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Análise: ações arbitrárias corroem a imagem dos EUA no Brasil e põem em risco a direita nas eleições

© Foto / Paulo Pinto / Agência BrasilAto em frente ao Consulado dos Estados Unidos contra a invasão na Venezuela, em São Paulo. Brasil, 5 de janeiro de 2026
Ato em frente ao Consulado dos Estados Unidos contra a invasão na Venezuela, em São Paulo. Brasil, 5 de janeiro de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 08.01.2026
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À Sputnik Brasil, analistas apontam que, embora ainda haja certa admiração pelos EUA na população brasileira, a retórica agressiva e as contradições do governo norte-americano levaram a um "desencantamento" em relação ao país e podem aproximar de Lula eleitores que valorizam a soberania e o nacionalismo democrático.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter encontrado na política externa um motor propulsor de popularidade.
O embate entre Lula e o presidente estadunidense, Donald Trump, em torno do tarifaço aplicado a produtos brasileiros deu ao governo um inimigo externo e fôlego em um momento que Lula enfrentava dificuldade para aumentar a popularidade. Comparado com o 8 de Janeiro, o tarifaço produziu mais resultados positivos na disputa do governo pelo eleitor indeciso, e a reação ao ataque à Venezuela pode engrossar esse feito.
Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas explicam como as ações do governo norte-americano podem impactar o eleitorado brasileiro.
Bruno Hendler, especialista em relações internacionais e atual docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), avalia que há um desencantamento não só da elite brasileira, mas da classe média em geral com os EUA em relação às contradições da política externa, do sistema político e econômico e da democracia norte-americana. Dentre essas contradições, a política externa de Trump foi a maior responsável por esse desencantamento.

"Acho que o ataque externo teve mais efeitos sobre a popularidade do Lula, porque ficou evidente a contradição na política externa americana, ficou evidente a arbitrariedade da política externa do governo Trump. O cálculo que ele fez para impor as sanções, os valores, as porcentagens e tal, sobre cada país, foi um cálculo com base em nada, em pó, isso ficou evidente. Acho que isso foi um ponto importante para essa popularidade do Lula", explica.

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Hendler, no entanto, não considera que a política externa de Lula ou de qualquer mandatário brasileiro funcione como um carro-chefe de governo. Segundo ele, questões internacionais são secundárias no debate eleitoral no Brasil e nas pesquisas de opinião.
"As pessoas falam pouco [sobre política externa] porque o Brasil é um país ainda relativamente insulado, perto do que poderia [ser], é muito baixa a nossa interdependência com os nossos vizinhos da América do Sul."
O especialista afirma ver uma mudança no poder de atração gerado pelos EUA frente à população, principalmente os mais jovens, embora ainda haja uma admiração pelo país.
"Ainda há uma imagem boa em relação aos EUA, mas o Trump está fazendo o possível para corroer, para expor, colocar em fratura exposta as contradições da política externa americana, da democracia, você vê essa série de abalos democráticos que o Trump tem feito ao sistema de checks and balances [freios e contrapesos] dos EUA [...] então eu acho que está mudando um pouco esse poder brando, esse poder de atração que os americanos têm e tinham", destaca.
Questionado se a forma como a oposição vem reagindo às ações dos EUA na Venezuela pode prejudicar a direita nas eleições, Hendler afirma que pode causar prejuízo por conta da repercussão negativa gerada pela decisão de apoiadores de Jair Bolsonaro de estenderem uma bandeira norte-americana nas celebrações do 7 de setembro em São Paulo no ano passado.
Segundo ele, essa má repercussão veio em um momento que a centro-direita precisa se reerguer após ter implodido em decorrência do impeachment de Dilma Rousseff e do governo Michel Temer (2016-2019).
"Por outro lado, eu já vi o político do PL falando que o Brasil precisa desenvolver uma bomba atômica agora, que o Brasil precisa desenvolver capacidades nucleares, sair da Agência Internacional de Energia Atômica, porque a ação na Venezuela pelos EUA é uma abertura de precedente, e o Brasil pode ser o próximo ou a Colômbia. Então você vê os nacionalistas, os supostos nacionalistas da direita, passando a olhar os EUA de uma forma um pouco mais reticente."
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Por sua vez, Theófilo Rodrigues, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Cândido Mendes (Ucam), explica que intervenções ou pressões externas são frequentemente percebidas como afrontas à soberania nacional, mobilizando apoios transversais que vão além da polarização usual da direita e da esquerda.
"No caso específico do tarifaço imposto por Trump, o governo brasileiro conseguiu construir uma narrativa de defesa da soberania e dos interesses nacionais frente a uma ingerência externa, mobilizando setores que normalmente estariam descontentes com Lula. Isso pode ter gerado aquilo que na ciência política chamamos de um efeito de 'rally round the flag', isto é, de união em torno do chefe de Estado diante de uma ameaça externa", afirma.
Ele destaca que a política externa certamente é uma arena onde Lula obtém maior prestígio e onde sua experiência e rede diplomática geram resultados visíveis, seja no BRICS, no Mercosul ou em negociações multilaterais.
"Contudo, internamente, temas como economia, segurança, emprego, saúde e educação continuam sendo os determinantes principais da avaliação do governo. Ou seja, a política externa é um ponto forte e uma zona onde Lula pode capitalizar politicamente, mas não substitui a necessidade de resultados concretos nas áreas sociais e econômicas para consolidar apoio duradouro."
Para Rodrigues, a agressão do poder hegemônico dos EUA, ainda que em declínio relativo, contra o Brasil, oferece um quadro narrativo claro de "nós (Brasil) contra eles (intervencionistas estrangeiros)". E isso, avalia o especialista, conversa com um imaginário nacionalista que "muitas pessoas conseguem abraçar, mesmo sem concordar com todas as políticas do governo".
"O episódio de 8 de Janeiro, por outro lado, não conseguiu se consolidar como um evento que atravessa as linhas de divisão ideológicas no Brasil", observa.
Ele afirma que ainda é cedo para avaliar o possível impacto eleitoral no Brasil do ataque dos EUA contra a Venezuela, mas considera que a forma como a oposição vem explorando o tema pode prejudicar a direita, se a ala adotar um tom excessivamente alinhado aos EUA.
"Isso pode afastar eleitores que valorizam a soberania nacional e o nacionalismo democrático, incluindo setores moderados que não necessariamente apoiam Lula, mas que veem com suspeita o que percebem como ingerência externa", conclui o analista.
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