Panorama internacional

Chance de conexão ancestral ou atrativo turístico: por que o Benin está 'distribuindo' cidadania?

Montar a árvore genealógica e reconhecer os traços da ancestralidade é um desafio incalculável para a população negra nas Américas. A escravidão deixou pouco ou nenhum documento para registrar a história de pessoas como o Clayton Muniz, brasileiro, que pretende ir ao Benim conhecer mais sobre seus antepassados.
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Muniz trabalha como analista de treinamento. Um desejo pessoal de saber mais sobre a própria história, sobre o passado de seus familiares, o levou a fazer um teste genético, que apontou vínculos com o território onde atualmente está o Benim, na África Ocidental.
Em 2024, o governo do país africano, como uma medida de reconciliação, criou uma lei para que pessoas com ascendência afrodescendente possam se candidatar à cidadania beninesa. A submissão, inclusive, pode ser feita on-line, através de uma plataforma digital lançada pelo próprio governo no ano passado, a My Afro Origins.
O caminho que Muniz tem traçado, segundo ele, conta com a assessoria de um escritório especializado em assuntos relacionados à imigração.
Sobre obter o passaporte, ele destaca que trata-se de conhecer a própria história e "saber de onde veio e como é a sua cultura em si". Ele destaca que espera fazer a viagem entre o fim deste ano e o começo do ano que vem, em busca de uma conexão muito esperada.
Sènakpon Fabrice Fidèle Kpoholo, doutor em educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é beninense e morou por cerca de 10 anos no Brasil. Em conversa com o Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, ele, direto do Benin, contou sobre o país e um grupo o qual acompanha que fez o processo desejado por Muniz: conhecer o país com o qual foi apontado algum pertencimento a partir do teste genético.
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Com experiências vividas em ambos os lados do Atlântico, Fabrice conta que o que mais o chama a atenção acompanhando os grupos no Benin é a pronta conexão que as pessoas criam com o país.
"Uma coisa que a gente viu com esse grupo é essa questão de identificação e de pertencimento quando eles chegaram aqui. Eu vi muita gente caindo em lágrimas, gente se sentindo literalmente em casa quando chegou aqui; [...] pessoas que dizem que parece que eu sempre estiveram aqui".
"Quando você ainda está do outro lado do Atlântico, parece que é muito estranho, parece que é muito distante, mas quando você vem aqui, pisa no chão e começa a caminhar pelos lugares, a ver o povo, a olhar nos olhos, você acaba pensando, poxa, parece que aqui também é minha casa, eu sempre estive aqui", completa.
De acordo com o doutor em educação, a população do Benin ainda não assimila os "novos cidadãos", uma vez que se trata de uma política recente. Ele relata que para muitos são apenas turistas visitando o país.
O turismo, inclusive, segundo Fabrice, pode ser lido como um dos alvos do governo do Benin ao adotar este tipo de estratégia oferecendo cidadania.

"É uma questão de reparação histórica, mas também a gente não pode negar, vendo todas as ações que estão sendo feitas no país, no setor do turismo, que é também um pouco de estratégia econômica", afirma.

Para Milton Guran, professor, antropólogo e autor do livro "Agudás - os brasileiros do Benin", a medida do governo trata-se estritamente de uma mobilização para fomentar o turismo.
Ao podcast, ele opina que a administração do país está "transformando o contencioso de país escravocrata em motivo de turismo".
"É um factóide político que se alinha a um projeto econômico. Por trás desse projeto econômico tem cassino, o jogo, eles estão preparando o país para ser um hub de cassinos na África Ocidental", atesta.
O antropólogo acrescenta que para ele, portanto, a iniciativa mais parece "um lobo em pele de cordeiro" e chama a política de "desrespeito a todo o contexto histórico e existencial da própria diáspora africana".
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