Panorama internacional

BRICS em cena: Oscar é legal, mas cinema brasileiro precisa 'olhar para o Oriente com mais carinho'

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que iniciativa do BRICS reúne indústrias cinematográficas de países que, juntos, produzem mais filmes que os EUA e têm uma história no setor maior que a do cinema norte-americano.
Sputnik
O cinema brasileiro vive um momento de projeção mundial com o reconhecimento nacional e internacional do filme "O agente secreto", premiado no Globo de Ouro um ano após o filme "Ainda estou aqui" recolocar o Brasil no mapa das premiações globais.
O governo brasileiro vem aproveitando o bom momento para estimular produções nacionais, no intuito de tornar a ascensão do cinema nacional não apenas um episódio pontual, mas uma indústria cinematográfica sólida. Uma das iniciativas nessa direção é a cota para produções nacionais em exibições em salas de cinemas, que passa a valer neste ano.
Outra forma de estimular o setor é por meio do BRICS. Criado em 2016, com o objetivo de fortalecer as relações culturais internacionais, o Festival de Cinema do BRICS é um evento anual itinerante realizado pelo país que assume a presidência do grupo.
O festival conta com a gigante indústria indiana de Bollywood e o mercado cinematográfico chinês, o maior do mundo, que somente em 2025 alcançou 9,82 bilhões de yuans (cerca de R$ 7,3 bilhões) em bilheteria, superando o desempenho dos EUA.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam como as produções de países do BRICS podem ampliar a economia e o capital diplomático dos membros.
Rafael de Luna Freire, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e vice-diretor do 4º Festival de Cinema do BRICS, realizado em 2019, explica que a criação de um arranjo como o BRICS é pautada por iniciativas de cunho econômico, pelo interesse na aproximação de mercados e pela ampliação do comércio internacional, mas destaca que a cultura também tem um papel fundamental.

"Os povos se conhecem melhor, eles podem ampliar seus negócios. E, obviamente, a indústria cultural também é um ativo econômico fundamental a ser incluído nessas negociações. […] então eu acho que é natural e importante que a cultura, e dentro da cultura o cinema, seja incluída como um tema nas negociações, nas ações e nos projetos do BRICS."

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Ele acrescenta que no Brasil há uma visão tradicional de que o principal cinema é o norte-americano, que expandiu sua indústria para o mercado internacional após a Primeira Guerra Mundial com o objetivo de exportar a imagem do modo de vida estadunidense e negociar produtos.
"Tinha um lema, inclusive, da indústria cinematográfica, de que depois dos filmes vêm outros negócios. E, se a gente pensa no BRICS, não só em termos de PIB, mas também em termos de cinema, ele inclui indústrias cinematográficas poderosíssimas, como a da China, a da Índia, a da Rússia e a do Brasil, que juntos produzem mais filmes, têm uma história maior que a do cinema americano", destaca Freire.
Ele enfatiza que, se os filmes chineses tiverem sucesso só na China, os filmes russos só na Rússia e os brasileiros só no Brasil, já terão alcançado um mercado muito maior que o de países europeus, que têm mercados internos bem pequenos, mas cinematografias muito conhecidas, como as de França, Alemanha e Inglaterra.
"Essas três indústrias [Brasil, China e Rússia] têm uma característica em comum que é fundamental e que foi também um dos motivos da ascensão do cinema americano, que é um grande mercado interno."
Para o cineasta João Amorim, o Brasil tem uma boa inserção no cinema mundial, principalmente no Ocidente, mas falta ao país uma política contínua de desenvolvimento da indústria cinematográfica, como ocorre na China e na Índia.
"A gente tem esses momentos bons do cinema brasileiro, entra algum dinheiro, surgem políticas de fomento… aí se acaba como aconteceu com o [governo] Collor, que fechou a Embrafilme, e aí por anos não tinha cinema no Brasil, as pessoas tiveram que mudar de profissão, até", argumenta.
Amorim é cético quanto aos eventuais efeitos benéficos da cota para produção nacional e avalia que o determinante, que vai ser votado neste ano, é a lei do streaming, "porque essa vai ser a regra do jogo agora".
Sobre o Festival de Cinema do BRICS, ele afirma que, de todos os países do grupo, o Brasil talvez faça o cinema que tem a maior aceitação no Ocidente, mas falta ao país um olhar para o Oriente, como é visto em produções de outros parceiros do arranjo.

"A gente tem muito a aprender com a China, e eu espero que com todos os países do BRICS. Eu acho que a gente tem que se fortalecer entre os países do BRICS, e é maravilhoso que o Oscar e todos os prêmios americanos estejam valorizando a nata do cinema brasileiro, mas eu acho que a gente precisa começar a olhar para o Oriente com mais carinho e vontade de estar lá."

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Leonardo Edde, diretor-presidente da RioFilme, ressalta à Sputnik Brasil que o cinema brasileiro "vive de ciclos" e já esteve em plataformas mundiais muitas vezes ao longo desses quase 125 anos de indústria cinematográfica nacional.
Ele lembra que o primeiro filme brasileiro que despontou no exterior foi "O pagador de promessas" (1962), mas acrescenta que, de fato, houve uma retomada do setor, iniciada com "Central do Brasil" (1998).
"O que a gente precisa é uma política pública, de fato, que seja perene, que seja uma política de Estado, que não varie de acordo com gestões ou com governos, mas sim que seja uma política do país para o mundo. Aí, sim, a gente vai conseguir ter uma recorrência muito maior e ter mais obras que participem dessas premiações no mundo todo", avalia.
Ele considera que a indicação para o Oscar abre portas e faz com que o filme ganhe uma amplitude de público muito maior.
"A primeira importância é usar todo o soft power que o Oscar tem a favor do filme. A partir do momento que 'O agente secreto' é o indicado brasileiro [à estatueta], o filme ganha uma maior relevância no público brasileiro e mundial."
Edde frisa que o Brasil tem um potencial de exportação de conteúdo muito grande, que vai conseguir ser sustentável quando for atingido, e cita como exemplo Hollywood. Ele afirma que o Brasil tem um mercado consumidor muito grande dentro do país, mas o mercado de fora precisa ser explorado para ter entrada de divisas estrangeiras.

"Entre 60% e 70% da receita de Hollywood vem da exportação de conteúdos, vem de fora dos EUA, embora o mercado interno seja muito grande também, e é muito maior do que o nosso. Nos EUA tem mais de 40 mil salas de cinema, aqui a gente está chegando a 3,6 mil, menos de 10% da quantidade de salas que tem nos EUA, e eles também dependem do mercado externo, da exportação de conteúdo."

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