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Do terrorismo às tentativas de golpe de Estado: os efeitos da neocolonização em Burkina Faso

© AP Photo / Kilaye BationoManifestantes protestam contra a França e a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) nas ruas de Ouagadougou. Burkina Faso, 4 de outubro de 2022
Manifestantes protestam contra a França e a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) nas ruas de Ouagadougou. Burkina Faso, 4 de outubro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 06.03.2026
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Na última década, o país do Sahel africano foi um dos principais epicentros da atuação de grupos terroristas. Aliado a isso, sucessivos golpes de Estado ampliaram a fragilidade institucional, até o episódio mais recente, em janeiro, que foi frustrado pelo atual governo militar. Agora a promessa é de reconstrução.
Sem acesso ao mar e com economia baseada sobretudo na mineração e na agricultura, Burkina Faso tem no ouro seu principal produto de exportação, riqueza que até hoje atrai a cobiça das potências ocidentais. Entre 1896 e 1960, o território esteve sob domínio colonial francês. Apenas seis anos após a independência, já sofria o primeiro golpe de Estado, até que em 1984 Thomas Sankara chegava ao poder com a promessa de mostrar à sociedade local que é possível ter prosperidade por meio dos próprios recursos — foi também nesse período que o país ganhou o nome atual, cujo significado é "Terra do Povo Incorruptível".
Mas, em 1987, Sankara é assassinado em mais um golpe de Estado, que volta a abalar a frágil estabilidade institucional. A partir de 2015, o país passa a enfrentar outro desafio: o avanço de grupos armados terroristas, como o Daesh (organização proibida na Rússia e em vários outros países), que iniciam ataques contra vilarejos e provocam o deslocamento de milhões de pessoas. Em resposta à crise de segurança, Burkina Faso vive dois golpes militares no mesmo dia, quando oficiais conseguem assumir o poder com a promessa de recuperar o controle territorial.
Com o novo governo, o país rompe com a França, que até então mantinha tropas e bases na região sob a justificativa de ajudar a combater o terrorismo. Esse movimento de Ouagadougou avançou em todo o Sahel.
Imagem de Thomas Sankara é exibida ao lado de seu caixão durante uma cerimônia de sepultamento em Ouagadougou. Burkina Faso, 23 de fevereiro de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 16.05.2025
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O mestre em ciência política e doutor em estudos estratégicos internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Mamadou Alpha Diallo avalia ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que toda essa instabilidade que marca a história do país é consequência justamente do neocolonialismo, situação que o governo militar tenta enfrentar com mais força nos últimos anos.

"O que está acontecendo é uma conscientização social. Se observarmos os episódios recentes, veremos que todos os golpes ocorreram após ondas de protestos, como em 2014 e 2022, quando houve forte mobilização interna. Nesse contexto, os militares assumem o poder com o argumento de restabelecer a ordem no Estado. No caso mais recente, que levou o atual presidente ao poder, a justificativa apresentada foi a de que ou os militares intervinham ou o radicalismo acabaria assumindo o controle em Burkina Faso", explica.

Conforme o especialista, vários países do Sahel foram tomados pelo terrorismo islâmico, que, em certa medida, acabava contando com o "apoio do Ocidente". "As forças francesas estavam naquela região havia mais de uma década, supostamente combatendo esses grupos, mas ao mesmo tempo armando o terrorismo. Acredito que a tomada de poder pelos militares é uma busca por autonomia e uma soberania que não veio com a independência", argumenta.
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Reflexos da queda de Kadhafi na Líbia

A atuação dessas organizações terroristas ainda é uma ameaça real em todo o Sahel africano, afirma Diallo, que cresceu em meio à desestabilização trazida para a região após a queda de Muammar Kadhafi na Líbia, em 2011, durante a Primavera Árabe.
"Mas o curioso é que esse problema não surge onde não tem recursos de interesse das grandes potências, ou onde exista uma disputa geopolítica por parte dos grandes players do sistema internacional. Por isso, esse combate também passou a ser uma forma de lutar por uma autonomia interna, já que há o risco de perder parte do território e ver seus países divididos. Lembrando que esse é também um projeto neocolonial muito antigo, que é a divisão de certos territórios africanos", frisa.
Diante disso, o presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, se destaca como uma voz anti-imperialista na África e, após evitar mais um golpe de Estado no início do ano, tem como agenda a reconstrução do país. "Isso passa também pelo controle dos recursos internos, com uma renegociação dos contratos de exploração de minérios [principalmente o ouro]. É uma tentativa de restituição dos recursos do Estado para o bem-estar."
Outro caminho para também viabilizar cada vez mais a soberania africana é a união dos países da região, defende o especialista. Para isso, o governo atual é um dos principais incentivadores do fortalecimento da Aliança dos Estados do Sahel (AES), criada em 2023 em meio ao rompimento da aliança militar com a França.
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'Arcabouço colonial francês no século XXI'

Para além da presença militar, a chamada África francófona viu a independência condicionada à manutenção dos laços econômicos, sempre mais rentáveis para o lado "mais forte", que é justamente o país europeu. Prova disso, segundo o especialista, é a manutenção, em pleno século XXI, do franco CFA ocidental como moeda de Burkina Faso e outros 13 países, cuja impressão é realizada pelo Banco da França desde 1945.

"A questão dos recursos, dos minérios, a questão da moeda e, em certa medida, as questões de infraestrutura, assim como o comércio internacional dos países africanos, são os pilares do neocolonialismo francês. Isso não foi uma opção dos países africanos, foi uma imposição da França para que fosse dada a independência. Então eles continuam controlando a segurança, continuam controlando a moeda, continuam controlando a exploração dos recursos e continuam controlando o próprio comércio internacional desses países", resume.

Como exemplo, Mamadou Alpha Diallo cita as transações comerciais realizadas por esses países, cuja liquidez de recursos só fica disponível se houver o aval francês, responsável por imprimir a moeda. "Esse rompimento é necessário, porque isso é um atraso econômico e geopolítico, os países africanos continuarem no arcabouço neocolonial francês do século XXI", conclui, ao pontuar ainda que hoje o Sahel é a região mais propensa na África à valorização da multipolaridade.
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