Encélado, uma lua de apenas 500 quilômetros de diâmetro, revelou-se muito mais influente do que seu tamanho sugere. Uma nova análise de dados da missão Cassini mostra que seus efeitos eletromagnéticos se estendem por mais de meio milhão de quilômetros — uma distância superior à que separa a Terra da Lua.
A pesquisa, liderada por Lina Hadid, examinou quatro instrumentos da Cassini para entender como os gêiseres de água da lua geram perturbações de longo alcance. As colunas expelidas pelas fissuras do hemisfério sul se ionizam sob a radiação de Saturno, formando um plasma que interage intensamente com o campo magnético do planeta.
Essa interação cria as chamadas asas de Alfvén, ondas eletromagnéticas que se propagam ao longo das linhas do campo magnético, conectando Encélado aos polos de Saturno. Em vez de se dissiparem rapidamente, essas ondas refletem repetidamente entre a ionosfera do planeta e o toro de plasma que circunda a órbita da lua.
Cada reflexão gera novas ondas, formando uma complexa rede de estruturas eletromagnéticas que se espalham pelo plano equatorial de Saturno e alcançam altas latitudes. A Cassini detectou essas assinaturas em 36 ocasiões, muito além das distâncias previstas pelos pesquisadores.
As medições revelaram que as ondas de Alfvén se estendem por mais de 504 mil quilômetros — mais de 2.000 vezes o raio de Encélado. Segundo os autores, é a primeira vez que se observa um alcance eletromagnético tão vasto gerado por essa pequena lua, que funciona como um "gigantesco gerador" de energia em escala planetária.
A análise também identificou estruturas finas dentro da asa principal, formadas por turbulência que fragmenta as ondas em filamentos. Esses filamentos ajudam a transportar energia até altas latitudes da ionosfera de Saturno, onde surgem auroras associadas diretamente à atividade de Encélado.
Os resultados oferecem um modelo valioso para estudar interações semelhantes nas luas geladas de Júpiter e até em sistemas exoplanetários. Eles também reforçam a importância científica das futuras missões da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) a Encélado, previstas para a década de 2040, que deverão pesquisar essas dinâmicas com instrumentos mais avançados.