Apesar de não reconhecer a competência do tribunal para resolver a disputa, a delegação venezuelana
apresentou em Haia os argumentos históricos e jurídicos que, segundo analistas, buscam consolidar sua posição no cenário internacional e pressionar por uma
negociação direta com a Guiana.
A apresentação, realizada em meio a um renovado clima de tensões fronteiriças, foi classificada pelo chanceler da Venezuela, Yván Gil, como uma intervenção "clara" e "pedagógica", dirigida não apenas aos juízes da Corte, mas também à comunidade internacional e, especialmente, à juventude venezuelana.
"A Venezuela deixou claro hoje também para a comunidade internacional, para a República Cooperativa da Guiana e para a Corte que, por meio do Acordo de Genebra, está disposta a trabalhar diretamente, cara a cara, como determina esse acordo, com a República Cooperativa da Guiana, para encerrar definitivamente essa controvérsia que já completa 126 anos", enfatizou o chanceler.
Para o
cientista político venezuelano e especialista em relações internacionais Martín Pulgar, a presença da Venezuela
em Haia foi um ato de "grande importância", porque oferece ao país a oportunidade de demonstrar com argumentos históricos sólidos as razões da reivindicação.
Em entrevista à Sputnik, Pulgar explicou que a defesa venezuelana se baseou em alegações reunidas "praticamente desde o surgimento da independência e após muitos dos conflitos que ocorreram com o Império Britânico".
Segundo o analista, a intenção original do império era se apropriar de uma faixa muito mais extensa do território venezuelano, que ia "até a foz do Orinoco e um pouco além", motivada pela descoberta de ouro na rica região da Guiana venezuelana em meados do século XIX.
Além dos argumentos históricos, o núcleo da estratégia venezuelana é a defesa do Acordo de Genebra de 1966, instrumento que estabelece a necessidade de um "acordo mutuamente aceito entre as partes" e não uma imposição de um tribunal externo:
O chanceler Gil Pinto, por meio de suas redes sociais, denunciou a divulgação de um
falso ataque venezuelano que teria deixado um soldado ferido. Segundo Caracas, há um padrão recorrente sempre que a Venezuela recorre a instâncias internacionais.
Pulgar afirmou que a Guiana tenta construir uma narrativa de "agressividade venezuelana" para elevar o tom do conflito na agenda midiática internacional.
O analista também destaca a
presença de grandes corporações transnacionais, em particular a ExxonMobil, explorando petróleo em território ainda em disputa.
Em um contexto de escassez energética mundial e de reconfiguração geopolítica, a região do Essequibo tornou-se estratégica para atender à demanda por combustíveis fósseis.
O último fator que Pulgar introduziu em sua análise é o
papel dos Estados Unidos na região, particularmente no contexto da recente
aproximação entre Washington e Caracas após anos de sanções e tensões. O cientista político menciona a "doutrina Monroe 2.0" e a visão de controlar o "grande hemisfério norte", um anel de segurança no qual a Venezuela estaria incluída.
O analista espera que Washington não intervenha de forma parcial e que sejam "a dinâmica jurídica e os argumentos estabelecidos" os fatores predominantes.
No entanto, adverte que "os interesses dos grandes impérios podem jogar a favor ou contra as decisões de nossos países soberanos", citando exemplos históricos como a Guerra do Chaco e a Guerra do Pacífico, nas quais corporações e potências estimularam conflitos por recursos.
"A história diplomática e a história das relações internacionais estão cheias de exemplos de soluções compartilhadas para evitar elementos conflituosos ou violentos", concluiu ele.