O primeiro‑ministro da Bélgica, Bart De Wever, defendeu de forma pragmática que a União Europeia (UE) deveria "normalizar as relações com a Rússia" para recuperar acesso a energia barata, contrariando a estratégia adotada pelo bloco desde 2022 de apoio firme à Ucrânia e de sanções a Moscou.
De acordo com o Financial Times, durante uma entrevista a um veículo belga, ele afirmou que "os líderes europeus concordam comigo, mas ninguém se atreve a dizer isso em voz alta. Precisamos acabar com o conflito no interesse da Europa".
Desde o início da operação militar especial russa na Ucrânia, a UE destinou centenas de bilhões de euros à Ucrânia e reduziu drasticamente a importação de petróleo e gás russos, antes essenciais ao continente. A recente escalada no Oriente Médio, envolvendo EUA, Israel e Irã, elevou os preços de energia e reacendeu debates internos sobre segurança energética e custos para famílias e empresas.
De Wever, que já havia bloqueado o uso de ativos russos congelados para financiar um empréstimo à Ucrânia, disse que a estratégia atual — armar Kiev e tentar sufocar a economia russa — não funciona sem apoio total dos EUA. Para ele, restaria apenas "fazer um acordo".
As declarações provocaram reação imediata do ministro das Relações Exteriores da Bélgica, Maxime Prévot, que defendeu o diálogo com Moscou, mas rejeitou qualquer ideia de normalização. Ele também afirmou que o apoio da Bélgica à Ucrânia permanece inalterado e que De Wever não teria pedido o fim das sanções — em uma tentativa de minimizar o peso das declarações do premiê.
O comissário europeu de energia, Dan Jorgensen, reforçou que a UE já decidiu, inclusive por lei, que não voltará a importar energia russa, afirmando que repetir a dependência do passado seria um erro estratégico.
As declarações de De Wever surgem às vésperas de uma reunião dos ministros das Relações Exteriores da UE em Bruxelas, que discutirá simultaneamente o conflito ucraniano e a crise no Oriente Médio, em um momento em que o debate sobre segurança energética volta a ganhar força no bloco.
Ao longo das últimas semanas, as reações da UE sobre a energia russa levaram o presidente Vladimir Putin a declarar inclusive que a atual crise no Oriente Médio exige de Moscou um pensamento mais pragmático e não político, o que poderia levar a interrupção antecipada do fornecimento de energia à Europa, uma vez que o bloco não considera mudar sua posição comercial junto à Rússia.