Panorama internacional

'Tentativas de desenvolvimento compartilhado entre o Sul Global já estão em prática', diz analista

Enquanto países como os Estados Unidos utilizam cada vez mais as tarifas como instrumento de pressão, a China anunciou recentemente a decisão de eliminar as alíquotas sobre importações de produtos africanos. Para especialistas, a medida ajuda a consolidar ainda mais a região do Indo-Pacífico como centro logístico do século XXI.
Sputnik
De ferrovias que cruzam o continente à presença ativa de empresas chinesas em pelo menos um terço dos portos, Pequim ampliou significativamente seus investimentos em infraestrutura na África ao longo da última década. Atualmente, companhias da China atuam em 78 das 231 instalações portuárias do continente, segundo levantamento do Centro Africano de Estudos Estratégicos (ACSS, na sigla em inglês).
Ao mesmo tempo, as projeções econômicas reforçam o peso crescente do continente. Pela primeira vez na história recente, a África deve superar a Ásia em ritmo de crescimento econômico neste ano. A expectativa é de que o produto interno bruto (PIB) africano avance 4,4%, enquanto as economias asiáticas devem registrar expansão de 4,1%.
Dados da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) indicam ainda que, até 2050, uma em cada quatro pessoas do planeta será africana. Esse crescimento populacional tende a impulsionar novos mercados consumidores, acelerar a urbanização e fortalecer o continente como um potencial polo global de inovação e desenvolvimento econômico.
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Na contramão da lógica tradicional das parcerias ocidentais com a África, historicamente marcadas por benefícios concentrados nas grandes potências, a China tem despontado nas últimas décadas como um dos principais parceiros estratégicos do continente.
Em mais um passo no fortalecimento dessas relações, o presidente chinês, Xi Jinping, anunciou recentemente a eliminação das tarifas de importação sobre todos os produtos africanos, ampliando o acesso das economias da região ao mercado chinês.
O investigador sênior do Observa China e doutor em desenvolvimento regional, Gustavo Alejandro Cardozo, afirma ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que a medida chinesa atua como "catalisador no deslocamento" do centro da economia mundial. "Essa mudança não é apenas em volume [comercial], mas de infraestrutura. É uma integração de portos africanos à Iniciativa Cinturão e Rota, que consolida o Indo-Pacífico como centro logístico do século XXI", destaca.
Aliado a isso, o especialista defende que a China tem se tornado para o continente africano uma alternativa às instituições de Bretton Woods, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), na concessão de empréstimos e financiamentos de obras. "Pequim permite aos Estados africanos maior margem de manobra em seu planejamento orçamentário. Não é simplesmente exportação e importação, mas também dando uma condição de investimento que é muito importante para o desenvolvimento da África", pontua.
Cardozo lembra ainda que, em meio à criação de uma zona de livre comércio com a África, a China também tem priorizado cada vez mais o uso de moedas locais, como o yuan, nas trocas comerciais, além de usar sistemas de pagamento alternativos, como o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS, na sigla em inglês). "Isso também ajuda a reduzir a exposição das economias africanas às flutuações do sistema financeiro baseado no dólar, além de possíveis sanções externas", afirma.
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Já o mestre em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Cassiano Schwantes pontua ao podcast Mundioka que os Estados Unidos implementaram um regime de tarifa zero para produtos africanos em 2000, por meio do programa African Growth and Opportunity Act (AGOA). Porém, o número de países que participam da iniciativa só vem caindo nos últimos anos.

"Esse programa é renovado anualmente e, hoje, cerca de 32 países são elegíveis. É um número que vem diminuindo, seja por dificuldades burocráticas, novas exigências norte-americanas ou por tensões comerciais, a exemplo do tarifaço do [presidente dos EUA, Donald] Trump. Há um desuso dessa política pelos Estados Unidos e as nações africanas", explica.

Com esse vácuo deixado pelos Estados Unidos, o especialista afirma que a China tem ocupado cada vez mais esse espaço e investido também em reestruturação no continente, inclusive renegociando dívidas de países da região. "Em 2023, por exemplo, a China anunciou o perdão de 23 empréstimos, realizados sem juros, a 17 países africanos. Isso não elimina a assimetria de poder com a China, mas relativiza essa narrativa de possível imposição unilateral de Pequim", afirma.
Com a eliminação das tarifas chinesas, Schwantes diz que a medida ainda estimula a industrialização do continente, apesar dos enormes desafios estruturais que ainda seguem na região. "O que temos hoje na África é essencialmente diferente do cenário anterior a 2015. São gasodutos e ferrovias na Tanzânia, entornos ferroviários no Quênia, fabricação de veículos, inclusive elétricos, em Camarões, e investimentos de lítio em todo o continente", exemplifica.
Isso também mostra, segundo ele, maior poder de barganha dos países africanos nas mesas de negociação. E, mesmo com boa parte dos projetos de infraestrutura ligados à cadeia logística do continente para beneficiar as exportações para a China, o analista enfatiza que esses investimentos acabam ajudando também na "implementação da zona de comércio continental africana".
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Novo modelo de relação com a África

Por fim, o especialista diz que a política de tarifa zero não deve ser vista apenas como reação direta às barreiras comerciais impostas por países ocidentais, mas como parte de uma estratégia mais ampla de política externa da própria China. Segundo ele, embora Estados Unidos e União Europeia ainda mantenham presença econômica e diplomática no continente africano, Pequim vem consolidando um modelo distinto de relacionamento com os países da região.

"É um modelo de barganha totalmente ampliado, multilateral e que, com certeza, é importante porque afeta diretamente a forma de negociação dentro dos países. É algo que já está posto na conjuntura atual, não é mais uma projeção. As tentativas de desenvolvimento compartilhado entre o Sul Global já estão em prática. Agora depende dos países estabelecerem projetos nacionais e compartilharem ainda mais esse tipo de política", conclui.

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