"Com isso, é esperado que ferramentas e atalhos sejam utilizados por juízes brasileiros. A IA é mais um passo no longo histórico de automatização e simplificação da produção de decisões judiciais no Brasil. Como toda tecnologia, contudo, há um custo de implementação e, principalmente, uma transformação cultural necessária para seu bom uso. O Judiciário brasileiro tem histórico de altíssimo grau de inovação e digitalização, muito superior ao de países ricos, como EUA, Inglaterra e França", contextualiza.
"Infelizmente, o processo de responsabilização de juízes por erros é extremamente falho. Virou piada de Internet que a pior condenação possível é a aposentadoria compulsória. Ou seja, deixar de trabalhar, mas manter os vencimentos. E mesmo essa é relativamente rara, além de os procedimentos administrativos serem demorados. Por fim, a baixa qualidade da fundamentação, por exemplo, sequer enseja advertência", acrescenta.
Ferramentas de IA e a reprodução de vieses históricos
"Trata-se de um sistema algorítmico que faz recomendações com base em modelos de machine learning, ou aprendizado de máquina. A partir desses padrões, determinadas vagas passam a ser mais frequentemente sugeridas a mulheres, como funções de secretariado ou assessoria, enquanto cargos de liderança ou posições de maior hierarquia tendem a ser direcionados a homens. Isso ocorre porque temos um padrão sócio-histórico de mais mulheres nessas vagas e mais homens nessas outras vagas, o que mostra uma reprodução da desigualdade de gênero."
IA na Justiça expõe riscos à soberania digital?
"Os dados são hoje o novo petróleo, que alimenta a economia de dados e as grandes infraestruturas digitais, que têm justamente tendido à monopolização de determinados setores. Essas plataformas vão sendo alimentadas por informações pessoais, dados demográficos e de comportamento, e sendo monetizadas com isso, gerando grande valor. Isso é também uma questão para a soberania. Além disso, as empresas basicamente estão lucrando com os dados da população brasileira, inclusive do Judiciário, sem qualquer retorno", finaliza.