O Brasil aumentou o volume de importações de fertilizantes da Rússia no último mês, após o fechamento do
estreito de Ormuz, com o início dos ataques ao Irã, promovidos por
Estados Unidos e Israel.
Segundo um levantamento realizado pela Sputnik com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram adquiridos US$ 331 milhões em fertilizantes: US$ 163,1 milhões em potássio; US$ 129,5 milhões em fertilizantes mistos; e US$ 38,4 milhões em fertilizantes nitrogenados.
Estes números representam um volume maior que o dobro dos insumos russos importados em fevereiro, tornando a Rússia o maior fornecedor de fertilizantes para o Brasil.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas destacaram os benefícios que as boas relações entre Brasília e Moscou podem proporcionar em momentos de urgência como esse, além das possibilidades de fortalecimento das relações diplomáticas por meio de importações.
Jackson Campos, diretor de relações institucionais da empresa de logística AGL Cargo, afirmou que o balanço brasileiro no setor — obtendo 88% de seus fertilizantes por meio de importação — é um risco em momentos como este. No entanto, o alinhamento comercial com a Rússia permite um respiro ao Brasil e uma resposta rápida à guerra no Oriente Médio.
Para Campos, o Brasil pode tirar boas lições industriais e logísticas da Rússia, em busca de aumentar sua capacidade própria de produção e uso mais eficiente dos próprios insumos.
Alexis Toríbio Dantas, professor de economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, destaca que o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022) desmanchou parte da capacidade brasileira de produção de fertilizantes, entregando o setor para a iniciativa privada. Agora, o Brasil conta com a ajuda da Rússia e do Oriente Médio na área.
Dantas destaca que a multipolaridade pregada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva gera frutos e deve ser cada vez mais focada nas relações Sul-Sul, em especial entre os membros do BRICS. Por outro lado, o professor reforça que é necessário pensar em uma reindustrialização brasileira.
Campos, por sua vez, conta que
a multipolaridade ajuda em momentos como este, de instabilidade e fechamento de importantes passagens marítimas, mas não desconsidera os limites logísticos impostos atualmente pelo
conflito no Oriente Médio."Se uma rota crítica sofre disrupção, o impacto vem por frete, tempo e custo, independentemente de alianças."
O diretor da AGL Cargo explica que o fornecimento brasileiro de fertilizantes parte de diferentes origens: Belarus, Canadá, China, Egito, entre outros países. A lista aponta a tentativa brasileira de diversificação.
Já Dantas é categórico ao afirmar que os dois primeiros governos Lula e Dilma traçavam um caminho para a busca de parceiros "que fossem complementares e suplementares às nossas demandas de relações internacionais".
Para o professor, é importante que o Brasil restabeleça sua capacidade de produzir fertilizantes, mas, se Brasília optar por continuar o processo de importações deste insumo, este recurso pode fortalecer suas relações diplomáticas com outros governos.