Emirados Árabes Unidos apostam na América Latina com tratados e investimentos
03:04, 6 de fevereiro 2026
A "segurança alimentar" da América Latina e a necessidade de investimentos são os principais atrativos que os Emirados Árabes Unidos veem na região, destacam especialistas consultados pela Sputnik. Nos últimos dias, Equador e Paraguai se juntaram à extensa lista de países latino-americanos que fortalecem seus vínculos com o país do Golfo.
SputnikCom poucas horas de diferença,
os Emirados Árabes Unidos assinaram acordos comerciais com os governos do Paraguai e do Equador, no contexto do processo de aproximação com a América Latina que o país do Golfo iniciou anos atrás e que lhe rendeu diversos acordos comerciais na região.
Tanto o
presidente equatoriano,
Daniel Noboa, quanto o paraguaio,
Santiago Peña, visitaram a cidade de
Dubai nos primeiros dias de fevereiro para participar da
Cúpula Mundial de Governos, realizada anualmente na cidade dos Emirados.
Em encontros com o presidente dos Emirados Árabes Unidos,
Mohamed bin Zayed Al Nahyan, os
mandatários sul-americanos fortaleceram as agendas bilaterais com o país árabe.
A delegação equatoriana retornou com um
Acordo de Parceria Econômica Abrangente (CEPA, na sigla em inglês), enquanto o
governo do Paraguai assinou memorando de entendimento sobre "modernização governamental", aproximações nas áreas de energia e conectividade aérea, e um acordo para que a empresa
Etihad Rail invista
US$ 450 milhões (R$ 2,3 bilhões) na recuperação de um
Trem de Cercanias na capital Assunção.
Em diálogo com a Sputnik, o analista internacional argentino especializado no Oriente Médio,
Paulo Botta, apontou que o interesse crescente dos Emirados Árabes Unidos pelos países da América Latina se manifesta em
três tipos de acordos que o país assinou nos últimos anos: acordos de Promoção e Proteção de Investimentos, os acordos CEPA e os
acordos de livre comércio.
Botta, diretor para a América Latina do think tank com sede em Abu Dhabi Trends Research & Advisory, lembrou que os EAU assinaram em 2024 um acordo recíproco de proteção de investimentos, considerado "a porta, em termos macroeconômicos, para os investimentos".
O acordo CEPA assinado recentemente com o Equador se soma a outro de caráter semelhante, assinado em 2024 com o Chile, aproveitando uma visita do presidente chileno, Gabriel Boric. O tratado permitiu eliminar tarifas para 97% dos produtos que o Chile exporta para o país árabe, como cobre, celulose, alimentos, frutas e vinhos.
"Cada país da região tem seu principal interesse com os Emirados Árabes Unidos. Há grandes expectativas, e os países estão construindo suas estratégias aos poucos, começando com acordos de proteção de investimentos, depois os de livre comércio e, por fim, os CEPA", avaliou o especialista.
Botta destacou que, paralelamente a esses acordos, os Emirados Árabes Unidos continuam apostando na assinatura de um Tratado de Livre Comércio (TLC) com o Mercosul. A negociação do acordo começou em 2024 e espera-se que seja concluída em 2026 com a assinatura do tratado.
O que os EAU buscam na América Latina?
Um estudo das especialistas argentinas em Relações Internacionais, Ornela Fabani e Julieta Zelicovich, intitulado Novos parceiros: a aproximação entre Emirados Árabes Unidos e América Latina, mostra que em pouco tempo a América Latina se tornou um destino-chave para a estratégia de expansão de acordos comerciais dos Emirados.
"Em apenas cinco anos, foram abertas negociações comerciais com nove economias latino-americanas, por meio de seis novos CEPAs. Colômbia, Costa Rica, Chile, Peru, Mercosul e Equador foram as contrapartes dos EAU. Destes, três acordos foram recentemente concluídos", destaca o documento.
As pesquisadoras também apontam que a maioria dos países da região aumentou significativamente seu comércio com os Emirados Árabes Unidos entre 2019 e 2022. Os casos mais expressivos foram: o Brasil, que registrou um aumento de 389% nas importações vindas dos EAU; Equador, que aumentou suas exportações para o país em 259%; Colômbia, com aumento de 159% nas exportações.
O relatório conclui que os acordos assinados ou em negociação pelos Emirados Árabes Unidos com a América Latina passariam despercebidos isoladamente, mas, em conjunto, confirmam o interesse crescente da região latino-americana no cenário internacional e como a instabilidade geopolítica tornou mais atraentes os vínculos sul-sul.
Botta enfatizou que, em seus contatos com a América Latina, os Emirados Árabes Unidos demonstram
interesse particular na "segurança alimentar" que os países latino-americanos podem oferecer. Além disso, nas conversas surgem cada vez mais acordos de cooperação em
Inteligência Artificial, um campo especialmente importante para os Emirados, o primeiro país do mundo a contar com um Ministério da Inteligência Artificial.
O especialista apontou que, embora se trate de um mercado de apenas dez milhões de habitantes, os EAU tornam-se atrativos graças à sua "rede global de acordos" e à aposta em se consolidar como um "nó logístico" de relevância mundial.
Assim, impulsionados por sua empresa logística DP World e por seus terminais de carga em portos estratégicos da América do Sul — como Buenos Aires, Callao, no Peru, e Santos, no Brasil —, os Emirados buscam se firmar como um agente-chave para a reexportação de alimentos e produtos latino-americanos para outros países do Golfo e do Oriente Médio.
Durante sua visita a Dubai, o presidente paraguaio Santiago Peña buscou posicionar seu país como um
parceiro estratégico dos Emirados Árabes Unidos na América do Sul.
Peña procurou apresentar o Paraguai às autoridades dos Emirados como "um hub logístico regional, apoiado em sua localização estratégica, na rede de rios navegáveis, na Rota Bioceânica e em sua capacidade de conectar mercados da América do Sul, do Oriente Médio e da Ásia”. Ele também destacou a "liderança paraguaia em energia renovável".
A analista internacional Julieta Heduvan explicou à Sputnik que os esforços do Paraguai para aprofundar a relação com os Emirados Árabes Unidos já vêm de alguns anos, lembrando que o país sul-americano abriu uma embaixada em Abu Dhabi em 2023.
"As embaixadas são caras, mas também são um investimento estratégico, e neste caso o Paraguai acertou", avaliou a especialista.
Também ouvido pela Sputnik, o analista internacional paraguaio Héctor Sosa Gennaro afirmou que o investimento anunciado na reabilitação de um Trem de Cercanias em Assunção viabiliza um projeto estratégico de mobilidade urbana que, por si só, o país sul-americano não teria condições de financiar.
Segundo Sosa Gennaro, o Paraguai pode ser particularmente atraente para os Emirados Árabes Unidos por manter "um sistema tributário bastante flexível e com custos baixos em comparação com outros países da região". A isso somam-se facilidades nas condições trabalhistas e a disponibilidade de fontes de energia suficientes para sustentar possíveis investimentos.
Heduvan concordou que, nesse contexto, os Emirados Árabes Unidos "podem se tornar um parceiro importante tanto para o Paraguai quanto para o Mercosul, especialmente em investimentos" já que a região é vista pelos emiradenses como "um grande mercado com uma fome voraz por investimentos".
"O papel do Paraguai como impulsionador e coordenador das negociações entre o bloco e os Emirados lhe permite ganhar visibilidade regional e, ao mesmo tempo, canalizar benefícios concretos para o seu próprio território", destacou Heduvan, ressaltando o protagonismo paraguaio como um dos principais articuladores das negociações entre o Mercosul e os Emirados Árabes Unidos.
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