O inimigo está online: como serviços de Internet via satélite ameaçam a soberania nacional? (VÍDEOS)
13:45, 20 de fevereiro 2026
A tecnologia utilizada pelo cidadão comum também é usada no campo de batalha e em protestos para desestabilizar determinado governo que seja contrário aos princípios ocidentais. O Starlink, um dos principais fornecedores de Internet via satélite, vem sendo utilizado para esse fim, como aconteceu no Irã ao fornecer conectividade aos manifestantes.
SputnikA Starlink, empresa do empresário Elon Musk que presta esse tipo de serviço, atualmente participa de forma ativa no conflito na Ucrânia ao auxiliar tropas ucranianas e teve um papel intrusivo durante os protestos no Irã. Apesar de a companhia ser proibida de operar em território iraniano, mesmo assim usou seus satélites para disponibilizar conexão para grupos contrários ao governo.
Para Paulo Henrique Montini, pesquisador do grupo de pesquisa Estatística Aplicada e Computacional da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), o refinamento desse tipo de tecnologia é uma forma de ampliação da influência dos EUA em diversas regiões.
"Não se trata diretamente de uma ameaça militar tradicional, mas de uma ruptura do modelo de soberania que conhecemos. […] Antigamente, os países podiam exercer controle através dos cabos de comunicação. Era muito mais fácil assim. Desconectava o cabo e conseguia eliminar o problema. Isso hoje está mais difícil", disse Montini.
Outro ponto destacado por Montini é o desenvolvimento da guerra psicológica promovida por meio da conectividade em um sistema do qual é muito difícil controlar o acesso e os dados a serem compartilhados em uma determinada sociedade. Isso pode desencadear cenários ainda mais instáveis devido ao risco à soberania dos países no âmbito digital.
"Nos dias de hoje, quem controla a conectividade controla os fluxos de informação. Para a guerra moderna, que trabalha muitas vezes com influência cognitiva sobre as populações, isso abre um caminho perigoso para as nações do mundo. A segurança nacional de um país depende dessa coesão social entre os cidadãos. Por isso se fala hoje em soberania digital", comentou.
Сonforme Montini, "quem controla as redes de comunicações controla a soberania digital, inclusive de outros países".
Bloquear a Internet via satélite ainda não é possível
Para o professor do Departamento de Engenharia Mecatrônica e de Sistemas Mecânicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Marcos Pereira Barretto, que também é especialista em segurança cibernética e integrante do Instituto Minerva, o bloqueio desses sinais via satélite é praticamente impossível devido à complexidade da operação.
"Bloquear ondas de rádio é como tentar pegar o ar, ou seja, é algo impossível. É mais fácil derrubar o satélite. Hoje, conseguimos bloquear esse tipo de sinal em locais circunscritos, como em presídios, onde é possível usar o método da Gaiola de Faraday, que é um escudo feito para bloquear sinais. Mas fazer isso em uma cidade inteira é muito complexo pela dificuldade de empreender áreas capazes de gerar ondas destrutivas para tentar conter esse tipo de sinal", explicou.
Barretto também adverte que é mais fácil propagar o sinal do que cortá-lo, porque as antenas capazes de propagar esse tipo de sinal estão ficando cada vez mais miniaturizadas, o que dificulta o controle das autoridades de um país ao tentar conter essa conexão orbital. Além disso, o avanço dessa tecnologia permite maior controle de fluxos de dados de maneira remota.
"Atualmente, as antenas via satélite são facilmente disfarçadas e são imperceptíveis. É possível escondê-las em qualquer lugar por não se parecerem com antenas convencionais e serem menos visíveis do que uma placa de gerador solar. Cada vez mais, com o poder computacional aumentando, é possível observar todo mundo. É possível escutar qualquer tipo de comunicação via Internet ou telefone", pontuou.
Sul Global em 'xeque' e corrida tecnológica
Nesse contexto, Paulo Montini caracteriza o que é vivido hoje como "guerra de conectividade" e destaca que a tecnologia usada pela Starlink é bastante avançada para propósitos militares e de desestabilização social. Com isso, países em desenvolvimento, como o Brasil, correm sérios riscos de se tornarem cada vez mais dependentes de grandes potências.
"O conceito 'guerra de conectividade' já vem sendo debatido por especialistas. A Starlink é o que chamamos de 'infraestrutura dual-use'. Ela não é por si uma arma de guerra, mas tem forte impacto militar. Seu uso implica na precisão dos drones, que utilizam uma série de sensores para voar plenamente, e por esse motivo países menos desenvolvidos, como o Brasil, correm riscos. A capacidade informacional na guerra é uma força multiplicadora. Amplia capacidades militares, e por isso sistemas de radares são os primeiros alvos numa ação militar, por exemplo", enfatiza.
O pesquisador também prevê uma corrida entre os países desenvolvidos e com grande aparato militar para desenvolver seus próprios sistemas de operação própria. Nesse panorama, além de Washington, Montini vê Moscou e Pequim como grandes players nesse ecossistema informacional.
"Há uma corrida para o desenvolvimento de infraestrutura orbital comercial estratégica que pode definir quem manda no mundo. China e Rússia compreenderam isso e já estão desenvolvendo seus sistemas. E estão bastante concentrados nesse objetivo", analisou Montini.
Já o especialista em segurança cibernética, Marcos Barretto, aponta que, apesar de o Brasil ter satélites de observação, ainda não pode ser considerado uma potência no setor devido à sua limitação de atuar regionalmente.
"O Brasil é totalmente dependente de grandes potências. Não temos grandes linguagens de programação sendo desenvolvidas no país, e o que temos são satélites que atendem mais as empresas telefônicas ou são de observação. O impacto disso, por enquanto, é nenhum. Mas se o Brasil passar a incomodar, o impacto vai aparecer claramente", concluiu.
Com o avanço de sistemas de informação, como a ampliação do uso da Internet via satélite, além de promover maior interação entre indivíduos e grupos sociais em todo o mundo, essa evolução se transformou em mais uma arma de desestabilização geopolítica, tanto em conflitos armados em grande escala quanto em manifestações ditas como pacíficas que têm capacidade de derrubar um governo.
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