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'Escudo das Américas pode gerar política militar ideologizada na região', diz analista (VÍDEOS)

© AP Photo / Rebecca BlackwellO presidente norte-americano Donald Trump assina uma proclamação comprometendo-se a combater a atividade criminosa dos cartéis na Cúpula Escudo das Américas, no Trump National Doral Miami em Doral, Flórida, 7 de março de 2026
O presidente norte-americano Donald Trump assina uma proclamação comprometendo-se a combater a atividade criminosa dos cartéis na Cúpula Escudo das Américas, no Trump National Doral Miami em Doral, Flórida, 7 de março de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 16.03.2026
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Após o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, a pressão de Washington sobre a América Latina e o Caribe vem se intensificando. Dessa vez, a Casa Branca recrudesce a sua influência através de uma aliança que trata o narcotráfico como terrorismo a fim de expandir a atuação de seus militares na região.
No acordo firmado recentemente na Flórida, que conta com a assinatura de Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, República Dominicana e Trinidad e Tobago, além de reforçar a narrativa norte-americana, o acordo pode fomentar uma militarização motivada por ideologia entre países aliados e não alinhados aos EUA em nível regional, como analisa Marco Antonio Serafim, analista internacional e especialista em história contemporânea da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), em entrevista à Sputnik Brasil.

"Não creio que haverá uma corrida armamentista na América Latina. Contudo, observo que pode haver uma modernização armamentista ideologizada, porque os países que não estão nessa aliança vão reagir. Por exemplo, vimos a fala de Lula com seu homólogo sul-africano sobre a necessidade de investir em defesa, o que já indica uma política de contenção", disse.

Outro ponto que reacende o debate sobre o Escudo das Américas é a relação assimétrica que esse programa promove entre os Estados Unidos e os demais signatários, o que pode agravar ainda mais as contradições sociopolíticas internas, conforme pontua João Cláudio Platenik Pitillo, analista internacional, coordenador do projeto Geoestratégia Estudos e coautor do livro "América Latina na encruzilhada: lawfare, golpes e luta de classes".

"Esse projeto é uma recolonização das Américas que visa ampliar a presença estadunidense e diminuir a soberania nacional. Esses estados, submissos a esse pacto, terão suas riquezas drenadas para atender os EUA, o que pode levar a muitas turbulências sociais, com contradições políticas terríveis e desdobramentos no campo social", enfatiza.

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Presença militar dos EUA traz instabilidade regional

O analista Marco Antonio Serafim também alerta que o contingente militar norte-americano, que será ampliado com o Escudo das Américas, tem grande potencial para provocar crises em um futuro próximo. Nesse panorama, o pesquisador cita a adesão do Paraguai ao SOFA (Acordo sobre o Estatuto das Forças), mais um mecanismo dos EUA, como prejudicial ao cenário político pan-americano.

"Com a adesão do Paraguai ao SOFA, que prevê a presença de militares estadunidenses com equipamentos, veículos e aeronaves em território paraguaio que não serão submetidos à justiça local, já se demonstra a disparidade na relação. Isso pode gerar instabilidade regional. Nesse contexto, o Escudo das Américas servirá também como um dispositivo para os EUA intervirem militarmente", comenta.

Já para Pitillo, a ampliação da presença político-militar desse porte na região também tem como objetivo conter a autonomia dos países na diversificação de seus parceiros comerciais que não sejam do interesse de Washington, o que abre espaço para ações drásticas, como golpes de Estado.

"O Escudo das Américas visa bloquear todo projeto de desenvolvimento autônomo, como a aproximação com o BRICS e com países como China e Rússia, além de tentar enfraquecer o Mercosul. O mais grave é que os aparatos de segurança, policiais e militares, estarão praticamente sob ordens da Casa Branca, o que aumenta o perigo de golpes de Estado em ações de guerra híbrida", pontua.

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Integração latino-americana na berlinda

Sob essa perspectiva, segundo Pitillo, a coesão latina em iniciativas que visam à autonomia das nações da região está paralisada. No entanto, essa realidade já vinha perdendo fôlego desde a eleição do presidente argentino Javier Milei, agravada por outros problemas intra-americanos.

"A integração regional já vinha perdendo fôlego desde a posse de Milei na Argentina. Outro fator a ser observado são as crises no Peru e no Equador, além das sanções e de toda a violência contra a Venezuela e Cuba. Agora, com o Escudo das Américas, isso vai se ampliar, principalmente no Caribe. Apesar disso, diria que a integração latino-americana não está comprometida, mas sim paralisada", destaca.

Por fim, Serafim contextualiza que não é a primeira vez que os EUA utilizam a narrativa da guerra às drogas para influenciar a opinião pública. O historiador também ressalta que o atual governo Donald Trump está reativando a guerra às drogas promovida pelo governo Ronald Reagan.

"A narrativa que vemos hoje no governo Trump sobre a guerra às drogas tem a mesma lógica da Guerra Fria e da política do governo Reagan nos anos 1980. Mas isso é um pano de fundo para os EUA serem interventores nos assuntos políticos e econômicos latino-americanos, e esse plano foi atualizado com o Escudo das Américas", conclui.

Com o avanço de plataformas multilaterais como o BRICS e o fortalecimento de relações bilaterais entre países que buscam superar a hegemonia dos EUA, a América Latina, assim como outras nações em desenvolvimento, encontra-se em uma posição vulnerável neste momento de transição sistêmica.
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