O governo brasileiro assinou, no dia 7 de janeiro de 2026, um contrato de US$ 320 milhões com o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como o banco do BRICS, para a construção do Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI), em São Paulo. O hospital será totalmente digital, com uso de inteligência artificial, telemedicina e sistemas integrados, e nasce como projeto-modelo para os países do grupo, reforçando a cooperação internacional em saúde e inovação.
Neste Mundioka de segunda-feira (26), o podcast da Sputnik Brasil vai analisar como o ITMI pode servir de modelo para outros países do BRICS, que tipo de cooperação tecnológica o Brasil pode ter com os demais membros do grupo e se esse novo hospital poderá contribuir para o combate às doenças socialmente determinadas.
Como explica Expedito Barbosa, médico formado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que atua em Medicina Investigativa na Barbosa Clinic e integrante da Comissão Nacional do Jovem Médico da Associação Médica Brasileira (AMB), o ITMI vai integrar soluções tecnológicas avançadas na medicina, como o diagnóstico precoce de doenças por IA.
"Patologia, por exemplo, quando se faz uma biópsia, ela é avaliada numa lâmina e a partir dos olhos humano. A inteligência artificial consegue detectar alterações muito precoces que o ser humano às vezes deixa passar."
Outras soluções práticas seriam a conexão de dispositivos médicos e tecnológicos à internet. Por exemplo, em um leito de UTI os funcionários devem ir até o paciente, verificar os índices e registrá-los após retornar, o que abre margem para erros. Com a integração tecnológica, havia uma redução drástica em imprecisões.
"Outra questão é a Big Data, que gente vai conseguir avaliar a população brasileira ao mesmo tempo", ressalta o pesquisador. A cooperação permitirá que pacientes internados em locais distantes, como Manaus, tenham seus dados compartilhados com institutos de referência, possibilitando acompanhamento e orientação médica à distância.
Ele destaca ainda que a sistematização dos processos — desde o fluxo do paciente dentro da instituição até o acompanhamento após a alta hospitalar — é um elemento central para garantir a qualidade do atendimento.
"Ter essa automação hospitalar é algo revolucionário, porque hoje a gente trabalha muito com uma medicina que está mais ali no final do século XX, começo do século XXI. Nós vamos dar um passo significativo para a medicina do século XXI, de fato."
Para Maria Helena Rodrigues, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e pesquisadora do BRICS Policy Center, a construção do novo hospital é uma iniciativa única de cooperação entre os países do BRICS, ressaltando sua capacidade de ser replicado em outros lugares. Sobretudo, o ITMI reforça a estratégia do grupo de atuar para além de objetivos econômicos.
"Primeiro, porque saúde é um assunto que ficou muito claro, desde a cúpula dos BRICS aqui no Brasil, que vai ser um ponto fundamental da agenda BRICS. E segundo, porque é um tema totalmente sensível e importante e que precisamos, obviamente, avanços para esses pontos que são tão importantes para a sociedade."
A professora lemra que a cooperação tecnológica entre Brasil e China, inspirou a iniciativa do ITMI para o sistema de saúde. No ano passado, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, foi a Pequim em missão oficial para conhecer hospitais inteligentes, como o hospital inteligente universitário Tiantan. Padilha também se encontrou como ministro da Saúde chinês, Lei Haichao, onde discutiram parcerias bilaterais entre os dois países, destacando acordo firmado para que países do BRICS se unam para a eliminação de doenças socialmente determinadas, como dengue, tuberculose e HIV/AIDS.
No médio e longo prazo, a pesquisadora acredita que o projeto poderá ser estendido e ser replicado em diferentes lugares do Brasil, dizendo que poderá receber pacientes de estados como o Amazonas, Bahia ou Pará. O ITMI tem a expectativa de estar pronto daqui a dois a três anos.
Para a professora, o novo hospital será um dos exemplos mais concretos de cooperação do Sul Global, sendo um ponto estratégico na parceria tecnológica entre os países.
"Sobretudo porque o que me parece mais interessante é que essa cooperação será perceptível na prática para o cidadão comum. Hospitais e clínicas poderão atuar em uma iniciativa que não é apenas brasileira, mas que dialoga e reflete propostas semelhantes que também estão sendo desenvolvidas em outros países."