Panorama internacional

Análise: balança comercial Brasil-Rússia é prejudicada por soluções industriais brasileiras pobres

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas explicam que o Brasil não tem muito o que oferecer em produtos de alto valor agregado à Rússia, o que leva ao déficit de Brasília em relação a Moscou. Desdolarização e intercâmbios podem ajudar na aproximação das nações.
Sputnik
O vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, recebeu nesta quinta-feira (5) o primeiro-ministro da Rússia, Mikhail Mishustin, em Brasília para a realização da 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN) com objetivo de fomentar a parceria comercial entre os dois países.
No discurso de abertura, Alckmin ressaltou que as transações entre Brasil e Rússia chegaram a US$ 10,9 bilhões (cerca de R$ 57,5 bilhões) em 2025, embora reconheça um potencial ainda maior para o comércio bilateral. Segundo o vice-presidente, um dos entraves é a dificuldade logística, também pontuada por Mishustin.
Alckmin deu ênfase para a necessidade de um crescimento "com mais equilíbrio e valor agregado", em meio a uma balança comercial extremamente desfavorável ao Brasil. Segundo números divulgados pela ApexBrasil, a economia brasileira exportou US$ 1,5 bilhão (aproximadamente R$ 7,8 bilhões) para o território russo, enquanto importou US$ 9,4 bilhões (mais de R$ 49,5 bilhões).
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas explicaram que há um enorme desafio para equilibrar a balança comercial entre as duas nações, já que o Brasil não possui itens de alto valor agregado que possam interessar à Rússia. Enquanto são importados das companhias russas derivados de petróleo, minerais e fertilizantes, os empresários brasileiros exportam carne bovina, café e soja.
Giovana Branco, doutoranda em ciência política na Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora de política russa, conta que Alckmin está correto em reivindicar uma balança mais equilibrada, mas que o problema não está na questão comercial e sim na indústria brasileira. A analista entende que está é uma questão sem solução imediata.
"Não consigo ver, em um curto prazo, como solucionar isso sem que exista um investimento nacional na indústria para que a gente possa, de fato, competir. E é interessante pensar na Rússia também como receptora desses produtos, apesar da distância, da questão logística, mas também como um dos principais parceiros comerciais do Brasil nesse momento."
Branco destaca que a indústria brasileira é muito forte, por exemplo, na construção civil, no entanto, a própria Rússia também é referência neste setor. Em outras áreas, como saúde, há uma grande competição internacional que dificulta as intenções de Brasília.
"Talvez uma inserção interessante fosse o mercado médico, com questões de saúde, medicamentos, e tudo mais. Mas aí também tem outros competidores internacionais relevantes, como a própria Índia. [...] Diria que é primeiro o Brasil fazer essa autocrítica de o que a gente pode melhorar no mercado nacional, para daí sim pensar no mercado de exportação e nessas relações comerciais globais."
Outra questão que precisa ser driblada para a intensificação das vendas entre os países são as questões logísticas. Além da própria distância geográfica Brasil-Rússia, Branco ressalta os desafios para o transporte de carga em ambas as nações.
"A gente já fala há anos sobre o chamado Custo Brasil, que é justamente esses custos a mais de logística para que essas mercadorias sejam distribuídas no mercado nacional. E isso na Rússia também acontece porque a Rússia tem uma concentração muito grande de pessoas, de recursos e de indústrias em apenas algumas regiões do seu país."
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Desdolarização é tema comum a Brasil e Rússia

O premiê Mishustin citou durante seu discurso a importância da adoção de moedas locais na relação bilateral entre os países, afirmando que tanto Brasil quanto Rússia atuam na linha de frente para o crescimento da multipolaridade.
Rafaela Mello Rodrigues de Sá, doutoranda em ciência política na McMaster University e pesquisadora associada do Public Banking Projetc, explica que este assunto é amplamente discutido pelo BRICS, do qual Brasil e Rússia são membros-fundadores.
A especialista cita como exemplo as iniciativas BRICS Payment Taskforce, BRICS Interbank Cooperation Mechanism e BRICS Cross-Border Payments Initiative, que são soluções que buscam acelerar o processo de desdolarização das transações entre países do grupo.
"Estas iniciativas no âmbito do BRICS vem sendo incentivas por Rússia e Brasil, e poderá facilitar a criação de estruturas mais propícias para a gradual redução do uso de dólar nas transações bilaterais destes países, particularmente no atual contexto de instabilidade da moeda estadunidense."
Para Branco, a utilização das moedas próprias em negociações internacionais deve ser iniciada em comércios bilaterais para, em um momento seguinte, elevar este tipo de troca financeira para grupos, como o próprio BRICS.
Ainda de acordo com a especialista, o primeiro passo é criar mecanismos financeiros que não estejam sob a tutela de instituições do Norte Global, como Estados Unidos e Europa Ocidental.
"O que falta é um sistema bancário eficiente, que a gente consiga, de fato, não apenas não usar o dólar, mas não usar as plataformas financeiras ligadas aos Estados Unidos e à Europa, de uma forma mais geral."

Conexão cultural-educacional

Ambas as especialistas enfatizaram a importância do intercâmbio entre brasileiros e russos, defendido por Alckmin tanto no campo educacional quanto no campo cultural.
Para Sá, ações deste tipo geram um estreitamento em diversos setores para além de ciência e tecnologia, já que uma "maior compreensão de ambas as realidade poderá facilitar a identificação de desafios semelhantes" e criar "soluções coordenadas de iniciativas de cooperação". A analista cita como uma iniciativa deste tipo o BRICS Network University.
"Há atualmente diversas iniciativas, particularmente no escopo do BRICS, que promove o intercâmbio cultural e educacional entre Brasil e Rússia, como, por exemplo, a iniciativa do BRICS Network University, que vem provendo o diálogo entre as instituições de ensino superior dos países BRICS desde 2015 como uma plataforma de projetos comuns, mobilidade acadêmica e programas educacionais."
Branco também concorda que o desejo do vice-presidente brasileiro possa ser positivo para as relações comerciais dos dois países, já que a conexão entre pessoas permite um intercâmbio de ideias, inclusive em questões industriais de alta tecnologia, como no setor de energia nuclear.
"Talvez o primeiro passo, de fato, seja esse intercâmbio cultural em menor escala, o universitário que vai para a Rússia e o universitário russo que vem para cá. Mas é óbvio, no longo prazo, a gente acaba construindo canais de comunicação e relações de confiança, e isso pode, sim, transbordar para a questão econômica."
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