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'Suicídio ecológico': mudanças climáticas alteram mapa agrícola e trazem mais riscos que benefícios

© Sputnik / Guilherme CorreiaProdução de açaí em cooperativa do nordeste do Pará, Brasil, em outubro de 2025
Produção de açaí em cooperativa do nordeste do Pará, Brasil, em outubro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 08.01.2026
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Mudanças climáticas deslocam zonas tradicionais de plantio para outras áreas, enquanto regiões frias se tornam mais aptas para agricultura. Os riscos dessa mudança, entretanto, superam os ganhos econômicos.
As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção científica distante e já impactam diretamente a produção de alimentos no mundo. Um aumento de temperatura de 1,5ºC no planeta já altera regimes de chuva, agrava eventos climáticos e aumenta a proliferação de doenças e pragas, atestam cientistas.
Os efeitos mais visíveis de tal crise seriam um risco a segurança alimentar de bilhões de pessoas e uma instabilidade nos preços de alimentos. Para contornar essas mudanças, zonas tradicionais de plantio estão mudando para regiões mais amenas – ainda consideradas frias e pouco produtivas – ou surgindo em áreas em que antes era improvável sua produção.
Por exemplo, países produtores de azeite como Itália e Espanha tiveram colheitas danificadas pelo calor, mas outros como o Reino Unido e Alemanha começaram produzir. A França, um dos maiores produtores de vinho no mundo, principalmente sob o clima mediterrâneo da Occitânia, viu muitas produções atravessarem o Oceano Atlântico para a Inglaterra. Na América do Sul, o Chile, maior produtor da região, teve deslocamentos de vinhedos para latitudes mais ao sul.
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No Brasil, percebemos isso com produções migrando para outros estados: laranja, commodity em que o país é o maior produtor, já viu produtores mudarem de São Paulo para o Mato-Grosso do Sul.
O café, outro produto em que o Brasil é o maior produtor, pode desaparecer no país inteiramente caso as políticas atuais de emissão sigam e pressionem uma elevação da temperatura da Terra para 4°C até 2100, segundo pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Estamos diante de de um "novo normal" climático?

Para Carlos Nobre, professor da Cátedra Clima e Sustentabilidade da Universidade de São Paulo e copresidente do Painel Científico para a Amazônia-SPA, ainda não chegamos lá e ainda é possível impedir isso.
"Pela primeira vez nos últimos três anos a média da temperatura atingiu um aumento de 1,5°C. E há um enorme risco de atingir isso em poucos anos de forma permanente", diz Nobre.
Segundo ele, 75% das emissões vêm da queima de combustíveis fósseis e vem continuando a aumentar Em vez de diminuir as emissões, em 2025 um novo recorde foi batido com 1,1% mais emissões que 2024.
Dados a partir da Climate TRACE mostram que houve variações por países no mundo – a China, por exemplo, teve uma pequena queda – mas a tendência geral é de alta recorde, projetando que o teto de carbono para 1,5°C se esgote antes de 2030.
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Mais gás carbônico na atmosfera, significa uma maior a eficiência da fotossíntese, processo pelo qual as plantas produzem sua energia, explica Nobre. Sinônimo de frio extremo, regiões como o Canadá e a Sibéria têm sido tópico de especulação pela possibilidade de ser uma nova fronteira agrícola. Caso as temperaturas aumentem, o eixo da produção de alimentos também pode mudar.
No entanto, Nobre desmitifica a tese de que o aumento da temperatura ajudaria a produção de alimentos. O calor, gerado pelo aumento dos gases de efeito estufa, também prejudicam e eficiência da fotossíntese, o que é um "desastre" para a agricultura.
Aliado a isso, a baixa fertilidade do solo, alto teor de ácido húmico e falta de infraestrutura garantem que essas novas regiões não se tornem o próximo "celeiro do mundo".
"E quando está super seco, também nada acontece, porque não tem água para transpirar e para abrir o estômago para fazer a fotossíntese. O que a gente está vendo no mundo inteiro são grandes quebras de safra."
Dentro desse cenário, um dos maiores prejudicados seria o Brasil, segundo maior exportador de alimentos do mundo.
Segundo estimativas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os impactos econômicos das mudanças climáticas poderiam chegar a US$ 184,1 bilhões (aproximadamente R$ 992,1 bilhões ou 8,5% do PIB de 2025). Hoje, o agronegócio possui uma participação de 23% a 29% do PIB total brasileiro.
A situação é ainda mais agravada com o derretimento do permafrost, solo congelado na região do Ártico e Antártida que armazena enormes quantidades de carbono e metano. Estima-se que até 2100 possam ser liberados 200 bilhões de toneladas de gases do efeito estufa se nada for feito para reverter o curso das mudanças climáticas.
"A partir desse ano de 2026 a gente precisa reduzir, no mínimo, 5% por ano as emissões. Mas nós não estamos vendo nada indo nessa direção".

"Isso é um ecocídio, como nós chamamos, um suicídio ecológico, porque nós vamos levar ao começo da sexta extinção de espécies, Nós vamos extinguir todos os recifes de corais que mantêm 25% da biodiversidade oceânica. Nós vamos perder a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal e muitos outros ecossistemas em todo o mundo. É isso que vai acontecer."

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