A cidade de Azaila, no nordeste da atual Espanha, foi destruída durante as brutais guerras sertorianas, entre 76 e 72 a.C.
Embora sua arquitetura tenha sido destruída, um grande número de artefatos com inscrições na língua antiga foi preservado nas ruínas, ajudando os pesquisadores a entender o nível de alfabetização na Península Ibérica pré-romana.
De acordo com os estudiosos, a escrita era parte integrante do cotidiano dos sedetanos. Quase todas as inscrições, mais de 96%, estão em língua ibérica, enquanto um pequeno número de textos aparece em latim, refletindo a crescente influência romana antes da destruição da cidade.
Ruínas da zona comercial de Azaila, via Empedrada, Espanha
A prática da escrita não era prerrogativa de sacerdotes, elites ou funcionários. Ela estava presente em cozinhas, depósitos e mercados, afirmam os arqueólogos.
"As placas estavam marcadas com inscrições indicando seu dono. As ânforas traziam nomes, pesos ou conteúdo. Até os modestos pesos de barro eram decorados com símbolos e letras que transmitiam informações práticas", explicam os pesquisadores.
Diferentemente das caras cerâmicas italianas, as cerâmicas ibéricas se distinguem por exibir inscrições em local de destaque, com letras grandes e textos longos. Isso reflete, em primeiro lugar, a abordagem funcional dos povos ibéricos no uso de utensílios domésticos.
Em muitas vasilhas para armazenar grãos ou vinho, os arqueólogos encontraram nomes, designações numéricas, selos e rótulos pintados contendo informações sobre o proprietário, volume, idade do vinho ou valor do produto.
Muitas inscrições consistem em nomes pessoais, às vezes abreviados, outras vezes completos. Um exemplo particularmente vívido é "etesike-en-ni", interpretado como "pertencente a Etesike", usando partículas possessivas características da língua ibérica.
No entanto, nem todas as palavras são nomes. Na cerâmica local, os pesquisadores encontraram sequências mais longas que provavelmente se relacionam com o vocabulário cotidiano, o que proporciona uma rara visão sobre o ibérico falado.
Uma das raízes frequentes, "kutu-", aparece em muitos objetos e está associada à própria escrita, possivelmente significando "texto" ou "inscrição".
Ainda mais intrigante, porém, é o aparecimento da palavra "belenos" em duas ânforas. Os linguistas sugerem que pode ser um empréstimo da língua celtiberiana, significando meimendro, uma planta venenosa usada na medicina e em rituais.
Os arqueólogos enfatizam que o súbito estouro da guerra, que destruiu a cidade e obrigou as pessoas a abandoná-la, contribuiu para que esse "arquivo" de inscrições em utensílios domésticos ficasse para sempre selado nas ruínas.
Hoje, as inscrições em utensílios domésticos não são menos valiosas do que documentos oficiais ou manuscritos de povos antigos, pois refletem seu dia a dia, sobre o qual muito pouco se sabe.