Panorama internacional

'Mercosul tenta sobreviver e inserção de Colômbia e Venezuela é complexa', diz analista (VÍDEOS)

O presidente colombiano Gustavo Petro divulgou em suas redes sociais, recentemente, que o país pedirá formalmente adesão ao Mercosul e também solicitará que a suspensão de Caracas, ocorrida em 2017, seja revogada.
Sputnik
Contudo, a iniciativa colombiana pode encontrar entraves devido ao cenário político regional turbulento sob pressão da Casa Branca.
Em entrevista à Sputnik Brasil, Carolina Pedroso, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avalia que a polarização e a presença dos EUA na região, que culminaram no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, além do alinhamento automático do presidente argentino Javier Milei e de seu homólogo paraguaio Santiago Peña aos interesses estadunidenses, colocam o Mercosul em uma situação complexa.
Isso poderia impedir o ingresso colombiano e o retorno venezuelano à aliança econômica sul-americana.

"Seria muito bem-vinda a entrada da Colômbia e da Venezuela, mas em outro contexto. Atualmente, isso é algo muito complexo, ainda mais tendo Paraguai e Argentina agindo como linha auxiliar dos EUA, que têm intensificado sua influência na América Latina. O Mercosul está tentando sobreviver diante dessa alta fragmentação política", disse.

A possibilidade de falta de consenso entre os membros plenos do bloco, Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai, sobre a inclusão da Colômbia e o retorno da Venezuela também pode ter como barreira os interesses específicos de cada governo, que exigiriam contrapartidas, como explica Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"A regra do consenso para novas adesões significa que Milei possui poder de veto e dificilmente facilitaria a entrada colombiana e a de um aliado ideológico de Petro sem grandes concessões comerciais. A adesão da Colômbia também poderia ser entendida pelos EUA como 'escudo diplomático' e ocasionaria uma rachadura interna, porque Buenos Aires e Assunção visam acordos com Washington", comenta.

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Mercosul ampliado poderia se tornar um megabloco

Em uma projeção sobre a ampliação do bloco com Bogotá e Caracas, as especialistas conjecturam que o Mercosul poderia vir a ser uma potência bioceânica, que desenvolveria não apenas sua projeção comercial, mas também política. Nesse contexto, Pedroso destaca que o território colombiano aproximaria o Pacífico dos países do Cone Sul, que poderiam comercializar de forma mais dinâmica com o mercado asiático.

"O fato de a Colômbia ser um país que tem uma parte da costa voltada para o Pacífico iria facilitar e fortalecer os laços que o Mercosul tem tentado estreitar com os países asiáticos. Vale lembrar o acordo do bloco com Cingapura e a presença do presidente Lula na Cúpula da Asean", analisa.

Já Bressan também enfatiza a potencialidade que poderia ocorrer com o reforço colombiano e venezuelano ao bloco. No entanto, o Mercosul precisa ter uma identidade mais robusta e superar os atuais problemas internos para que possa haver uma evolução significativa.

"Em termos de recursos, o Mercosul ampliado seria imbatível: contaria com o petróleo da Venezuela, as reservas de lítio e gás da Bolívia e Argentina e a produção de alimentos do Brasil. Poderia ser um polo de poder comparável à União Europeia. No entanto, o bloco precisa superar a eterna crise de identidade e deixar de ser uma união aduaneira imperfeita para evoluir para uma integração produtiva real", pontuou.

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Mercosul e as disputas políticas na região

Bressan também sinaliza que, na seara política sul-americana, com os Estados Unidos cada vez mais presentes como elemento causador de tensão, o Mercosul pode se tornar um palco para disputas geopolíticas internas, o que pode gerar uma cisão capaz até mesmo de comprometer o funcionamento do bloco.

"Creio que o grande risco não seria um conflito externo com Washington, mas sim uma implosão do bloco por ter tantas visões irreconciliáveis. Ou seja, o Mercosul corre o risco de se tornar um campo de batalha diplomático na América do Sul, com o norte mais progressista e o sul mais alinhado aos Estados Unidos", discorre.

Se, por um lado, a possível expansão parece ser inviável no aspecto político, Petro parece aproveitar a oportunidade para se posicionar publicamente via redes sociais, gerar debates e se colocar como polo de liderança, como observa Pedroso, que também destaca as posições da presidente Claudia Sheinbaum, no México, e de Lula, no Brasil, sobre projetos que visam ao desenvolvimento regional.

"Mesmo sabendo das dificuldades e das amarras internacionais, Petro usa esses espaços virtuais das redes sociais para suscitar esse tipo de debate, que muitas vezes a região deixa passar por conta do desconcerto político. Nos últimos dois anos, diria que, além de Petro, Lula e Sheinbaum têm se colocado como líderes que pensam em um desenvolvimento autônomo", conclui.

Embora o Mercosul tenha a cooperação econômica como seu pilar norteador, as mudanças políticas e pressões extrarregionais podem colocar o bloco em situações complexas nas quais nem sempre o pragmatismo resolverá impasses, devido aos interesses distintos de seus membros plenos.
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