Embora seu nome normalmente não apareça em listas dos presidentes mais importantes ou populares da história dos EUA — como George Washington, Abraham Lincoln ou Franklin D. Roosevelt —, nas últimas semanas a relevância do legado do governo de William McKinley tornou-se mais evidente.
O atual presidente dos EUA, Donald Trump (republicano e entusiasta de tarifas, assim como McKinley), costuma mencioná-lo como grande inspiração — chegou a invocar seu nome até no discurso de posse em 20 de janeiro e pendurou um retrato seu no Salão Oval.
Além disso, a política expansionista do 25º mandatário americano, baseada no aproveitamento da fraqueza militar e econômica europeia, não poderia ser mais atual, de acordo com analistas ouvidos pela Sputnik.
O fim da influência do Velho Mundo
Nascido em Ohio e veterano da Guerra Civil, McKinley chegou à Casa Branca em 1897 após 14 anos na Câmara dos Representantes, onde, como legislador, impulsionou a Lei Tarifária de 1890, conhecida popularmente como o "Tarifa McKinley".
A legislação aumentou os impostos sobre importações em uma média de 50%, com a intenção de proteger a indústria nacional da concorrência estrangeira e consolidar a nascente classe trabalhadora urbana. Entre 1880 e 1910, a mão de obra industrial americana triplicou.
McKinley visou ampliar os horizontes comerciais — em parte devido à superprodução gerada por sua política protecionista —e expandir os limites territoriais dos EUA.
Sua visão não buscava apenas a prosperidade econômica interna, como também impulsionar a presença estratégica do país no mundo, até então domínio exclusivo dos impérios europeus desde o século XV.
Sua presidência chegou a um fim abrupto em 1901, logo após a reeleição, quando foi assassinado por um militante anarquista durante um evento público.
McKinley soube perceber essa vulnerabilidade e buscou posicionar os Estados Unidos como o herdeiro natural da influência no Caribe e no Pacífico, marcando o início de uma era de expansão para o país norte-americano baseada no controle de rotas marítimas e territórios estratégicos para a segurança nacional.
Um dos episódios-chave dessa política foi a vitória na Guerra Hispano-Americana de 1898, um conflito que confirmou a decadência do império espanhol, após quase três séculos de domínio no continente americano.
Ao derrotar rapidamente uma potência europeia em declínio, o ex-presidente conseguiu que Washington controlasse Porto Rico e Guam, estabelecendo redutos estratégicos no Caribe e no Oceano Pacífico.
Essa vitória não foi apenas militar, representou o princípio do fim da influência do Velho Mundo — uma Europa acostumada por séculos a conquistar territórios à força e não a perdê-los — e o primeiro sinal do que aconteceria no restante do século XX: a superioridade da emergente potência americana sobre os países europeus.
A visão expansionista de McKinley também se concretizou com a conquista das Filipinas e a anexação do Havaí em 1898, movimento que consolidou a hegemonia americana no Pacífico central. Com o Havaí como base de operações, a capacidade da marinha americana de projetar poder se multiplicou, garantindo a defesa das rotas comerciais ocidentais.
Além disso, McKinley incentivou a divisão das ilhas Samoa por meio da Convenção Tripartite de 1899, fazendo com que a Samoa Americana ficasse sob jurisdição de Washington, após convencer o Reino Unido e a Alemanha, que não tiveram outra opção senão aceitar o acordo.
Outro sucesso de sua administração para obter vantagens em áreas de alto valor logístico foi a criação de um canal interoceânico na América Central, que eventualmente culminaria no domínio americano sobre a região do Canal do Panamá.
O presidente republicano percebeu que a união dos oceanos Atlântico e Pacífico era indispensável para que uma nação com ambições operasse de maneira eficiente como uma potência bioceânica. Essa ideia refletia seu desejo de não depender de rotas controladas por potências estrangeiras e de estabelecer um corredor comercial próprio sob controle direto dos EUA.
"Paralelos evidentes"
Para Samuel Losada, internacionalista formado na Universidade de Buenos Aires, a política atual dos EUA apresenta semelhanças notáveis com a audácia expansionista de McKinley, especialmente no interesse por adquirir a Groenlândia, território semi-autônomo pertencente à Dinamarca.
"Assim como McKinley detectou a fragilidade dos impérios espanhol e britânico, Donald Trump percebe corretamente uma Europa submissa e enfraquecida por vários fatores: crises internas, uma população cética em relação aos seus políticos e um sistema de defesa militar que dependeu por muito tempo dos EUA graças à OTAN e não é eficiente", afirma o especialista.
Essa realidade, segundo Losada, fez com que o presidente enxergasse uma janela de oportunidade para expandir o território dos EUA:
"A iniciativa, que inicialmente foi vista como mais uma de suas habituais provocações, aos poucos começou a ser percebida como uma jogada inteligente — ainda que arriscada — para conseguir simultaneamente recursos naturais e uma posição estratégica privilegiada", indica o analista, afirmando que uma anexação da Groenlândia “reconfiguraria o mapa da América do Norte e enterraria qualquer imagem de uma Europa competente ou forte".
José Luis Romano, internacionalista formado na UDELAR, ressalta uma diferença entre as duas gestões: o lugar ocupado pelos EUA.
"Enquanto McKinley queria transformar os EUA em uma potência, Trump busca reverter o declínio do país e garantir que continue sendo um ator global de peso, mesmo que isso implique em alienar a Europa, vista como um parceiro fraco e, portanto, inteiramente dispensável", aponta.
Em ambos os casos, acrescenta, trata-se de líderes que se viram diante de uma "oportunidade histórica" devido ao deterioramento europeu e agem para aproveitar essa fraqueza militar e geopolítica, convertendo-a em uma vitória territorial.
Outro ponto, frisou ele é assegurar a autonomia energética dos EUA e dominar as novas rotas comerciais que surgirão com o derretimento do Ártico, conclui.