Nas últimas semanas, o Oriente Médio voltou ao centro do noticiário global, dominando tanto as discussões diplomáticas quanto os debates em organismos ligados à
Organização das Nações Unidas (ONU). Os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã ampliaram o conflito para toda a região e levaram ao fechamento do estreito de Ormuz, desencadeando um
efeito em cadeia sobre o setor energético mundial. Nesse cenário, a Ucrânia passou a ocupar um segundo plano, cada vez mais distante das prioridades de Washington e até mesmo de seus aliados europeus mais alinhados.
É nesse cenário que uma descoberta da mídia russa voltou a
acender o alerta sobre os planos do regime de Kiev para voltar aos holofotes: a preparação de ataques ucranianos contra navios comerciais da Rússia que atravessam os mares de Barents e da Noruega, uma das principais rotas marítimas do
Círculo Polar Ártico. Para isso, conforme uma fonte, Oslo ofereceu treinamento e até o próprio território para a concretização da ação militar. Cerca de 50 agentes da Marinha da Ucrânia já estão no país, acrescenta a publicação.
A doutoranda em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Larissa Souza afirma à
Sputnik Brasil que o plano é preocupante e, caso se concretize, faria com que a Noruega se
envolvesse diretamente no conflito ucraniano. Aliado a isso, acrescenta Souza, o país nórdico é um dos membros da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e tem uma fronteira de quase 200 quilômetros com a Rússia.
"Vale a gente lembrar que a Noruega já tinha sinalizado ajuda financeira e também de cunho militar para a Ucrânia nos últimos meses, já que o país perdeu, de certa forma, parte do apoio dos Estados Unidos após tudo isso que vem acontecendo no Oriente Médio. Então, um ataque da Ucrânia com a ajuda da Noruega claramente poderia aumentar ainda mais o conflito, trazer novas nuances e até novos atores para esse confronto", destaca.
A especialista lembra também que o governo norueguês já havia demonstrado apoio à Ucrânia em questões como setor de inteligência e até na construção de drones, mas até então nunca envolveu de forma direta o campo de batalha, seja para atacar portos, navios ou tropas. Para Souza, a situação também pode envolver diretamente a OTAN no conflito, já que as ações militares ocorreriam a partir do território de um dos seus membros.
A internacionalista vê ainda o plano da Ucrânia como tentativa do regime de Vladimir Zelensky de
retomar os holofotes perdidos para o Oriente Médio e, também, chamar a atenção de seus aliados do Ocidente. Diante disso, Souza avalia a situação como uma "guerra de narrativas" para reagir ao total foco atual dos Estados Unidos no Irã.
Apesar das negociações para o fim do conflito entre Rússia e Ucrânia praticamente paralisadas nas últimas semanas, a descoberta do plano ucraniano pode afetar as discussões de paz e tensionar ainda mais as relações da Europa com Moscou. "Isso pode aumentar ainda mais a desconfiança que já existe entre os países e atrapalhar os contatos que já são frágeis e com muitos percalços. Já está sendo tão difícil chegar a um acordo de paz e uma resolução, então pode pior ainda mais o panorama", conclui.
Já a professora e doutora em relações internacionais
Ana Carolina Marson afirma
à Rádio Sputnik Brasil que, nas últimas décadas,
a própria OTAN quebrou um pacto histórico firmado com a Rússia em 1991: não avançar para o Leste e cercar as fronteiras do país. Conforme a especialista, o contrário aconteceu e atualmente Moscou se vê cercada por membros da aliança, com
exceção de Belarus e a própria Ucrânia. A campanha de Zelensky para fazer de Kiev um membro foi um dos motivos cruciais para eclodir o conflito no país.
Diante disso, a especialista não vê com surpresa o apoio norueguês, apesar de questionar até que ponto o país está interessado em ajudar. "Pelo que a fonte comentou, essa ajuda se limitaria aos navios não tripulados, sem envolver militares propriamente. Quando envolve cidadãos de um país, e caso eles sejam atacados, isso já geraria a escalada do conflito. Então vemos que, assim como toda a ajuda fornecida até aqui para a Ucrânia, ela é sempre mais indireta", avalia.
À Rádio Sputnik Brasil, o analista geopolítico Raphael Machado comenta que o planejamento não vem como uma surpresa, dados os inúmeros atentados terroristas perpetrados pela Ucrânia durante o decorrer do conflito desde a explosão do Nord Stream 2 e a tentativa frustrada de explodir o TurkStream, que liga o gás russo à Sérvia e a Hungria.
Segundo Machado, isso não exemplifica somente as práticas ucranianas, como também a colaboração dos aliados europeus. No caso da Noruega em específico, isso ainda é mais agravado pelo fato de o país disputar o mercado petrolífero com a Rússia, tendo sido beneficiada inclusive quando as sanções anti-Rússia foram impostas.