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Brasil precisa 'pensar fora da caixa' para usar drones, dizem especialistas

© Sputnik / Guilherme CorreiaNauru 500C, drone com sistema eVTOL, desenvolvido pela fabricante brasileira Xmobots, durante evento da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (ANPEI), em São Paulo (SP), em 22 de agosto de 2024
Nauru 500C, drone com sistema eVTOL, desenvolvido pela fabricante brasileira Xmobots, durante evento da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (ANPEI), em São Paulo (SP), em 22 de agosto de 2024 - Sputnik Brasil, 1920, 07.01.2026
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Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam vantagens no uso de drones armados, mas também alertam sobre entraves doutrinários e industriais para o uso consistente dos veículos não tripulados em operações militares.
O Exército Brasileiro avançou no processo de aquisição de drones de ataque ao abrir consultas públicas para identificar empresas aptas a fornecer os sistemas.
A iniciativa, conduzida pela Diretoria de Fabricação (DF), ocorre após a Comissão do Exército Brasileiro em Washington (CEBW) emitir, em 18 de dezembro, um novo pedido de informações para a obtenção de Sistemas de Munições Remotamente Pilotadas (SMRP).
O projeto contempla dois tipos de veículos aéreos não tripulados (VANTs): os SMRP, conhecidos como drones kamikaze, que atuam como munições guiadas; e os Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (SARP), reutilizáveis e com capacidade ofensiva.
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Os equipamentos foram divididos em duas categorias, com diferentes pesos, alcances, alturas de emprego e autonomias, sinalizando a intenção do Exército de incorporar meios modernos para ampliar a precisão, a letalidade e a capacidade de dissuasão das forças terrestres.
A Sputnik Brasil conversou com especialistas para saber como a aquisição de drones pelo Exército Brasileiro pode mudar o poderio bélico do país.
Segundo Felipe Salles, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos (PPGEM) da Escola de Guerra Naval (EGN) e âncora do canal BaseMilitar, no Youtube, embora os drones já sejam usados há décadas em conflitos — sendo vistos com maior intensidade, agora, na Ucrânia e nas hostilidades entre Israel e Irã —, no Brasil seu uso ainda é inicial, focado no monitoramento.
Isso se deve, na sua avaliação, ao caráter tradicional das Forças Armadas e às restrições orçamentárias, que priorizam meios considerados mais "clássicos", como caças supersônicos, navios de superfície, submarinos e blindados.

"Existem muitas empresas no Brasil acreditando que os drones são o futuro da guerra, mas os gastos das nossas Forças Armadas ainda são mínimos nessa área, o que deixa essas empresas sem vendas e, por consequência, sem perspectivas de exportação", explica. "Sem pedidos, é provável que a maioria dessas empresas quebre."

O especialista destaca que experiências recentes, como as ações dos houthis no mar Vermelho, demonstram como abordagens não convencionais, baseadas em drones e mísseis de baixo custo, podem gerar efeitos militares estratégicos concretos.
Para Salles, esse tipo de operação deveria ser estudado em profundidade pelas Forças Armadas brasileiras, sobretudo considerando que o país já possui uma indústria consolidada de mísseis, como nos casos da SIATT e da Mac Jee.
Contudo, ele ressalta que o único entrave para isso seria doutrinário, não tecnológico: as instituições não têm a disposição de "pensar fora da caixa" e revisar conceitos operacionais à luz das transformações recentes do campo de batalha.

"Notem que na recente intervenção na Venezuela havia um esforço de engenharia reversa: os americanos utilizaram drones armados idênticos aos Shahed 136 usados por iranianos e russos [neste caso aprimorados no modelo Geran 2]."

Além disso, Salles ressalta que drones armados apresentam uma lógica de custo-benefício difícil de ignorar, ao preservar pilotos altamente treinados e aeronaves de alto valor diante de sistemas avançados de defesa antiaérea. "Isso é um argumento fácil de enunciar, mas até certo ponto difícil de ser assimilado pela população, que já não tem mais na memória coletiva a participação brasileira em guerras internacionais."

"O aspecto 'descartável' de muitas das armas modernas pode até soar 'impagável' aos nossos planejadores militares dentro do consistente quadro de falta de recursos orçamentários que vivem nossas Forças Armadas. Mas essa lógica 'pragmática', que claramente nos serve em tempo de paz, curiosa e imediatamente se inverte por completo em tempo de guerra. Temos que ter isso muito claro."

Para o capitão da reserva da Marinha do Brasil Robinson Farinazzo, a incorporação de drones, por si só, não é suficiente para elevar o patamar do poderio bélico nacional. Segundo ele, esses sistemas só vão produzir impacto real se estiverem inseridos em uma mudança mais ampla de mentalidade na construção da capacidade militar brasileira.
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Isso passaria por uma produção em larga escala, com múltiplas fábricas e custos acessíveis, permitindo a adoção massiva do equipamento pelas três forças e viabilizando conceitos operacionais, como o emprego de enxames de drones no campo de batalha. Ele ainda ressalta que a difusão desses meios exige um programa igualmente massivo de treinamento, que capacite um grande número de militares para sua operação.
"Se o drone pode reduzir o risco operacional, o drone é o mote da guerra: é um equipamento barato, fácil de operar, com boa eficiência e fácil de ser substituído", pontua. "Em virtude da ambientação digital da nova geração de soldados, o treinamento é bastante facilitado."
O oficial destaca também o potencial dos drones como ferramenta de dissuasão, desde que empregados de forma sistemática e em grande escala. Para ele, esse cenário abre espaço evidente para a participação da indústria nacional, mas levanta dúvidas sobre a capacidade das Forças Armadas de sustentar políticas de compras contínuas e robustas, essenciais para a sobrevivência dessas empresas.
Por fim, Farinazzo argumenta que o fortalecimento da indústria nacional de defesa é condição básica para evitar vulnerabilidades e dependência externa, em meio a tensões geopolíticas ao redor do mundo.

"No mundo em que a gente está entrando agora, em que as alianças são bastante volúveis e em que há uma ambição latente dos Estados Unidos pela América Latina, a gente não pode mais depender de fornecedores estrangeiros."

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