geopolítico, afirma Tito Lívio Barcellos, geógrafo, mestre em estudos estratégicos de defesa e segurança, e pesquisador do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE). Ele explica como o país tem adotado uma posição moderada e "flertado" com outras potências, como Japão, Coreia do Sul e países do Oriente Médio, não se atendo apenas a Estados Unidos ou Rússia.
Apesar do seu vínculo com a Rússia, os EUA veem a Índia como figura-chave de contenção da China na Ásia, segundo o especialista.
"A Índia tenta, da sua forma, extrair concessões dessas potências, seja investimentos econômicos, compromissos mais amplos, exercícios militares… Porque ela tem as suas próprias ambições", pontua.
O geógrafo traz uma comparação da Índia com o Brasil, tanto em aspectos sociais como econômicos. Contudo, lembra que a posição dos indianos é mais desfavorável por estar cercada por duas potências atômicas historicamente hostis, o Paquistão e a China.
"A Índia já deixou muito claro que ela não quer se envolver nas disputas alheias ou, pelo menos, se submeter a uma ordem unida do Ocidente. Então, para ela, a parceria com a Rússia é essencial para a sua própria sobrevivência. Se, por acaso, começar a ter medidas para dificultar o acesso indiano a produtos franceses, britânicos e norte-americanos, a Índia vai buscar alternativas com a Rússia."