Por meio de um comunicado, a Chancelaria do Chile confirmou nesta terça-feira (24) a retirada do apoio do Chile à Bachelet, atribuindo a decisão ao fato de que "a dispersão de candidaturas de países da América Latina e as diferenças com alguns dos atores relevantes que definem esse processo tornam inviável essa candidatura e o eventual sucesso dessa postulação".
Bachelet se manifestou dizendo que a candidatura permanece "intacta", e que seguirá adiante com a candidatura junto aos governos do Brasil e do México, que originalmente impulsionaram o nome da ex-presidente chilena por dois mandatos.
Consultado pela Sputnik, o cientista político chileno Marcelo Mella afirmou que, apesar das diferenças ideológicas previsíveis entre Bachelet e Kast, a retirada do apoio "não era tão esperada", já que "rompe uma tradição histórica na condução da política externa em relação às definições de longo prazo".
"Se há algo que distingue a política externa chilena é a tendência de ser mais institucional, não partidária e não alinhada aos governos de turno, mas voltada aos interesses permanentes do Estado chileno.
A decisão de Kast surpreendeu e gerou um clima negativo, apontou o analista. O presidente poderia ter adotado uma postura de "realismo político", expondo as diferenças políticas e ideológicas entre Bachelet, mas mantendo o apoio à candidatura, e, assim, gerando "menos dano" à política externa chilena.
Também consultado pela Sputnik, o especialista equatoriano em Relações Internacionais Santiago Carranco opinou que o episódio envolvendo a ex-presidente chilena se deve "à situação em que se encontra o sistema internacional", que não apenas está "extremamente polarizado", mas também passou “de uma ordem baseada em instituições para uma baseada na coerção”.
Carranco atribuiu a esse contexto internacional o fato de o governo de Kast ter decidido retirar o apoio a Bachelet, mesmo quando ela tinha condições de ser uma candidatura “forte” para a Secretaria-Geral da ONU. Além disso, manifestou dúvidas em relação à “análise interna” que a Chancelaria chilena afirma ter feito para justificar sua decisão.
"É bastante chamativo saber que há uma candidatura forte que pode ser patrocinada por outras nações, mas não é apoiada por seu próprio país. Isso demonstra, de fato, que há um fracionamento do sistema internacional que acaba promovendo políticas externas reativas e não de longo praz", explicou o acadêmico e coordenador do Laboratório de Relações Internacionais da Universidade Internacional do Equador (UIDE).
O especialista lamentou que atualmente a América Latina "não tenha uma única ferramenta para enfrentar essa situação", já que instâncias como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) não são eficazes para gerar acordos regionais.
"Definitivamente, os mecanismos de integração regional que poderiam ter servido para contrabalançar isso estão sendo mal utilizados neste momento", acrescentou.
Uma figura de 'consenso' no Conselho de Segurança?
Com sua decisão de permanecer na disputa mesmo sem o apoio de seu país, Bachelet continua em uma lista de candidaturas latino-americanas que, por ora, inclui também o atual diretor-geral do Organismo Internacional de Energia Atômica, o argentino Rafael Grossi; a ex-secretária-geral ibero-americana, a costarriquenha Rebeca Grynspan; a diplomata equatoriano-libanesa Ivonne Baki; e a diplomata argentina Virginia Gamba.
O analista lembrou que, embora houvesse certo acordo para que o cargo da ONU recaísse desta vez sobre uma figura latino-americana, também foi registrada a candidatura do ex-presidente do Senegal e ex-chefe da União Africana, Macky Sall, impulsionada por Burundi.
Diante de uma alta dispersão de posições na América Latina, a postura que o governo dos EUA adotar pode acabar sendo decisiva, ponderou ele, sendo possível que todos os países que participaram da iniciativa "Escudo das Américas" acabem aderindo à candidatura apoiada por Washington.
O analista equatoriano apontou que é provável que Washington "demore sua decisão" sobre uma candidatura, ciente do peso que pode exercer na região. Isso, por sua vez, poderia reorganizar as decisões dos países que não seguem as diretrizes norte-americanas, fazendo com que Michelle Bachelet possa ganhar ou perder apoios conforme suas chances como candidatura alternativa.
Dessa forma, o especialista afirmou que, em um cenário de possível apoio dos EUA a Macky Sall ou a Ivonne Baki, "o mais coerente" seria que os países latino-americanos apoiassem Bachelet para garantir uma representante da região à frente da Organização das Nações Unidas.
No entanto, o desenrolar da votação também poderia levar México e Brasil a mudar de posição, caso outra candidatura permita alcançar maior consenso.
Isso ocorreu em 2025 durante a eleição do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), quando o governo de Luiz Inácio Lula da Silva modificou sua posição inicial de apoiar o paraguaio Ruben Ramírez Lezcano para votar no surinamês Albert Ramdin, que acabou sendo eleito.
Para Marcelo Mella, Bachelet possui "reconhecimento suficiente na comunidade internacional para contar com um apoio bastante robusto", mesmo sem o respaldo do Chile e de outros Estados latino-americanos.
Segundo o analista, o nome da ex-presidente chilena por dois mandatos (2006–2010 e 2014–2018) poderia se tornar uma solução caso o processo de seleção fique travado dentro do Conselho de Segurança da ONU.
"Diante de uma fragmentação de candidaturas e da possibilidade de vetos recíprocos entre Estados Unidos, China e Rússia, é perfeitamente possível que, em votações sucessivas no Conselho de Segurança, o nome de Bachelet surja como uma alternativa de consenso", afirmou o cientista político e professor da Universidade de Santiago do Chile (Usach).
Para Carranco, Bachelet ainda pode superar os outros nomes em disputa por ter "influência em todo o mundo" e por atender ao critério que havia sido acordado de conceder o cargo a uma mulher latino-americana.