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Marcha do Regimento Imortal em Cuba: 'a humanidade tem uma grande dívida para com os povos da URSS'

Como já é tradição, a Marcha do Regimento Imortal, comemoração realizada anualmente na Rússia e em outros países em homenagem aos que tombaram durante a Grande Guerra Patriótica (1941-1945) e à vitória da União Soviético sobre o fascismo, levou centenas de pessoas a percorreram a emblemática Quinta Avenida, em Havana, Cuba.
Sputnik
Um grupo de cerca de 300 pessoas, formado pelo corpo diplomático credenciado na ilha e seus familiares, representantes da comunidade russa, professores e estudantes do Instituto Superior de Relações Internacionais Raúl Roa García, ex-alunos das universidades da antiga União Soviética e outros convidados, percorreu a importante avenida da capital cubana com cartazes e bandeiras alusivos ao 9 de maio.
Em declarações à Sputnik, Daria Kovaleva, integrante da comunidade russa em Cuba e colaboradora da Casa Russa em Havana, contou que vive na ilha há 11 anos e que sua família — um marido cubano e dois filhos — participa todos os meses de maio dessa comemoração: "eles conhecem o simbolismo da data e a história dos meus parentes que lutaram na guerra".
Ela relatou ainda que soube da trajetória de seu bisavô Konstantin por meio de sua avó e de sua mãe.
"Não pude conhecê-lo porque ele nunca voltou; morreu em 1944 durante uma batalha. Era tanquista; viveu apenas quatro anos ao lado da minha bisavó antes da guerra. Depois da morte dele, ela nunca mais se casou e recebeu uma condecoração por sua condição de viúva de um veterano de guerra", contou.
Sobre o impacto na família, afirmou que "foi muito doloroso, porque perder um parente nesse tipo de conflito é sempre difícil; as mulheres tiveram que lutar sozinhas para criar os filhos e trabalhar, foi muito duro para elas. Por isso é muito importante transmitir nossa história de uma geração para outra; é preciso que saibam a verdade sobre o que aconteceu".
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Por sua vez, o embaixador de Moscou em Havana, Viktor Koronelli, afirmou à Sputnik que "para os russos esta é uma celebração sagrada e a mais importante de todas as que comemoramos (…) agora estamos combatendo o neofascismo e o neonazismo, que voltam a ganhar força em vários países do mundo, na Ucrânia e em algumas outras ex-repúblicas soviéticas".
Ele também ressaltou que "nunca vamos nos render e vamos vencer e conquistar outra vitória. Atualmente, a Rússia, assim como Cuba, vive cercada por inúmeras sanções impostas pelos países capitalistas e imperialistas, mas, ainda assim, repito: vamos lutar e vencer, porque não há outra opção".

Nem esquecidos, nem mortos

Oscar Julián Villar Barroso, doutor em história e mestre em história contemporânea e relações internacionais, afirmou à Sputnik que, no contexto cubano, a Marcha do Regimento Imortal relembra de forma emocionante a solidariedade histórica entre os povos de Cuba e da Rússia, bem como dos países que fizeram parte da antiga URSS.
"Durante a Guerra de Independência da nossa pátria, sob as ordens do chefe militar Antonio Maceo, lutaram três jovens russos. Mais tarde, durante a Grande Guerra Patriótica, na União Soviética, nas fileiras do Exército Vermelho, combateram três jovens cubanos. É importante reconhecer isso porque atua como um elemento de união, solidariedade e comunhão entre ambos os povos", acrescentou.
O especialista afirmou que, nesses dias de tanto significado patriótico para os povos da URSS, entoar canções comemorativas e carregar fotografias dos familiares mortos possui um simbolismo especial, pois se trata de um reconhecimento agradecido ao legado dos bisavôs e avôs que preservaram a independência da pátria soviética.
"É uma forma de lembrar a todos que eles não foram esquecidos nem estão mortos nos corações dos cidadãos. Este é um dos momentos mais emblemáticos, imbuído de profundo significado humano e patriótico, dentro das comemorações do Dia da Vitória. Ele aproxima as novas gerações de um passado que já tem 81 anos. A humanidade tem uma enorme dívida para com os povos da União Soviética", enfatizou.
Segundo o analista, muitos jovens da nação caribenha se interessam por esse período histórico em que os povos da União Soviética foram protagonistas e os verdadeiros vencedores: "eles conhecem e admiram as tradições desse país e a grandeza dos 27 milhões de homens e mulheres que entregaram suas vidas".

Fortalecimento dos laços bilaterais

Villar Barroso reconheceu que a celebração em Havana fortalece as relações bilaterais e lembrou que os cubanos guardam com carinho muitas experiências relacionadas às epopeias da URSS: "os soldados que estavam entrincheirados durante a Crise de Outubro de 1962 carregavam em suas mochilas livros como 'Como o Aço Foi Temperado' e 'A Estrada de Volokolamsk'".
"Isso não é novidade; pelo contrário, fortalece-se a cada ano, intensificando e fortalecendo a relação de solidariedade e afeto entre os dois povos. Ambos os países entendem a comemoração desta data como algo honroso e solene que contribui para a formação de valores nacionais, especialmente em um momento em que há tentativas de despojar a União Soviética de seu papel de liderança na derrota do fascismo", acrescentou.
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Ele afirma ainda que, "a atual guerra cognitiva reforça a narrativa de que os Estados Unidos foram os vencedores, o que é absurdo. Graças à União Soviética, o Terceiro Reich não se impôs ao mundo. Portanto, em um momento em que a história é analisada para fins revisionistas, narrativas incertas são construídas e mentiras são espalhadas, é relevante conhecer a verdade em primeira mão", enfatizou.
Nesse sentido, a marcha "reforça toda a inspiração que devemos ter em nossa luta, baseada no conhecimento do legado heroico deixado pelos soviéticos; temos um ponto de referência válido para nossa resistência". Ele também lembrou as palavras do líder Fidel Castro quando disse que houve uma Revolução Cubana porque antes havia ocorrido uma revolução socialista na Europa Oriental.
Sobre o assunto, Yosmany Fernández Pacheco, professor do Instituto Superior de Relações Internacionais Raúl Roa García, disse à Sputnik que a relevância desta marcha reside na consolidação dos laços entre Havana e Moscou, e também em "destacar a luta por justiça, liberdade e direitos, e contra o desenvolvimento do fascismo e da agressão imperial".
O participante mais jovem, um bebê de cinco meses chamado José Ignacio Almaguer Valladares, estava acompanhado de sua mãe, a russo-cubana Elena María Valladares Shumova. A engenheira civil e sua família relataram à Sputnik a participação de seu bisavô na Grande Guerra Patriótica.
"Quero que meu filho aprenda desde cedo que este dia é sagrado para nós, porque sua família viveu aquela guerra e sofreu suas consequências. Também quero que ele entenda a importância de defender a paz. Se a história for esquecida, os erros se repetem, então quero que ele se lembre e, se esse capítulo se repetir, saiba o que fazer", concluiu ela.
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