Panorama internacional

Política dos EUA de contenção à China só cria tensões entre Pequim e Tóquio, atestam especialistas

Recentes declarações do Japão a respeito da China e de Taiwan aumentam as tensões na região do Pacífico e despertam questionamentos sobre os verdadeiros objetivos de Tóquio.
Sputnik
Nos últimos meses, as tensões vem aumentando entre a China e o Japão, muito em parte devido a declarações da primeira-ministra Sanae Takaichi, que reforça a segurança de Taiwan como indissociável da segurança japonesa.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Matheus Mapa, internacionalista, especialista em política e cultura japonesa, explicita que oficialmente, Tóquio reconhece a política de Uma Só China. No entanto, utiliza uma linguagem ambígua para lidar com a questão de Taiwan.

"O Japão não determinou o que de fato é Uma Só China, qual território compreende? A China é Taiwan, ou Taiwan é China? Isso foi deixado propositadamente ambíguo."

Mundioka
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Discípula de Shinzo Abe (2012-2020), ex-primeiro-ministro japonês assassinado em 2022 em um atentado doméstico, a mandatária de Kantei trabalha para a remilitarização do país.
A questão, petrificada no Artigo 9º da Constituição do Japão, que renuncia o direito à guerra e compromete o país com a paz e autodefesa, começou a ser ressignificado por Abe na década de 2010. Bem-sucedida, hoje a interpretação vigente da lei entende que o direito de defesa também se estende a aliados do país.
Logo, se alguém atacasse os Estados Unidos, por exemplo, Tóquio teria uma prerrogativa constitucional para entrar no conflito.

"E Taiwan, agora pelo discurso da Takaichi, foi incluído nesse meio dos aliados, o que é um reconhecimento de Taiwan, de certa forma."

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Segundo Mapa, a forma unilateral com que os Estados Unidos agiram na Venezuela, atacando o país e sequestrando o presidente Nicolás Maduro, criou um precedente que "tempera" essa situação.

"Esses flertes do Japão com a independência de Taiwan podem muito bem desembocar em um conflito, ou a China realmente agora usar como prerrogativa o que os EUA fizeram para realmente ir para as vias de fato."

Historicamente, a relação entre China e Japão é marcada por disputas territoriais, confrontos militares e divergências sobre a própria interpretação do passado, aponta, ao podcast Bernardo Salgado, professor adjunto do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Até hoje o Japão não reconheceu os crimes cometidos na Segunda Guerra Mundial, seja em solo chinês, seja em solo coreano, o que agrava também as tensões tanto com Seul, quanto com Pyongyang.

"E a China usa isso para acusar o Japão de revisionismo militar, revisionismo imperial. Em contrapartida, o Japão busca uma política de defesa cada vez mais robusta nos dias de hoje", diz Salgado.

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À parte de questões históricas e territoriais, como a disputa por ilhas no mar do Sul da China, um dos elementos que mais contribui para o acirramento atual entre Pequim e Tóquio é a geopolítica desenhada por Washington de contenção da influência chinesa.
Essa política, diz Salgado, posiciona o Japão como um aliado-chave dos Estados Unidos, tanto na Ásia, quanto no Indo Pacífico.

"O Japão faz parte, por exemplo, do Quad, arranjo diplomático-militar de segurança estratégica entre a Austrália, Índia, Japão e Estados Unidos que realiza exercícios militares conjuntos e que é o próprio reflexo também dessas mudanças geopolíticas da Ásia."

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