'Ativo estratégico importantíssimo': qual o balanço dos 35 anos de Mercosul?
Em 26 de março de 1991, quatro países da América do Sul – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – assinaram o Tratado de Assunção, que criou um mercado comum entre os signatários: o Mercosul.
SputnikApós 35 anos desde a sua criação, porém, o bloco encara um cenário internacional fragmentado entre grandes potências,
instabilidades pelo mundo e maior competitividade por segurança econômica e de soberania.
No início de 2026, o Mercosul concluiu a negociação do tão esperado
acordo comercial com a União Europeia (UE), apesar das divergências internas sobre o grau de abertura econômica entre países-membros. Inclusive, outro desafio entre os membros do bloco é a
disputa por alinhamentos ideológicos entre as maiores potências do mundo, como a relação entre a Argentina e os EUA, que pode causar rupturas no Mercosul.
No Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, vamos ver quais foram os avanços do bloco nos últimos 35 anos e o que podemos esperar para o Mercosul no futuro.
Caio Junqueira, professor do Departamento de Relações Internacionais e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (UFS), lembra que a criação do bloco, na década de 1990, não só teve impactos econômicos, mas também contribuiu para a aproximação política e o relaxamento das tensões entre os países.
À época, nações como Brasil e Argentina se encontravam no processo de redemocratização após décadas de ditadura militar.
"Isso pouco se fala, mas o aumento das relações comerciais e a aproximação política entre os países gerou, naquele momento, um senso de maior segurança, pelo menos da impossibilidade de ocorrência de um conflito armado entre os países que são membros do bloco", explica.
Contudo, seu objetivo principal — a integração econômica entre Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e, posteriormente, Bolívia — ainda segue em construção. Segundo Junqueira, ao analisar os dados de comércio entre os países nos anos 1990, fica evidente que o Mercosul estimulou e dinamizou as trocas regionais de forma significativa. Esse impulso inicial, porém, não se manteve com a mesma intensidade nas décadas seguintes.
Nos anos 2000 e 2010, houve uma relativa desaceleração do comércio intrabloco, o que leva a avaliações divergentes sobre o sucesso do projeto. Enquanto alguns destacam como principal mérito justamente o dinamismo inicial do bloco, outros apontam que o Mercosul não conseguiu consolidar bases estruturais mais profundas para sustentar essa integração ao longo do tempo.
Junqueira ressalta que esse enfraquecimento não ocorreu de forma isolada, mas está diretamente relacionado a fatores externos e internos à região. A crise financeira global de 2008 e as sucessivas instabilidades políticas na América do Sul — incluindo o contexto brasileiro entre 2015 e 2016 — impactaram negativamente o comércio e a cooperação econômica.
Sobretudo, a dimensão política do Mercosul aparece como um dos seus principais legados no sistema internacional. Ao comentar críticas recentes — como as do presidente argentino, Javier Milei, sobre a possibilidade de negociar fora do bloco —, Junqueira avalia que a integração regional fortaleceu a posição da América do Sul no cenário global.
Nesse sentido, o Mercosul deve ser entendido não apenas como mecanismo econômico, mas como plataforma de articulação diplomática.
"Não é o único exemplo de bloco regional que fortalece uma dimensão política, no sentido de diplomacia, de contato, de construção de laços e de vínculos, que é importante para as relações internacionais."
Ele destaca que o papel desempenhado pelo bloco é semelhante ao de outras organizações regionais,
como a UE e a União Africana, que funcionam como espaços de diálogo e coordenação.
"Esses blocos regionais servem como esferas e arenas de diálogo, de troca, e o mais importante é que são esferas de intercâmbio de informação também, de saber como as coisas estão sendo geridas."
Para o professor, esse aspecto é central para entender o peso político do Mercosul. "Desse ponto de vista de fortalecimento da presença dos países da América do Sul, especificamente do Cone Sul, não há dúvida de que o Mercosul posiciona a região de uma forma muito relevante."
Ele acrescenta que essa atuação se torna ainda mais evidente em fóruns multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), em que países frequentemente atuam em bloco. "Há um processo de formação, muito entre aspas, de coalizões dentro de determinadas organizações."
Para
Tales Simões, professor de geografia política da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF),
o Mercosul não conseguiu reduzir a dependência dos países-membros das grandes potências mundiais. Embora note que esse cenário era provável durante a década de 1990, Simões pontua que a dependência apenas mudou dos EUA para uma
relação comercial mais focada com a China.
"Hoje, a maior parte dos países mercosulinos, principalmente Brasil e Argentina, tem quase um quarto do seu comércio […] com os chineses", explica Simões.
"Não digo a reboque ou à mercê dos chineses, mas, de fato, a China é um fator que acabou substituindo o comércio inter-regional e chegou com muita força nos mercados do Mercosul."
Ainda assim, ele destaca que o bloco possui papel estratégico para a economia brasileira, especialmente no perfil das exportações. "Nos países do Mercosul é que o Brasil consegue exportar a maior parte de seus bens manufaturados, seus bens industriais que geram mais produtividade, uma renda maior, empregos de maior qualidade — que é o que leva um país a avançar."
"São os meios que precisam de pesquisa, desenvolvimento, ciência, tecnologia, inovação. Enfim, o Mercosul nos permite exportar esse tipo de produto."
Sem essa base regional, o risco seria um retrocesso na inserção internacional do Brasil: "Sem o Mercosul e sem os demais países sul-americanos, nós ficaremos cada vez mais relegados à dependência da exportação de produtos primários, de baixíssimo valor agregado."
Para Simões, o Mercosul já se consolidou como exemplo de uma política de Estado voltada à integração regional da América do Sul, independentemente das alternâncias de poder ou de visões ideológicas contrárias ao bloco. "Embora venha passando por essa montanha-russa, de avanços e de retrocessos, a tendência é de que o Mercosul continue a ser bastante benéfico."
Hoje, diz, o bloco é um ativo "estratégico importantíssimo" para os países do grupo e para aqueles que querem se juntar, como a Colômbia.
"Aos pouquinhos, nós estamos vendo um avanço da integração regional, embora ela seja muito paulatina e hoje esteja um pouquinho mais enfraquecida."
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