Panorama internacional

Com ajuda a Gaza, China faz da reconstrução material uma base para a paz política, avaliam analistas

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmam que a ajuda de US$ 100 milhões anunciada pela China a Gaza mira consolidar o país como um fiador da estabilidade, mas alertam que a entrada do montante no enclave pode ser barrada por EUA e aliados.
Sputnik
A China anunciou o envio de US$ 100 milhões (cerca de R$ 538 milhões na cotação atual) em assistência à Palestina, recursos que são destinados ao alívio da crise humanitária na Faixa de Gaza e à reconstrução do enclave devastado pela ofensiva israelense.
A iniciativa ocorre em meio a um cenário de grave deterioração humanitária, marcado por um elevado número de vidas ceifadas, que desde outubro de 2023 já chegam a 83,7 mil, segundo dados oficiais locais.
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), lembra que essa não é a primeira oferta de ajuda chinesa à Palestina, mas é o maior montante já oferecido pelo país. Segundo ele, o grande problema é que a cifra é pequena diante do necessário para a reconstrução de Gaza e o retorno à habitabilidade do território.

"Entretanto, ao que tudo indica, esse anúncio visa à assistência humanitária. É comida, abrigo, cobertores — pois nós estamos no inverno, inclusive com chuvas de granizo —, medicamentos e insumos hospitalares e clínicos, o que é, eu diria, mais importante, mais urgente neste momento", afirma.

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Apesar da importância da ajuda humanitária, Rabah destaca que os recursos prometidos podem nunca chegar a Gaza, já que Israel vem bloqueando a entrada de assistência e organizações humanitárias no enclave.
"Até a própria UNRWA, a agência especial das Nações Unidas para os refugiados palestinos no Oriente Médio, está proibida por Israel e pelos EUA de operar. […] Outras organizações […], de 36 a 37 delas, como Médicos Sem Fronteiras, também foram proibidas de operar ajuda humanitária ao povo palestino."
Ele afirma que as notícias em torno do anúncio de que o Hamas vai entregar a autoridade sobre a Faixa de Gaza aos EUA em troca de um acordo de paz e da reconstrução do enclave estão sendo veiculadas sem o devido contexto e dando a entender que se trata de uma capitulação do grupo palestino.
Segundo ele, o que foi acertado pelo grupo foi a entrega da autoridade sobre o enclave a um governo palestino de acordo nacional, comandado por tecnocratas e não políticos. Esse acordo foi assinado por todas as forças que compõem a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), mais o Hamas e a Jihad Islâmica, que não integram a organização, e sinaliza uma reconciliação nacional e um processo de reconstrução da OLP.

"Ele [Hamas] entrega a esse governo de tecnocratas. E esse governo de tecnocratas, segundo todos nós sabemos, estaria sob supervisão do alegado Conselho da Paz ou Conselho para a Paz, melancolicamente presidido por [Donald] Trump, quer dizer, pelos EUA. Portanto, seria um protetorado, e que poderia ter como um gerente internacional, vejam só, o tal do Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico."

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Rabah observa ainda que o fato de os EUA terem colocado todo o hemisfério ocidental como sua "área vital", ou seja, automaticamente "uma extensão da soberania estadunidense", é outro elemento que dificulta a entrada de ajuda da China.
"Nesse contexto, o Oriente Médio não pode ter nenhuma forma de soberania plausível e não pode, portanto, também ter liberdade nacional para tratar dos seus assuntos com outros países, que dirá com outras potências rivais", explica.
Não sendo bem-vindo o dinheiro da China, avalia o analista, ficará a cargo dos EUA e aliados regionais no Oriente Médio assumir a tarefa de reconstrução de Gaza, o que vai gerar muito lucro para Washington. No entanto, ele destaca que não está claro o que será essa reconstrução.

"Será uma reconstrução para os palestinos ou será uma reconstrução do território em que parte dele não poderá ser habitado pelos palestinos? Os palestinos viverão em bantustões não reconstruídos e essa alegada reconstrução é a construção da riviera anunciada pelo Trump?"

Para Bernardo Boucinha Bernardi, senior fellow do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), o anúncio de ajuda da China não é apenas um ato de caridade, mas um movimento estratégico mais profundo. Ao podcast Mundioka, ele explica que, na prática, US$ 100 milhões podem parecer uma quantia pequena se considerados os US$ 70 bilhões (R$ 375,9 bilhões) estimados pelas Nações Unidas para a reconstrução da Faixa de Gaza.
"No entanto, esse montante chinês a gente pode considerar um pacote anormalmente grande para os padrões da ajuda humanitária de Pequim, historicamente. […] A China destinou apenas cerca de US$ 2,9 milhões (R$ 15,5 milhões nos valores de hoje) para a crise na Ucrânia e US$ 4,4 milhões (R$ 23,6 milhões na cotação de hoje) para os terremotos na Turquia e na Síria em 2023. Ao saltar para um valor de US$ 100 milhões, a China está enviando um sinal claro", afirma.
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Ele acrescenta que a medida também visa alcançar a chamada "credibilidade estratégica" necessária para a ascensão de uma grande potência mundial, conceito alinhado a teorias de relações internacionais que apontam que "um país só se torna o líder mundial se for capaz de cumprir as suas promessas e agir de forma moralmente superior aos seus competidores".

"O Xi Jinping [presidente da China] está construindo essa autoridade humana. É como se dissesse ao mundo: 'Enquanto a hegemonia tradicional dos EUA está em retração e cortando verbas da UNRWA e das agências humanitárias, como a USAID [sigla em inglês para Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional], a China está agindo como um novo fiador da estabilidade'."

Bernardi afirma que o montante também serve para dar "sustentação política" à Declaração de Pequim, assinada em 23 de julho de 2024, um acordo histórico no qual a China mediou a união de 14 facções, grupos políticos palestinos, incluindo o Fatah e o Hamas, para formar um novo governo de unidade nacional.
"Portanto, na prática, esse valor não é só para reconstruir os prédios de Gaza e a infraestrutura básica do enclave, mas também para fiar o status de mediador indispensável e garantir que a China tenha um assento permanente na mesa que decidirá o futuro geopolítico da região", aponta.
Ele ressalta que a China está utilizando sua expertise técnica para os setores de fronteira em um plano para integrar Gaza à Nova Rota da Seda (Iniciativa Cinturão e Rota), à Nova Rota da Seda Digital e à Rota da Seda Verde, com o fornecimento da tecnologia 5G para telecomunicações e sistemas de armazenamento de energia solar.

"Portanto, para a China, reconstruir Gaza não é um ato isolado de caridade, é um projeto de integração regional. E eles entendem que um hospital reconstruído com tecnologias e padrões chineses cria um laço de longo prazo muito mais forte do que qualquer discurso diplomático. É o desenvolvimento material servindo como base para a paz política."

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