As ameaças de sanções econômicas a países europeus e alusões sobre o uso da força por Washington para adquirir a Groenlândia parecem ter motivado a Europa a agir e repensar quem são seus aliados e rivais. Em resposta às declarações dos Estados Unidos, o Parlamento Europeu decidiu suspender o acordo comercial firmado com os norte-americanos. Lideranças europeias questionam se é viável uma ratificação devido à tensão transatlântica.
Por outro lado, o presidente da França, Emmanuel Macron, sugeriu em uma mensagem privada ao presidente dos EUA, Donald Trump, uma reunião do G7 com a presença da Rússia como uma observadora, assim como Ucrânia, Dinamarca e Síria, para tratar o conflito ucraniano, a crise na Groenlândia e a cooperação síria. Macron também defendeu durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, que a próxima cúpula do G7 discuta um fortalecimento da cooperação com o BRICS a fim de conectar as economias do Sul Global com os países do Norte.
Apesar de ser vista como concorrente industrial, a China tem ampliado sua presença produtiva na Europa e impulsionado uma reestruturação industrial no continente. Em 2024, o estoque de investimento direto chinês na UE superou US$ 109 bilhões (cerca de R$ 564 bilhões), com quase 3 mil empresas atuando nos 27 países e mais de 260 mil empregos locais. A expansão se concentra sobretudo em veículos elétricos e baterias, com projetos em países como Hungria, Alemanha e França, indicando uma estratégia de produção local e fortalecimento de cadeias tecnológicas europeias.
Além disso, o acordo comercial entre UE e Mercosul — mesmo após ter sido brecado temporariamente pelo Parlamento Europeu e encaminhado para revisão jurídica — continua sendo um elemento estratégico de aproximação entre a Europa e parceiros como o Brasil. Em 2024, a corrente de comércio entre a União Europeia e os quatro países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) superou €111 bilhões (cerca de R$ 687 bilhões), com cerca de €55,2 bilhões (cerca de R$ 342 bilhões) em exportações europeias e €56 bilhões (cerca de R$ 347 bilhões) em importações desses países para o bloco.
Tais gestos mostram que o continente está apostando em uma ordem multipolar para conter a agenda hegemônica da Casa Branca. Isso significa que o alinhamento automático da Europa com os Estados Unidos está se rompendo? Poderia evoluir para uma ruptura da aliança transatlântica? E como o BRICS pode tirar maior proveito dessa necessidade europeia?
À Sputnik Brasil, Guilherme Casarões, cientista político e professor da Universidade Internacional da Flórida, nos EUA, explica que essa vontade europeia vem desde o fim da Guerra Fria, mas a aliança de defesa do continente com o país norte-americano impedia que esse projeto avançasse. "Na prática, as relações de dependência securitária com os EUA, mesmo quando tensas (como na guerra do Iraque), impediram a concretização desse projeto", diz Casarões.
"Hoje, com o enfraquecimento da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e as ameaças do governo Trump, a multipolaridade volta a ser um tema para os europeus, mas de maneira discreta. Ainda não há consenso dentro do bloco sobre que rumo o continente deve seguir."
Apesar das ameaças e atitudes unilaterais da Casa Branca, Casarões não vê uma ruptura entre a UE e os EUA. "Os riscos para Trump de abandonar a OTAN são muito grandes e ele tem buscado calibrar seu discurso, sobretudo no tema da Groelândia. Economicamente, os laços de interdependência ainda são consideráveis."
"Um cenário de ruptura só me parece possível se houver, da parte dos EUA, alguma ação militar contra a soberania de um país europeu ou uma mudança drástica de posição sobre a Ucrânia."
Sobre o BRICS, apesar de ter ganhado grande projeção nos últimos anos — sobretudo após a ampliação do grupo e o aumento de sua relevância econômica e diplomática —, este ainda mantém relações limitadas e pouco estruturadas com a Europa. Como explica Casarões, desde a criação do BRICS, os países europeus optaram por manter uma postura de distanciamento e, em alguns momentos, até de antagonismo.
Vale lembrar que mesmo com o crescimento do BRICS e a criação de instrumentos próprios — como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e iniciativas para ampliar o comércio em moedas locais —, a Europa não desenvolveu canais permanentes de diálogo com o grupo enquanto bloco, preferindo negociar com seus integrantes de forma bilateral. Casarões acredita que essa aproximação tem mais haver com certos membros do grupo, como Brasil e China, do que uma ação coordenada de União Europeia e BRICS.
Na prática, isso faz com que a relação UE–BRICS permaneça marcada por interesses pontuais, especialmente no comércio e na energia, mas sem uma aproximação política consistente. Ainda assim, o avanço de uma ordem mais multipolar e a necessidade europeia de diversificar parceiros estratégicos podem abrir espaço para uma recalibração gradual dessa distância, sobretudo em áreas onde há convergência pragmática, como infraestrutura, transição energética e cadeias globais de suprimentos.
Sobretudo, a relação comercial entre China e UE deve sofrer maiores alterações nesse tópico, segundo Evandro Menezes de Carvalho, professor de direito internacional da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Universidade de Língua e Cultura de Pequim. Para ele, haverá uma recalibragem nessa relação, já que o país é tanto um grande concorrente comercial como um investidor com potencial significativo para projetos de desenvolvimento econômico e social na Europa.
Um exemplo do investimento chinês em solo europeu, o Porto de Pireu, na Grécia, recebeu investimentos da estatal chinesa COSCO (China Overseas Shipping Company, do inglês) como parte da iniciativa "Cinturão e Rota", um projeto que planeja conectar o comércio de diversos países e que está sendo visto como a "Nova Rota da Seda". Até 2024, mais de 100 países aderiram ao projeto, sendo que 28 são da Europa e 17 da União Europeia.
"Uma ordem multipolar desafia o poder hegemônico dos Estados Unidos já em processo irreversível de declínio. Resta aos EUA o uso da força para preservar a sua posição hegemônica", afirma o professor. "Ademais, a Europa percebeu que perdeu certa relevância econômica e militar em comparação com vinte anos atrás, e muito devido à sua excessiva confiança na relação com os EUA."
Segundo Menezes de Carvalho, a posição da Europa é de adotar uma postura mais pragmática e seletiva em relação a Pequim: aprofundar laços em setores onde exista forte complementaridade econômica e baixo risco para a segurança e defesa nacionais. Ao mesmo tempo, em temas ligados à soberania e à integridade territorial, é natural que haja maior cautela, com uma leitura da China ainda como uma rival estratégica.
Por fim, o professor ressalta que a existência de regras claras que determinam os limites a serem observados pelos governos em suas relações internacionais e uma prática de diálogo que permita a construção de confiança mútua são condições importantes para manter o equilíbrio na relação UE-China.
"Em alguma medida, todos os países são potencialmente rivais entre si. Mas se o mundo se organizar apenas sob essa perspectiva, a desconfiança mútua criará mais obstáculos do que pontes para o entendimento entre as nações."