A nova rodada de negociações entre Estados Unidos e Irã teve seu primeiro encontro na semana passada. No entanto, a reunião classificada pelo presidente Masoud Pezeshkian como "um passo à frente para a resolução pacífica das divergências" quase não ocorreu.
Poucos dias antes, Teerã e Washington ainda não haviam concordado nem no local das negociações, nem no formato das negociações. Para a Casa Branca, Teerã deveria abdicar de seu programa de enriquecimento nuclear, de seu programa de mísseis balísticos e do financiamento de atores locais, como o Hezbollah e o Ansar Allah.
Foi somente a partir da intervenção de nove países árabes que os Estados Unidos aceitaram se reunir com o Irã em Mascate, capital de Omã. Essa interlocução talvez não fosse possível se, em 2023, Pequim não tivesse atuado como mediadora da reaproximação entre Teerã e Riad, ampliando os canais de diálogo do governo iraniano.
Em outro frente, a mídia local informa que a Rússia tem atuado para reduzir as tensões entre Tel Aviv e Teerã nos bastidores. Tanto o Irã é um aliado estratégico da Rússia, com visitas frequentes de autoridades do governo iraniano ao Kremlin, quando Israel é "quase um país de língua russa", classificou o presidente da Federação da Rússia, Vladimir Putin, em diversas ocasiões. Depois de hebraico e árabe, o russo é a terceira língua mais falada no país.
"Para os países daquela região é fundamental fazer uma aliança com os russos e chineses para contrabalancear o poder americano", afirma à Sputnik Brasil o jurista, analista geopolítico e editor da Autonomia Literária, Hugo Albuquerque.
Nos últimos anos, o Oriente Médio se viu praticamente sob monopólio da influência comercial e estratégica dos Estados Unidos, mas agora, China e Rússia estão entrando por lá.
"A Rússia tem um interesse na parceria com os árabes, no que eles podem formular juntos na OPEP. [...] A China tem interesse na compra de energia, mas também nos caminhos que aquela região lhe reserva para acessar por terra a Europa."
Em específico, diz Rafael da Silva Firme, pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE) e do Núcleo de Pesquisa sobre Relações Internacionais do Mundo Árabe (NUPRIMA), a estabilidade regional interessa à China pois quase a totalidade do Oriente Médio está integrado à Iniciativa Cinturão e Rota. "A estabilidade regional é um pré-requisito para o retorno dos investimentos chineses em infraestrutura e conectividade".
"Além disso, há uma convergência de interesses: países do Conselho de Cooperação do Golfo buscam diversificar suas economias para além dos hidrocarbonetos, e a China se apresenta como o parceiro tecnológico e industrial ideal. Para Pequim, ampliar essa influência significa consolidar sua segurança energética e projetar-se como uma alternativa de liderança global."
Fora os interesses econômicos, ambos os países também se preocupam com questões securitárias. Diferente dos Estados Unidos, localizados em outro canto do mundo, Rússia e China fazem fronteira com o Irã, e uma desestabilização na região pode levar à ascensão de grupos terroristas, assim como ocorreu com o Daesh (Estado Islâmico, ou ISIS, organização terrorista proibida na Rússia e em muitos outros países) na guerra civil da Síria e do Iraque.
Mais importante que tudo isso, diz Firme, é que essa projeção de liderança de Moscou e Pequim apresenta uma alternativa de governança internacional fora do eixo tradicional, liderado pelo Ocidente, ou seja, uma transição para uma multipolaridade de fato.
"Nesse cenário, a China atua como o fiador econômico, utilizando sua capacidade de investimento para promover a desescalada de conflitos, enquanto a Rússia se posiciona como um intermediador de segurança, com capacidade de interlocução entre atores antagônicos", afirma o pesquisador.
E enquanto os Estados Unidos prioriza a dissuasão militar, Rússia e China ocupam o espaço de mediadores que dialogam com todos os atores, inclusive os classificados como inimigos pela Casa Branca.
"Essa movimentação visa menos uma paz altruísta e mais a construção de uma ordem regional multipolar, onde a influência estadunidense seja diluída em favor da estabilidade."