Panorama internacional

Acirrar conflitos ao redor do mundo é central para a economia dos EUA, afirma analista

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que a indústria bélica move a economia norte-americana e conflitos ao redor do mundo são usados para estimular setores que vão além da defesa, como tecnologia e construção civil.
Sputnik
Invasão à Venezuela, ameaças à Groenlândia, genocídio na Faixa de Gaza e conflito na Ucrânia. Em todas essas situações os EUA têm lucrado de maneira direta ou indireta, seja por meio de guerras por procuração, lucros exorbitantes ou fomentando a instabilidade objetivando outros fins.
A criação de crises ao redor do mundo parece ser a maneira norte-americana de fazer política externa, seja em governos republicanos ou democratas. Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas analisam como crises ao redor do mundo movem a economia norte-americana.
A indústria da guerra é um elemento central para mover o capitalismo contemporâneo, conforme aponta Tatiana Poggi, professora de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) e integrante do Núcleo Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa em Marx e o Marxismo (Niep-Marx) e Laboratório de História Econômico-social (Polis).
Ela explica que a indústria bélica é um grande gerador de lucros dentro do setor produtivo porque estimula outros setores ligados à produção de manufaturados.
"O capitalismo do pós-Segunda Guerra Mundial é fundamentalmente alavancado pela guerra ou por uma indústria da guerra, que envolve um complexo industrial muito maior do que simplesmente a indústria militar ou indústria de defesa, mas ela vai envolver a indústria de alta tecnologia, inclusive até a indústria de entretenimento, com a utilização de simuladores, videogames, jogos de computador."
Panorama internacional
EUA podem 'sacrificar' Israel em uma eventual grande guerra no Oriente Médio, opina especialista
Poggi acrescenta que, atualmente, a indústria bélica tem um ramo de serviços acoplados, dentre os quais o mais emblemático são os exércitos de mercenários, com empresas já famosas no setor como a Blackwater, que atua há tempos em guerras norte-americanas, e aquece outras empresas, como as de construção civil que atuam na reconstrução de países após conflitos.

"A indústria da guerra é uma indústria bastante complexa porque ela não necessita necessariamente que você seja uma das partes centrais envolvidas no conflito, você pode ser provedor de materiais e produtos", observa a analista.

Segundo ela, as guerras não necessariamente são usadas para desviar a atenção de problemas domésticos, mas, dependendo do contexto, têm um impacto nesse sentido. Um exemplo foi o 11 de Setembro.
"Nesse caso, o George Bush [ex-presidente norte-americano] usou muito esse ataque e teve um impacto realmente muito grande nesse sentido, desviou muito [a atenção], os problemas domésticos pareciam que nem existiam, a única pauta que existia era 11 de Setembro."
Outro elemento importante é a legitimação do incentivo à guerra. Poggi explica que, se em séculos anteriores a retórica usada para legitimar guerras era levar a civilização para povos bárbaros, hoje a justificativa para ataques e invasões a outros países é a defesa da democracia contra tiranos.
"É uma estratégia legitimadora do imperialismo, justamente para você esconder o imperialismo. Você não vai dizer que é imperialismo, você vai dizer que está indo lá salvar as populações coitadas dos tiranos. Mas, enfim, isso move não só a indústria bélica, move diversos setores", afirma.
Panorama internacional
O verdadeiro motivo pelo qual os EUA têm medo do fim da hegemonia do dólar
Alimentar guerras para impulsionar o complexo militar é consenso bipartidário nos EUA, aponta Willliams Gonçalves, professor de relações internacionais aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).
Ele lembra que na gestão de Joe Biden os EUA financiaram o conflito ucraniano e o ataque de Israel à Palestina.
"A base, portanto, do governo [dos EUA] é essa, o complexo industrial militar, a fabricação e venda de armas e uso de armas pelas Forças Armadas dos EUA", resume o analista.
Ele enfatiza que a diferença na atual gestão de Donald Trump é que o republicano não se apoia no complexo militar, mas nas Big Techs. Outra mudança promovida pela gestão Trump foi abandonar o discurso da defesa de direitos humanos.
"Isso não é preocupação para ele. A preocupação dele é fazer com que os Estados Unidos obtenham a maior vantagem possível em todos os jogos que disputam."
Outra mudança dos EUA na gestão Trump apontada por Gonçalves é um maior foco econômico, comercial e regional. Ele afirma que Trump não almeja mais a posição hegemônica dos EUA, mas não admite que o dólar deixe de ser a moeda de referência internacional em transações, algo que é ambicionado pelo BRICS.
"Para ele isso é inadmissível, porque aí sim, se o dólar deixa de ser a moeda internacional, aí os EUA entrarão em queda livre mesmo. Se a queda dos EUA está se dando pela escada, se perder o dólar como moeda internacional, aí a queda vai ser pelo elevador", explica o analista.
Já no recorte regional, o analista aponta que a administração Trump reconhece que o mundo hoje é multipolar e busca se firmar como polo de poder nas Américas, o que resultou no episódio do ataque à Venezuela e sequestro do presidente Nicolás Maduro.
"Os outros polos de poder são, evidentemente, a China e a Rússia e a Índia. [...] Ele não contesta isso, razão pela qual ele trabalha para fortalecer a sua área de influência, porque um mundo multipolarizado é um mundo dividido em áreas de influência. A questão passa a ser, na multipolarização, quem é polo e quem é dependente."
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!

Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.

Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).

Comentar