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Chernobyl 40 anos depois: como o setor nuclear se fortaleceu após o desastre? (VÍDEOS)

Às 01h23 da manhã do dia 26 de abril de 1986, ocorreu o acidente de grande proporção na usina de Chernobyl.
Sputnik
O episódio fez com que a energia nuclear fosse estigmatizada, principalmente na indústria do entretenimento; contudo, o setor segue em crescimento e se fortaleceu a partir do duro aprendizado da tragédia ocorrida há quatro décadas na Ucrânia.
Além das especificidades técnicas ocorridas neste episódio, o debate muitas vezes é levado para a seara da geopolítica, que, segundo Matheus Pereira, engenheiro químico e embaixador da educação nuclear da Rússia em entrevista à Sputnik Brasil, foi instrumentalizado pelo Ocidente como forma de propaganda para demonizar a tecnologia para que países em desenvolvimento não tenham acesso.

"Precisamos superar a 'Síndrome de Chernobyl', justamente por culpa dessa instrumentalização hollywoodiana e também governamental, que foi feita para atribuir estigmas ao setor nuclear e impedir que esse setor se expanda para países do Sul Global. Nós precisamos do setor nuclear para justamente suprirmos a demanda energética crescente", disse.

Pereira também ressalta que a Europa, que sempre teve uma posição crítica ao desenvolvimento nuclear, apesar da retórica, alguns Estados europeus mantêm projetos na área visando a sua segurança energética em setores estratégicos.

"A Europa que tanto advogou pelo fim do nuclear, hoje retorna. A Polônia anunciou que vai construir a maior usina nuclear [a nível europeu]. A Eslovênia quer expandir o seu programa e a França, com Macron, recentemente declarou, por mais que seja signatária do TNP [Tratado de Não Proliferação de Armas], que vai aumentar o seu arsenal nuclear", comenta.

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Causas do acidente da usina nuclear de Chernobyl

Para compreender o que gerou o erro técnico no reator RMBK (Reator de Alta Potência Canalizado) da Central Nuclear Vladimir Ilyich Lenin (nome em homenagem a Lenin, primeiro líder soviético), que ficou conhecida como Chernobyl, devido à região que estava inserida, e que culminou no desastre em grande escala, é preciso entender antes de tudo as razões e o processo, conforme enfatiza Pereira, que também tem pós-graduação em Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear pela Universidade Estadual de São Petersburgo (SPbGU).

"Descobriu-se, por conta de Chernobyl, uma série de problemáticas que todas foram corrigidas no reator RMBK 1000, entre as quais o coeficiente de vazio positivo que gerou bolhas de vapor em áreas localizadas. Talvez por desconhecimento do engenheiro-chefe, resolveu-se fazer um teste rotineiro de emergência em situação de baixa potência. Foi um erro humano, mas principalmente técnico", explica.

O especialista enfatiza que o reator RMBK, utilizado nesse período, era seguro, prova disso é que não houve outros acidentes envolvendo o mesmo.

"O reator RMBK foi uma grande inovação na época e usado em outros locais como na Rússia e na Lituânia, por exemplo, e não teve nenhum outro acidente", complementa.

A partir desse entendimento, as lições que ficaram ajudaram toda a indústria nuclear a se fortalecer para que o que ocorreu em Chernobyl não se repita mais, tanto que os reatores modernos, como elucida o pesquisador, são testados em situações extremas.

"Tentar comparar um reator nuclear RBMK com um reator atual chega a ser irreal. Até porque nós já sabemos até onde os reatores conseguem ir. Esses novos, por exemplo, que a Rosatom vem produzindo e levando isso de uma maneira exemplar para todo o globo terrestre, são reatores que já são testados em todas as circunstâncias, das mais extremas às mais naturais", destaca.

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Mesmo sob ataque, a central nuclear de Zaporozhie é exemplo de segurança

Em 2022, logo no primeiro ano do conflito entre Rússia e Ucrânia, Pereira teve a oportunidade de ir a Zaporozhie. No entanto, por conta de ataques ucranianos à infraestrutura, não pode entrar na usina. Ele utiliza esse exemplo para demonstrar que a segurança que as centrais nucleares possuem permite resistir a grandes impactos.

"Os reatores modernos que são construídos pela Rússia, por exemplo, possuem camadas de contenção de 2 a 4 metros de extensão de concreto e aço para evitar qualquer explosão. Em Chernobyl não tinha. Estive em Zaporozhie, mas por causa de um ataque ucraniano, não chegamos à usina. Mas vimos fotos, analisamos mapas e as camadas, que hoje protegem a usina de ataque de drones e mísseis", conclui.

O que ocorreu em Chernobyl jamais será esquecido por ser um paradigma na história. O aprendizado adquirido foi essencial tanto para o fortalecimento da indústria nuclear como fornecedora de energia limpa e segura quanto para o cenário internacional, onde a segurança energética se torna cada vez mais vital para o desenvolvimento das nações.
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