O Brasil alcançou um resultado histórico, se consolidando como uma das maiores potências mundiais no setor de governança digital. O país subiu seis posições em relação ao último levantamento, alcançando a 10ª colocação global, empatando com o Chile. No ano passado, a nota do Brasil foi 0,79, uma evolução em relação a 2023, quando a nota foi de 0,62.
A avaliação vem da pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) Digital Government Index 2025, que calcula como os governos estruturam, governam e sustentam a transformação digital no setor público. Entre os países com melhor desempenho geral nesse ano estão Coreia do Sul, Austrália, Portugal, Reino Unido, Noruega, Estônia, Irlanda e Dinamarca.
No caso do Brasil, o avanço no ranking se deve à consolidação do Gov.br, a plataforma para serviços digitais do governo federal. A ampliação dessa digitalização ocorreu muito durante a pandemia da COVID-19, hoje reunindo mais de 174 milhões de brasileiros e oferecendo cerca de 4,6 mil serviços digitais federais e também 8,3 mil serviços estaduais e municipais.
Rogério Mascarenhas, secretário de Governo Digital do Ministério de Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, contou à Sputnik Brasil qual é o reflexo desse reconhecimento para a digitalização brasileira.
Mascarenhas vê o avanço de colocação do Brasil como uma conquista de mudança estrutural no governo brasileiro, dizendo ser um "fruto de um avanço" das ações do ministério. "Esse resultado ratifica outras mensurações internacionais que tínhamos", diz o secretário, citando a posição do país na avaliação do Banco Mundial, em que o país também aparece em posição de destaque em maturidade digital, oferta de serviços públicos e prontidão para o ambiente digital.
O secretário explica que o indicador considera seis dimensões da transformação digital do Estado. Uma delas é o chamado "digital por design", que prioriza a digitalização dos serviços públicos desde a sua concepção. De acordo com Mascarenhas, o Brasil já digitalizou cerca de 5 mil serviços federais. "Hoje cerca de 92% dos serviços que nós ofertamos com possibilidade de terem sido digitalizados, a gente avançou nisso", disse.
Outra dimensão destacada é o conceito de "governo como plataforma", que envolve ferramentas como o portal Gov.br. Segundo o secretário, 113 milhões dos 174 milhões que usam a plataforma possuem contas nos níveis mais elevados de verificação, prata ou ouro. "Isso é importantíssimo para a pessoa poder exercer o seu acesso ao mundo digital", afirmou.
Nesse contexto, Mascarenhas também citou o avanço da Carteira de Identidade Nacional, que além de documento de identificação funciona como instrumento de autenticação digital. "Ela é quase que um token digital", explicou, destacando que o recurso ajuda a reforçar a segurança em processos de identificação, como validações por foto ou biometria.
Outra dimensão avaliada é a orientação ao usuário, baseada na personalização dos serviços públicos. Segundo o secretário, a meta da pasta é oferecer um atendimento mais adaptado às necessidades individuais dos cidadãos. "A gente coloca sempre que o que fazemos aqui é para viabilizar que a gente tenha um governo para cada pessoa", afirmou. Isso significa, por exemplo, identificar momentos específicos da vida do cidadão — como a fase do Enem para jovens de 18 anos — e direcionar serviços adequados para esse público.
Além disso, Mascarenhas destacou o uso estratégico de dados na formulação de políticas públicas. O governo tem ampliado o cruzamento de informações entre bases oficiais, respeitando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), para melhorar a experiência do usuário e aumentar a eficiência das políticas públicas. Segundo ele, testes internos mostram que notificações personalizadas podem elevar significativamente o engajamento da população em determinados programas.
Entre os exemplos citados estão alertas enviados pela caixa postal do Gov.br ou por canais como o WhatsApp, informando o cidadão sobre direitos ou prazos importantes. "Por vezes a pessoa descobre algo que ela nem sabia que tinha direito", afirmou, citando também avisos antecipados sobre vencimento de passaporte ou campanhas de vacinação.
O índice ainda leva em conta dimensões como dados abertos e transparência, área em que o governo tem buscado ampliar o acesso às informações públicas, inclusive com o uso de inteligência artificial, para melhorar a qualidade e a precisão dos dados.
Para o secretário, o resultado do levantamento da OCDE confirma a evolução do país nesse campo. "Esse crescimento reflete as mudanças estruturais que a gente vem conduzindo dentro do processo de transformação digital do governo brasileiro".
Ademais, Mascarenhas explica que o empate com o Chile no ranking se resume na parceria entre os dois países em soluções digitais, principalmente com uso de inteligência artificial. "O Brasil e o Chile despontam aqui na América Latina como os principais. Sempre estamos ali entre primeiro e segundo lugar".
Como conta, Brasil e Chile possuem estratégias similares na transformação digital, comparando o Gov.br com a sua versão chilena, o Chile Atiende. "Nós avançamos na oferta qualitativa quantitativa de serviços públicos, mas também avançamos numa revisão qualitativa desses serviços, isso também é uma política adotada pelo Chile".
Quanto a riscos de ataques cibernéticos e vazamentos de dados importantes em meio a essa digitalização, Mascarenhas ressalta que a estrutura de transformação digital, conduzida desde 2023, está organizada em cinco dimensões principais: a identificação digital, oferta de serviços públicos – em destaque para o Gov.br –, integração federativa entre União, estados e municípios, a Infraestrutura Nacional de Dados (IND), voltada à interoperabilidade entre sistemas, e o eixo de privacidade e segurança.
"Esse quinto eixo é o eixo da privacidade e o eixo da segurança. Aqui nós temos uma área específica para tratar disso", explicou o secretário. De acordo com Mascarenhas, o governo federal mantém monitoramento constante de ameaças cibernéticas e presta apoio a órgãos públicos em caso de incidentes. "Desde 2023 a gente monitora os órgãos e esse ambiente mais hostil embaixo da linha da Internet", afirmou. Ele acrescenta que o país é um alvo frequente de criminosos digitais.
"O Brasil é, infelizmente, muito atacado. Nós somos um dos destinos favoritos do crime cibernético."
O trabalho inclui ações como retirada de páginas fraudulentas do ar e encaminhamento de informações sobre crimes cibernéticos às autoridades responsáveis. Além disso, o governo tem investido em capacitação e em medidas de proteção de dados para elevar o nível de maturidade digital dos órgãos públicos.
Mascarenhas também destacou que o cenário geopolítico atual tem levado o governo a reforçar medidas estruturais de segurança. Entre elas está o processo de repatriação de dados sensíveis para infraestruturas controladas pelo próprio Estado brasileiro. Sobretudo, o secretário acredita que o Brasil é um país muito propenso a receber inovações no âmbito digital, citando parcerias com países como Reino Unido, Dinamarca, Espanha e, a mais recente, Índia.
Sobre o desafio da exclusão digital, o secretário destacou que a digitalização precisa ser acompanhada de iniciativas que garantam inclusão.
"A gente não pode avançar com uma visão de inclusão sendo excludente", afirmou. Para enfrentar esse desafio, o governo trabalha com o conceito de "figital", que busca integrar o atendimento digital com formas presenciais de apoio à população que ainda possui baixo letramento digital.
Uma das iniciativas nesse sentido é a criação dos chamados balcões de atendimento, desenvolvidos em parceria com estados e municípios. Esses espaços têm como objetivo ajudar cidadãos com menos familiaridade com ferramentas digitais a acessar serviços públicos on-line. Atualmente, de acordo com o secretário, já existem mais de 200 balcões de atendimento em funcionamento em diferentes estados e municípios, com planos do governo de ampliar esse número nos próximos meses.