"A intenção é promover uma dissuasão e dizer: 'olha, se você vier para cá, pode terminar pior do que estava no seu país de origem, então, é melhor você ficar por aí ou emigrar para um país vizinho'. Isso desorganiza completamente a agenda internacional e as dinâmicas internacionais de migração", disse.
"As pessoas ficam sabendo algumas horas antes para onde efetivamente vão e não têm nem a opção de dizer 'não, quero voltar para o meu país', porque são enviadas para o destino que os EUA escolheram. A gente não sabe o que vai acontecer com essas pessoas, porque esses acordos firmados com Paraguai, El Salvador e Congo são pouquíssimo transparentes", comenta.
Deportados sofrem estigmas em outros países
"Outra questão muito importante com essas deportações é o estigma recebido por quem é deportado. Por exemplo, essas 16 pessoas que o Paraguai acabou de receber chegam estigmatizadas pela campanha que o governo Trump faz, de que apenas criminosos estão sendo deportados, e essa não é a realidade", explica.
"A Suprema Corte do Reino Unido, ainda em 2023, decidiu que o acordo com Ruanda era ilegal, e ele não existe mais desde 2024. No caso da Itália, foi também a Suprema Corte que impediu o envio de solicitantes de refúgio e asilo para a Albânia. Normalmente, são essas instituições internas que podem impor limites nos Estados Unidos, no entanto, o atual governo tem maioria", discorre.
Washington usa deportação como pressão política
"O ex-presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador elegeu-se sob a promessa de não restringir os fluxos migratórios. Contudo, diante da pressão de Washington durante a renovação do então NAFTA [Tratado Norte-Americano de Livre Comércio], viu-se compelido a implementar o programa 'Remain in Mexico' [Permaneça no México], em 2019, passando a acolher imigrantes deportados pelos Estados Unidos", conclui.