Bandeira de organizada do Flamengo pode virar propaganda ucraniana e esconde riscos em ser mercenário
Em entrevista à Sputnik Brasil, historiadora cobra ações mais efetivas do governo federal para impedir a ida de brasileiros ao front. Alto escalão da Jovem Fla destaca preocupação com membro da torcida nos batalhões de Kiev.
SputnikDuas organizadas do Flamengo, a
Torcida Jovem do Flamengo e a
Raça Rubro-Negra, viralizaram nas redes sociais durante o mês de abril, mas não por festas bonitas nas arquibancadas do Maracanã, e sim por
ações na Ucrânia. Mercenários publicaram fotos com itens dessas duas torcidas, reacendendo a discussão sobre a
presença de voluntários brasileiros em meio às tropas de Kiev.
Em um dos vídeos, um brasileiro segura a camisa da Raça Rubro-Negra e repete diversas vezes a palavra "raça". Em outra publicação, sete pessoas aparecem em uma foto diante de uma bandeira da Jovem Fla. O post é acompanhado de um versículo bíblico e da hashtag #brasileirosnaucrania.
A repercussão do assunto fez com que Magide Vieira, historiadora e mestranda em relações internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), escrevesse um artigo explicando os riscos e os meios que o governo da Ucrânia usa para encontrar mercenários.
Vieira também destaca em seu texto diversos casos de brasileiros que foram lutar ao lado das tropas ucranianas e morreram em campo de batalha sem treinamento ou, até mesmo, torturados por comandantes. São Brunos, Kauans e tantos outros jovens brasileiros, todos com pouco mais de 20 anos, seduzidos pela promessa de bons salários.
"É impossível ignorar o lugar de vulnerabilidade de pessoas dos países do Sul Global que vão para uma guerra na Europa. Não vale a vida dessas pessoas esse soldo, esse salário para ser mercenário", conta Vieira à Sputnik Brasil.
De acordo com a historiadora, além das promessas de recompensas financeiras,
o imaginário militar inserido na mente dos homens ao longo da vida faz com que sejam fisgados em sites ucranianos de recrutamento em português. A interface intuitiva desses portais, segundo Vieira,
esconde o real valor do mercenário estrangeiro para Kiev.
"A questão do soldado mercenário estrangeiro é muito cruel. Ele age como uma proteção ao soldado nacional. Essas vidas têm valores distintos no front, e é a nossa que está com menor valor. […] O que esse soldado não entende é que, independentemente da vontade dele, ele é lido como um sujeito latino-americano. O valor da vida dele é diferente."
Rubro-negra, Vieira ressalta que os símbolos das organizadas do Flamengo na Ucrânia podem se tornar um atrativo para que outros brasileiros acabem se tornando mercenários. A historiadora reforça que as imagens que viralizaram não retratam a "realidade muito cruel" por trás do conflito.
"Usar essa bandeira pode não ter sido, na escolha dele, uma propaganda de guerra, mas associar um símbolo cultural a uma guerra, a um batalhão, é uma distração do que de fato está em jogo, que é a ameaça sobre a vida. A diferença de não demonstrar a ameaça para demonstrar é essencial no recrutamento, e aí acho que a bandeira disfarça a ameaça que é você se alistar como mercenário em uma guerra estrangeira."
9 de dezembro 2025, 18:40
Brasil precisa de leis específicas
Vieira é enfática ao destacar que o Brasil precisa criar obstáculos para impedir que mais cidadãos se alistem como mercenários. Segundo a especialista, é necessário criar meios jurídicos para evitar a perda de vidas, e não apenas eventuais punições por crimes de guerra, como já advertido pelo Ministério das Relações Exteriores.
Sob a ótica da historiadora, Brasília precisa entender que o mundo "não vive em um período de paz" e que é necessário "defender os peões desse jogo" com leis específicas sobre mercenarismo. Vieira entende que há jurisprudência se esses brasileiros forem vistos como pessoas em situação de vulnerabilidade.
"Quando uma pessoa tenta tirar a própria vida, o Estado brasileiro entende que ela está cometendo um crime contra si mesma e tem uma série de campanhas para evitar. O caso da prostituição é muito parecido; parte desse entendimento que não é crime, mas a exploração sexual no Brasil é. Por quê? Porque entende o lugar da vulnerabilidade, que nem toda escolha individual que a gente faz, a gente está atento às condições reais."
A historiadora também destaca que o
conflito no Leste Europeu é colocado como uma questão global, quando, na verdade,
envolve dilemas europeus. No entanto, a mídia ocidental, em sua maioria,
transmite uma mensagem de que valores liberais precisam ser defendidos, como a democracia, a igualdade e o respeito aos direitos humanos.
"Os europeus têm que encontrar a maneira deles de resolver. [...] Essa guerra tem contornos próprios e precisa ser resolvida pelos atores centrais. Ela não pode ser vista como um chamado para a luta. A gente não divide esses valores o suficiente para arriscar a nossa vida."
Outro alerta de Vieira aos brasileiros que pensam em se arriscar como mercenários é o desaparecimento desses combatentes, que não aparecem como mortos ou prisioneiros de guerra. Esse mecanismo acaba sendo utilizado para lavagem de dinheiro.
"A realidade é que, quando os brasileiros chegam lá, o salário é congelado. Quando eles não morrem no campo de batalha, […] morrem torturados por outro brasileiro do batalhão. É importante divulgar a realidade do cotidiano da guerra. É importante divulgar isso porque, quando sai foto com bandeira do Flamengo, parece interessante [ser mercenário]."
Jovem Fla torce por volta de integrante vivo
A Sputnik Brasil também conversou com Carlos Henrique, diretor de marketing da Torcida Jovem do Flamengo, e com Lorenz Melo, ex-presidente e membro-fundador da Jovem Fla, e ambos são claros: a torcida não apoia qualquer tipo de conflito, e sua prioridade é a volta do associado com vida para o Brasil.
"A nossa torcida tem uma identidade de revolução. A gente quer igualdade. É por isso a nossa luta contra o sistema. Nós somos uma torcida que procura sempre defender o Flamengo, mas a gente apoiar guerra lá fora? Negativo. Aí parece que a gente é um grupo terrorista", explica Carlos Henrique, mais conhecido como Primo.
Melo, por sua vez, destaca que o fenômeno do mercenarismo não é uma exclusividade dos brasileiros, e acredita que as pessoas estejam fazendo isso por falta de recursos.
"Os jovens hoje estão seduzidos pelo objetivo de obter algum tipo de lucro. Não estão indo por amor a uma pátria, amor a outra. Estão indo pelo dinheiro. O nosso país sequer está envolvido em guerra alguma."
A Jovem Fla reivindica a criação do modelo de torcida organizada que conhecemos hoje no Brasil. Apesar de sua importância histórica para as arquibancadas no país, os membros do grupo estão proibidos de entrar em jogos no Rio de Janeiro com bandeiras ou adereços que façam menção à torcida.
Fundador da Jovem Fla, Melo destaca que, há décadas, tenta mentorar e aconselhar os membros da organizada para que fujam de situações como se tornar mercenário ou, até mesmo, fazer parte de facções criminosas.
"As pessoas não conseguem sustentar suas famílias. E aí não envolve somente a Ucrânia e a Rússia. O Rio de Janeiro também vive uma guerra, e esses jovens são seduzidos por várias facções criminosas."
Apesar da imagem marginalizada das organizadas, Primo destaca que a Jovem Fla, assim como outras torcidas, realiza uma série de ações sociais, embora não seja divulgado pela mídia, como brigas ou até integrantes ostentando símbolos na Ucrânia, por exemplo.
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