Panorama internacional

Fé ortodoxa reacende interesse de brasileiros por outras formas de cristianismo (VÍDEOS, FOTOS)

Neste domingo, 12 de abril, celebra-se a Páscoa Ortodoxa. No Brasil, a data pascoal foi celebrada na semana passada, porém, muitos brasileiros, inclusive sem ascendência eslava, festejarão o rito como ortodoxos. Tal fato revela o interesse em professar a fé cristã além do catolicismo e protestantismo, as religiões mais populares do país atualmente.
Sputnik
O padre Roman Kuhnen, da Igreja Ortodoxa Russa Santa Zinaída, situada no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, em entrevista à Sputnik Brasil, aponta que esse interesse de pessoas que não tinham origem na ortodoxia passou a acontecer a partir da década de 2000, e o perfil majoritário é composto por jovens.

"A partir dos anos 2000, com a Internet, as pessoas pesquisavam muito e viram que a Igreja Ortodoxa não era apenas dos russos e dos gregos. Vieram muitos jovens que estudam bastante e começam a ler a Patrística [fundamentos da ortodoxia cristã]. Hoje, a maior parte da paróquia, assim, da Igreja Ortodoxa em geral, é a de brasileiros no Brasil", disse.

Neste contexto, o padre relembra que a sua paróquia foi fundada por russos brancos, em 1937, termo designado àqueles que saíram da Rússia após a revolução bolchevique de 1917, da qual eram opositores. Muitos vieram de lugares como a Crimeia e de Harbin, cidade no Nordeste da China com influência da cultura russa devido à presença da diáspora.

"A grande imigração russa branca chegou na década de 1920 ao Rio, a maioria era de refugiados do Exército Branco que vieram da Crimeia e alguns de Harbin. Quando chegaram aqui, frequentaram a Igreja Antioquina, apesar de terem sido bem recebidos pela comunidade sírio-libanesa, sentiam falta de falar seu idioma e, a partir dessa necessidade, fundaram a nossa igreja", comenta.

Além disso, o líder eclesiástico também contou sobre visitas ilustres que a histórica igreja recebeu ao longo dos anos, como o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Kirill, em 2016, e da ministra da Cultura da Rússia, Olga Lyubimova, em 2024, que esteve no Rio para a divulgação das Estações Russas (Russian Seasons), evento que trouxe diversas atrações e espetáculos russos ao Brasil.

"Há dez anos, nosso patriarca Kirill visitou a América Latina e foi até nossa paróquia e depois fizemos oração no Cristo Redentor. O encontro com a ministra Olga foi maravilhoso e informal. Eu fui assistir a um dos concertos do Russian Seasons e soube que ela gostaria de conhecer a igreja, acender uma vela e rezar. Foi uma visita genuína e autêntica", relembra.

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Kirill, patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, visitou a paróquia Santa Zinaida no Rio de Janeiro em 2016
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Ministra da Cultura da Rússia, Olga Lyubimova, visitou a Igreja Ortodoxa Russa Santa Zinaida, no Rio de Janeiro, em 2024

Conversão e aprendizado com a ortodoxia

O analista de sistemas Davi Tavares, antes de se tornar ortodoxo, era evangélico e, através das redes sociais, teve acesso a informações relacionadas à ortodoxia, que até então era algo distante. Ele passou a frequentar igrejas ortodoxas antioquina e russa, em São Paulo, antes de se mudar para o Rio, onde passou a ser fiel na Igreja Santa Zinaída.

"Eu venho de família protestante, parte do interior da Paraíba e do Rio Grande do Norte, muito longe, de uma linhagem russa. Eu frequentava a Assembleia de Deus até meus 19 anos. Conheci a Igreja Ortodoxa através de uma postagem explicativa e quando me mudei para São Paulo, fui a uma igreja no Ipiranga e me apaixonei pela liturgia russa", revela.

Além de se dedicar à fé ortodoxa, Davi auxilia os fiéis que não dominam o eslavo eclesiástico por meio do site "Slovo" (Palavra, em russo). Criado por ele, o portal funciona como um guia com textos litúrgicos, vocabulário e regras gramaticais em alfabeto cirílico, apresentando transliteração para caracteres latinos e traduções em português.

"Eu tenho interesse em aprender russo e eu venho estudando o eslavo eclesiástico que a gente usa nas liturgias. Inclusive, criei um site para transliterar do eslavo para o português. A minha esposa faz parte do coro lá na Igreja Santa Zinaída, que vem crescendo muito, e essa ferramenta acaba sendo um auxílio para eles", explica.

Notícias do Brasil
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Igreja Ortodoxa valoriza a cultura local

Padre Roman ressalta que um dos pilares da religião é o respeito pela cultura local que são incorporados aos preceitos de cada Igreja Ortodoxa, no entanto, todas seguem a mesma liturgia como uma unidade.

"A Igreja Ortodoxa valoriza muito a cultura local e a manifestação do povo por ser inclusiva. Mas a nossa igreja tem que ser uma, não pode ter diferenças dogmáticas ou doutrinárias. Por exemplo, a Santíssima Trindade é professada na Igreja Russa, Grega e Antioquina e em qualquer lugar do mundo. O que muda são as pequenas tradições culturais locais e o uso do idioma", conclui.

Em um cenário de mutações geopolíticas com reflexos socioeconômicos globais, somado ao fluxo voraz de informações por meio da Internet que molda comportamentos na sociedade, as religiões, além de resistirem a todas essas intempéries ao manter suas tradições, readaptam-se aos novos tempos, sem renunciar seus valores, como o caso da Igreja Ortodoxa, que atrai novos fiéis em todo o mundo.
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