Panorama internacional

Análise: crises e ameaças podem levar Europa a ver EUA como adversário direto para sua segurança

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam que as pressões de Washington, os efeitos prolongados do conflito na Ucrânia e a guerra no Irã aceleram a busca europeia por autonomia e colocam em xeque o futuro da OTAN.
Sputnik
A crescente deterioração da confiança entre aliados históricos do Ocidente tem produzido efeitos diretos na arquitetura de segurança europeia. A relação entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e os Estados Unidos, tradicional pilar da aliança, passa por um momento de tensão, marcado por divergências políticas, estratégicas e econômicas.
Episódios recentes — como a pressão unilateral de Washington sobre a Groenlândia e as críticas recentes aos europeus por não ajudarem os EUA a reabrir o estreito de Ormuz — reforçam a percepção de distanciamento, enquanto o prolongado conflito na Ucrânia impõe custos significativos, sobretudo à União Europeia.
Assim, países europeus parecem estar percebendo que a OTAN pode estar chegando ao fim. O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou no início de março um aumento no arsenal nuclear da França e que cooperaria com oito países europeus para ajudar a proteger a Europa. A França continua sendo a única potência nuclear na União Europeia, possuindo menos de 300 ogivas — número que, segundo Macron, não será mais divulgado no futuro.
Enquanto isso, a Alemanha anunciou que investirá mais em suas Forças Armadas após aprovar uma nova regra que isenta os gastos militares das limitações da dívida nacional, permitindo que o país amplie significativamente sua fatia do PIB destinada à defesa — de cerca de 2% nos últimos anos para uma meta que pode chegar a 3,5% no médio prazo. O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou que o objetivo é tornar o Exército alemão, a Bundeswehr, o "exército convencional mais forte da Europa".
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'Uma condição de subalternidade cada vez mais explícita', diz analista sobre EUA e União Europeia
O Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, desta quarta-feira (8) analisa a escalada bélica europeia e se isso representa um preparo para um eventual fim da OTAN. Para Vinicius Modolo Teixeira, professor de geopolítica da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), essa "nova era de defesa" da Europa se deve tanto à mudança da política externa dos Estados Unidos — que já não veem a proteção do continente europeu como prioridade — quanto à intensificação da rivalidade entre a Europa e a Rússia.
Segundo ele, o conflito na Ucrânia tornou mais evidente que os Estados Unidos não vão apoiar todas as iniciativas europeias em questões de segurança, especialmente em um cenário de reorientação estratégica global.
"Os últimos anos deram sinais importantes: o mundo está mudando em relação à polarização e aos interesses das grandes potências, que deixam de estar centrados no Atlântico Norte e passam a se deslocar para o Indo-Pacífico", afirma Teixeira.
Ao comentar a iniciativa individual dos países europeus, o professor ressalta que o anúncio da Alemanha em investir mais em seu poderio militar é um sinal dessa ruptura na aliança, pontuando que o país passa também por uma revisão histórica de sua política de defesa. Ele destaca que a Alemanha segue sendo o segundo país com a maior concentração de tropas norte-americanas fora do território dos EUA — cerca de 35 mil soldados —, o que reforça seu papel estratégico no continente.
No entanto, com a revisão dos planos de defesa por parte de Washington e o possível fechamento de bases militares, Berlim passa a encarar de forma mais direta sua responsabilidade na segurança europeia. "Desde a Guerra Fria, a Alemanha é a primeira barreira a ser tomada, a ser rompida no caso de uma guerra entre o Leste e o Oeste."
Teixeira pontua que não há motivo para preocupação, vendo mais o assunto como um interesse regional. Ao transformar a Bundeswehr no maior exército da Europa, a Alemanha estimularia parcerias com setores, fortaleceria a economia alemã e poderia receber o apoio de países vizinhos para garantir recursos e capital, em sua visão.

"Fortaleceria a economia da Alemanha, um passo importante via defesa."

O maior desafio da Europa, ironicamente, seria justamente sua independência em relação aos Estados Unidos — um cenário que, segundo o professor, traria tanto oportunidades quanto obstáculos estruturais para o continente.

"Garantiria um 'respiro' no sentido de que problemas dos EUA são dos EUA, não mais 'nossos'."

Por outro lado, Teixeira indica que essa separação também exigiria uma profunda reorganização interna. Sem o respaldo direto de Washington e da OTAN, os países europeus teriam que ampliar seus programas de armamento, investir em independência tecnológica e fortalecer mecanismos próprios de segurança regional — sobretudo criar consensos internos, já que os Estados Unidos servem como um fator de alinhamento entre europeus. "Dentro da Europa, há uma disputa entre eles sobre o que fazer, quem vai fazer e com que dinheiro fazer isso."
O professor também ressalta que uma possível autonomia europeia deve levar em conta o papel do Reino Unido, um ator alinhado com os interesses estadunidenses desde o fim da Segunda Guerra Mundial e, segundo Teixeira, o fator principal que impede a ideia de uma Europa unificada.
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Ao ampliar conflito, Irã impõe custos globais aos EUA e Israel, diz especialista
Segundo Héctor Saint-Pierre, especialista em segurança internacional da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o atual cenário reflete, em grande medida, o afastamento estratégico dos Estados Unidos. De acordo com o professor, essa mudança inclui uma visão de divisão do mundo entre grandes potências — com os EUA focados nas Américas, a Rússia na Eurásia e a China no Indo-Pacífico.
Nesse contexto, ele avalia que a Europa tem sido colocada em situações de conflito nas quais não participou diretamente das decisões — como a guerra no Irã —, mas acaba sendo pressionada a assumir custos políticos e militares. "Isso desmoralizou a situação da Europa, porque ele [Donald Trump] criou um conflito no qual a Europa não teve participação na deliberação, mas que agora ele quer, para poder sair desse conflito com alguma vitória, que a Europa entre."
Diante disso, ele aponta dois possíveis caminhos: a criação de um sistema de defesa propriamente europeu ou, no limite, um processo de enfraquecimento e até dissolução da OTAN, acompanhado por uma corrida entre países — especialmente França e Alemanha— em busca de autonomia estratégica e fortalecimento militar.
Para ilustrar a urgência de seu ponto, o especialista aponta novamente o Irã: desde o início do conflito, o país tem utilizado o estreito de Ormuz como instrumento de pressão geopolítica, afetando diretamente o abastecimento energético e industrial europeu.
"O que está fazendo o Irã com essa discriminação de passagem pelo estreito é uma forma de desmontar as alianças de seus agressores", afirma. Segundo ele, a estratégia não consiste em um bloqueio total, mas seletivo. "Ele não está dizendo que está fechado para todo mundo, está dizendo que está fechado para os inimigos do Irã", o que funcionaria como mecanismo de dissuasão para afastar os europeus de uma escalada no conflito.
Ele vai além ao afirmar que Washington tem se tornado um fator de instabilidade e, na prática, um adversário da própria Europa. "Hoje os Estados Unidos são um complicador, um fator desestabilizador, […] entrando em uma guerra que ninguém queria, em um momento que ninguém queria."

"Com ameaças à própria OTAN, tanto de sair quanto exigir o valor pago de todos os materiais mandados para a Ucrânia. Quer dizer, [os EUA] estão se tornando um adversário da própria Europa."

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