A publicação destaca que a presença de um grande número dessas linhas claras sugere que vários processos geológicos ainda estão ativos no planeta.
Anteriormente, acreditava-se que Mercúrio era um mundo "morto e sem graça" por não apresentar atividade aparente. No entanto, as alterações e novas formações em sua superfície podem indicar aos cientistas que algo continua a acontecer em seu interior.
Exemplos de diferentes áreas de formação de linhas de inclinação
O astrônomo Valentin Bickel, da Universidade de Berna, na Alemanha, e seus colegas do Observatório Astronômico de Pádua, na Itália, realizaram um levantamento que cobre 402 dessas linhas. Após um estudo detalhado, a equipe traçou um retrato completamente novo de Mercúrio.
Com o uso de tecnologias de inteligência artificial e aprendizado de máquina, os cientistas analisaram cerca de 100 mil imagens da superfície do planeta, capturadas entre 2011 e 2015.
Linhas nas encostas de uma cratera em Mercúrio, fotografadas pela sonda MESSENGER em 10 de abril de 2014
"Os resultados de sua pesquisa mostram que as longas linhas brilhantes na superfície de Mercúrio tendem a se concentrar nas encostas de crateras voltadas para o Sol, embora nem sempre pareçam emanar de depressões", afirma o texto.
Acredita-se que tais faixas deveriam desaparecer rapidamente devido à ação de diversos fatores físicos. O fato de não estarem se apagando em Mercúrio, porém, indica que essas formações continuam a surgir nos dias de hoje.
Linhas nas encostas de uma cratera em Mercúrio, fotografadas pela sonda MESSENGER em 10 de abril de 2014
Em outras palavras, não se tratam de vestígios de um passado turbulento, mas sim de sinais de um presente mercuriano movido pelo fluxo de calor e de substâncias voláteis, como enxofre, provenientes do interior do planeta.
"Os materiais voláteis podem alcançar a superfície a partir de camadas mais profundas, por meio de redes de fissuras na rocha causadas por impactos anteriores", explica Bickel.
Hipótese conceitual sobre a formação de estruturas lineares nas encostas de Mercúrio
Os cientistas também explicaram que a maioria das faixas parece ter se formado a partir de depressões leves, as chamadas cavidades ou depressões. Essas cavidades provavelmente também se formaram pela liberação de substâncias voláteis e costumam estar localizadas no interior raso das crateras ou ao longo de suas bordas.
A equipe espera confirmar sua hipótese com novas imagens de Mercúrio obtidas por missões da Agência Espacial Europeia (ESA) e da Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA).