A disputa entre Estados Unidos e China em torno do Panamá e seu estratégico canal, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, ilustra a nova estratégia da Casa Branca para conter a presença de Pequim na América Latina e no Caribe, região que viu aumentar a presença comercial chinesa nos últimos anos.
Desde o início de 2025, o presidente norte-americano Donald Trump afirma que seu país retomará o controle sobre o canal do Panamá, que estaria sendo controlado de forma indireta pela China. A questão se deu em torno de portos próximos ao canal operados pela empresa CK Hutchison, sediada em Hong Kong.
Em janeiro deste ano, em uma decisão vista como favorável à Washington, a Suprema Corte do Panamá declarou a inconstitucionalidade dos contratos de operação dos portos pela companhia. Em resposta, a empresa decidiu levar a matéria a arbitragem internacional.
Para a China, que tinha no Panamá como um baluarte de sua Iniciativa Cinturão e Rota, popularmente conhecido como Nova Rota da Seda, houve clara interferência política da Casa Branca.
Em meio a essa disputa, o Brasil, segunda maior economia de todo continente americano, mantém negociações sobre sua participação na iniciativa chinesa.
Para Alexandre Coelho, coordenador e professor de relações internacionais do curso de pós-graduação em política e relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e ex-consultor jurídico do Banco da China, a situação aumenta o poder de barganha do Brasil, mas também aumenta a pressão sobre o país.
"Quanto mais estratégico o Brasil se torna, mais os dois lados esperam sinais de alinhamento em temas específicos."
Com tanto em jogo, a adesão à Nova Rota da Seda deixou de ser apenas uma decisão econômica e passou a ter um peso político significativo. Assinar o acordo agora poderia ser interpretado como um sinal de proximidade com Pequim.
Nesse contexto, a indecisão brasileira é uma vantagem, uma vez que permite manter parcerias com ambos os países. "A decisão pode ser postergada para um momento internacional menos polarizado [...]. O desafio brasileiro é manter equilíbrio, evitar decisões precipitadas e preservar relações construtivas com os dois lados."
O mesmo avalia Diego Pautasso, autor do livro "China e Rússia no Pós-Guerra Fria: Inserção Internacional e Transição Sistêmica - Coleção Relações Internacionais".
"Tendo em vista os tarifaço que o Brasil enfrentou recentemente e as medidas coercitivas contra o Supremo Tribunal Federal essa questão está longe de ser uma decisão trivial."
Pautasso, doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e cocriador do projeto Fios de China, detalha que a posição brasileira reforça o multilateralismo típico de sua política externa. Não é sobre estabelecer alianças rígidas, explica o especialista, mas sim analisar onde estão as melhores oportunidades e "estabelecer as relações que convêm".
A disputa entre a Casa Branca e Zhongnanhai pela América Latina e Caribe se acirrou a partir da nova política externa norte-americana, que vê a região ao seu redor como seu "quintal" provedor de recursos naturais.
Por outro lado, lembra Pautasso, ao longo das últimas duas décadas a China vem se tornando o principal parceiro comercial de quase todos os países da região. Uma série de países da região também aderiram à Iniciativa Cinturão e Rota, um claro sinal de que vem ocorrendo uma mudança na correlação de forças por aqui.
"E é essa queda de braço que a gente vai assistir nos próximos anos, e não há menor dúvida que o Brasil é o fiel da balança pelo seu tamanho, pela sua importância geoeconômica, demográfica e também diplomática."
Para ele, no entanto, em algum momento o país precisará tomar alguma posição, até mesmo porque o país almeja uma posição de liderança global, já sendo um membro de destaque do BRICS.
"O Brasil precisa, como dizia Deng Xiaoping, 'atravessar o rio tateando as pedras'. Definitivamente, vivemos um contexto internacional bastante inflamado, e a América Latina talvez seja um dos pontos focais."