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Paraíso ameaçado: como o aquecimento global afeta Bonito e o futuro do ecoturismo

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Bonito (MS) é um dos principais destinos turísticos do Brasil, atraindo visitantes do mundo inteiro com suas águas cristalinas e paisagens naturais exuberantes. Contudo, à medida que os extremos climáticos ganham força, os rios e nascentes que tornam a região tão única se tornam ameaçados.
O biólogo José Sabino alerta para os riscos que ameaçam esse "paraíso natural". Ele explica que Bonito se destaca principalmente pela combinação única de água cristalina e uma fauna aquática abundante, o que cria cenários subaquáticos fascinantes para os turistas. "A gente está falando de uma região muito especial, porque ela reúne água transparente e alta diversidade. E essa combinação permite que as pessoas descubram a vida subaquática."
"Em Bonito, você tem também a flutuação. Que não é um mergulho, mas a pessoa flutua, não pode ir para o fundo, até a proposta da delicadeza dos rios e das plantas, então, evita tocar no fundo, os guias sempre orientam isso. Então, você flui e faz uma inversão, literalmente, nos ambientes aquáticos fantásticos, e são fabulosos, porque eles transformam a percepção, rios não são barrentos, rios não são de água preta, né? Como aquela cor de chá, rios podem ser cristalinas."
No entanto, o crescimento da atividade agrícola e as mudanças climáticas começam a gerar efeitos negativos para esse equilíbrio. "A visão que se tem, da maioria das pessoas vive em grandes cidades, é que os rios são lugares para tirar água e para despejar esgotos. E Bonito já é, desde o início, um exemplo de como os rios podem ser mais do que isso."
"As chuvas, não é que elas diminuíram ou aumentaram. Se você pegar o longo do ano, você vai perceber que é uma quantidade até muito parecida com que era no passado. Mas o que caracteriza muito as chuvas hoje, elas são mais pesadas, intensas, e num curto intervalo. Então, em vez de chover 100 milímetros em cinco dias, às vezes você tem 100 milímetros em cinco, seis horas."
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Essa saturação, diz, impede que a água seja adequadamente absorvida pelo solo, o que, por sua vez, causa o escoamento de sedimentos para os rios e córregos da região, turvando suas águas cristalinas.
De acordo com ele, as características geológicas e climáticas da região tornam Bonito uma das áreas mais especiais do Brasil. No entanto, a pressão sobre esses recursos naturais tem aumentado nos últimos anos.

O impacto da agricultura no solo e na água

Sabino aponta que a expansão da agricultura de grãos, especialmente a soja, tem sido uma das principais responsáveis pela degradação do solo e pelo aumento da turbidez das águas.
"No passado, a área de cultivo de grãos em Bonito era de cerca de 5 mil hectares, mas, até 2016, essa área aumentou para cerca de 70 mil hectares. A conversão de áreas de pastagem para agricultura tem sido feita de forma rápida, e muitas vezes sem a aplicação de boas práticas de conservação do solo."
O biólogo destaca que essa mudança na agricultura afeta diretamente o ecossistema aquático, já que a água dos rios não consegue mais se infiltrar no solo de maneira eficiente.
"Hoje, após uma forte chuva, a água não volta a ser cristalina como antes. Ela fica turva por dias, o que prejudica não só o ecoturismo, mas também o equilíbrio ecológico da região."

Turismo e conservação: a importância do equilíbrio

Bonito, com sua população de 22 mil habitantes, depende fortemente do turismo. Cerca de um terço da população local vive diretamente do setor, que gera empregos e movimenta a economia regional.

"O turismo é essencial para nossa economia. Ele impulsiona a hotelaria, o comércio e até os serviços relacionados, como o transporte", afirma Najara Mancuelho, proprietária da Pousada Segredo. Para ela, o turismo em Bonito não é apenas uma fonte de renda, mas também uma maneira de promover a troca cultural entre os visitantes e os moradores da cidade.

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A pousada é um dos inúmeros exemplos de como a comunidade depende do setor turístico para viver. Fundada em 2012, o local começou como um pequeno projeto familiar. "Meu pai e minha mãe, na época, tinham uma fazenda e, com a venda do gado, resolveram investir na pousada."
Inicialmente, a pousada tinha apenas quatro quartos, mas com o tempo foi crescendo e hoje recebe turistas em uma estrutura simples, mas acolhedora.
Além de hospedagem, os clientes podem contar com serviços auxiliares para reservas de passeios e transporte, tudo feito diretamente no local. "A nossa pousada se destaca pela localização e pelo atendimento familiar. Como é pequena, a gente consegue dar uma atenção mais personalizada, com muito carinho."
"Embora não seja uma agência de turismo formal, trabalhamos com pacotes e reservas de passeios. O objetivo é facilitar para os hóspedes, oferecendo tudo o que precisam sem que precisem sair do local", afirma Najara.
O biólogo José Sabino enfatiza que a sustentabilidade do modelo turístico de Bonito está atrelada à preservação de suas águas e ecossistemas naturais. "A água transparente é o principal atrativo. Sem ela, o turismo perde seu principal diferencial."
Para Sabino, a chave para garantir a continuidade do ecoturismo na região está na restauração ambiental. Ele defende que a preservação das matas ciliares e a aplicação de práticas de manejo sustentável do solo são fundamentais para mitigar os impactos das atividades agrícolas e das mudanças climáticas.
"É essencial restaurar as áreas de preservação permanente ao longo dos rios. Essas matas funcionam como um amortecedor, desacelerando a água da chuva e evitando o escoamento de sedimentos", explica.
Sabino também menciona as curvas de nível, uma técnica utilizada para impedir o escoamento rápido da água, e a importância da restauração das florestas para garantir que o ciclo da água seja mantido.
Najara, quanto ao futuro da pousada e do seu trabalho, comenta que: "Embora eu tenha pensado em sair, sempre volto à ideia de que aqui é a minha raiz, e é aqui que continuo a minha vida e meu trabalho."

Desafios futuros e a importância da ciência

Com a crescente pressão sobre os recursos naturais da região, o biólogo aponta que Bonito precisa adotar um modelo de desenvolvimento mais equilibrado, que integre a preservação ambiental e a produção agrícola.
"A natureza não é inimiga do desenvolvimento. A presença de áreas de preservação, como as reservas legais, traz benefícios diretos para a produtividade agrícola. Polinizadores, por exemplo, ajudam a aumentar a produtividade das lavouras", explica.
Sabino acredita que é possível restaurar as áreas degradadas, desde que haja um esforço conjunto entre a comunidade local, o setor público e organizações não governamentais. Ele defende o uso de tecnologias mais avançadas para monitorar o impacto das atividades agrícolas e aplicar soluções para reduzir a turbidez das águas.
"A ciência pode nos fornecer as respostas e os caminhos para solucionar esses problemas. Não podemos ignorar as evidências."
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