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'Epicentro de uma 3º Guerra Mundial': guerra no Irã completa um mês

© AP Photo / Vahid SalemiVeículos passam sob outdoors com retratos do falecido Líder Supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, em primeiro plano, e de seu filho, o aiatolá Mojtaba Khamenei, seu sucessor, ao longo de uma rodovia em Teerã, no Irã
Veículos passam sob outdoors com retratos do falecido Líder Supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, em primeiro plano, e de seu filho, o aiatolá Mojtaba Khamenei, seu sucessor, ao longo de uma rodovia em Teerã, no Irã - Sputnik Brasil, 1920, 27.03.2026
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Especialistas fazem o balanço de um mês de conflito no Oriente Médio, discutindo a falta de preparo dos EUA, os efeitos na economia mundial, que caminhos a guerra no Irã pode levar e quem poderia mediar para uma paz na região.
Neste sábado (27) completa-se um mês do início dos ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã. Na primeira onda de ataques, relatos variam sobre o número de vítimas, com pelo menos 201 mortos e 747 feridos, de acordo com o relato da Sociedade do Crescente Vermelho do Irã, enquanto outras fontes indicam 1.045 mortos.
Sobretudo, uma dos locais atingidos foi a escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, onde 168 meninas morreram devido à explosão de um míssil Tomahawk. Em destaque, também foi morto o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, junto com a filha, o genro, a nora e o neto.
Apesar da tática de eliminar a liderança iraniana, o Irã resistiu aos ataques e demonstrou resistência inesperada por EUA e Israel. E foi além: fez ataques retaliatórios a bases estadunidenses em países vizinhos, como Arábia Saudita e Catar, atacou Israel, furou o Domo de Ferro — sistema de defesa antiaérea israelense — e ameaçou fechar o estreito de Ormuz, afetando o comércio mundial do petróleo.
Após quase um mês de conflito, não parece que haverá um término tão cedo, embora tanto Irã quanto Estados Unidos estejam dispostos a discutir um cessar-fogo. Através de intermediários, como Paquistão, propostas foram enviadas, mas com sucesso mínimo. No Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, faremos o balanço de um mês de guerra no Oriente Médio.
Mundioka #844 - Sputnik Brasil, 1920, 27.03.2026
Mundioka
Guerra no Irã: um mês da ofensiva que fragmentou o poder e a diplomacia
Uma avaliação de analistas sobre a guerra tem sido a falta de objetivos claros dos Estados Unidos, especialmente para uma operação de alto porte. "Obviamente, nenhum país deve realizar uma empreitada militar de grande escala sem ter o objetivo muito claro que se buscava alcançar", avalia Marcelo Bamonte, mestre em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), colunista do Opera Mundi e pesquisador do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP.
Na visão dele, o presidente dos EUA, Donald Trump, acreditou que teria o mesmo resultado com o Irã como foi com a invasão na Venezuela, em que pressionou o país e, eventualmente, capturou o líder venezuelano, Nicolás Maduro. "É muito claro que Trump enxergou a operação na Venezuela como um grande sucesso tático e que ele poderia ter uma fórmula a ser aplicada em outros locais. Mas não foi isso o que aconteceu no Irã."
Bamonte pontua que a resistência iraniana se deve a antigos conflitos, dando destaque à Guerra dos 12 dias entre Irã e Israel. Desde então, o pesquisador ressalta que Teerã mudou sua doutrina militar para melhor lidar com futuros ataques. Mas, além disso, ressalta a falta de preparo tático dos Estados Unidos para esse conflito.
"Os Estados Unidos acharam que, com o advento, com o crescimento de manifestações em solo iraniano, esse seria o timing perfeito para atacar o país. Mas, na verdade, isso se mostrou um desastre", afirma. "Israel tem feito ataques, mas eles não são tão efetivos porque esses ataques são retaliados, atingindo infraestruturas energéticas no Golfo inteiro."

"Na verdade, houve uma subestimação da capacidade de reação iraniana, com até oficiais dos EUA declarando que estavam surpresos com a capacidade de escalar o conflito que o Irã apresentou. E em alguns dias de guerra isso se mostrou muito claro."

O pesquisador destaca que, já nos primeiros dias do conflito, ficou evidente que o principal instrumento de dissuasão do Irã reside no controle do estreito de Ormuz, cuja possível interrupção elevou significativamente os preços das matérias-primas energéticas e impactou o comércio global de petróleo.
No dia 12 de março, os EUA retiraram a proibição para importar petróleo russo e, no dia 20, houve isenção de sanções de 30 dias para a compra de petróleo do Irã.
Segundo Bamonte, esse cenário não apenas ampliou as receitas iranianas, como também desencadeou uma fuga de capitais dos Estados Unidos em direção à China, vista por diversos países e parceiros comerciais como um ambiente mais estável para investimentos diante dos riscos e da instabilidade associados à atuação norte-americana no Oriente Médio.
Nesse contexto, o que inicialmente parecia ser uma operação militar rápida e de objetivos difusos acabou produzindo efeitos contrários aos esperados, evidenciando a resiliência iraniana e forçando, inclusive, uma revisão de políticas, como as sanções ao petróleo russo e iraniano.

"Me parece que os Estados Unidos não compreendem muito bem a natureza do Irã como sistema político. Um sistema que foi montado durante anos para resistir a esses choques, resistir a mudanças de lideranças, lideranças que são altamente substituíveis, apesar do peso simbólico que elas carregam."

Em sua visão, embora o governo de Donald Trump esteja sofrendo queda de popularidade, ainda não há ruptura significativa com sua base. Bamonte cita pesquisas que indicam que ele mantém apoio consistente dentro do Partido Republicano, especialmente entre as elites. "Obviamente existem figuras dissidentes, mas a base de apoio do Trump ainda continua muito ativa, principalmente no seu eleitorado do MAGA [sigla para "Make America Great Again"]."
Para o lado do Irã, ele ressalta que, embora haja uma clara debilidade no plano operacional e material — com bombardeios afetando instalações estratégicas e impondo custos e atrasos ao desenvolvimento de programas militares e nucleares —, isso não necessariamente se traduz em fragilidade do regime.
Pelo contrário, no campo político-institucional observa-se um movimento de coesão e até de endurecimento. Após o assassinato de Ali Khamenei, o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) ampliou sua influência, ocupando espaços de poder e conduzindo um rearranjo interno que indica maior centralização e rigidez.
A possível ascensão de seu filho como líder supremo, bem como a substituição de figuras mais pragmáticas e diplomáticas por nomes alinhados a uma postura mais inflexível — como a indicação de Mohammad Bagher Zolghadr para o Conselho Supremo de Segurança Nacional — reforçam essa tendência. Segundo Bamonte, a eliminação de lideranças mais abertas ao diálogo acaba produzindo o efeito inverso ao pretendido: em vez de enfraquecer o regime, fortalece sua coesão interna e reduz margem para concessões, sobretudo em questões de segurança nacional.
Diante disso, ele aponta duas possíveis leituras: ou há falha de compreensão por parte dos adversários quanto à dinâmica interna do regime iraniano ou existe um interesse deliberado em prolongar o conflito, eliminando interlocutores diplomáticos e mantendo um estado de guerra contínuo.
Nesse cenário, embora o Irã sofra impactos relevantes, Bamonte avalia que países do Golfo e até aliados ocidentais tendem a enfrentar níveis de desgaste proporcionalmente maiores, especialmente devido à exposição de seus ativos e à instabilidade regional crescente.
Fotos de Fidel Castro, de Cuba, e de Hugo Chávez, da Venezuela, penduradas do lado de fora de um prédio em Cuba - Sputnik Brasil, 1920, 24.03.2026
Panorama internacional
Pressão dos EUA empurra Cuba à mesa de negociações; Havana terá o mesmo destino de Caracas?
Para Beatriz Gomes, especialista de geopolítica e filosofia, Washington perdeu o controle da situação ao apontar que não sabe as reais capacidades bélicas de Teerã e, por isso, não é capaz de fazer projeções sobre o desgaste das Forças iranianas ou, mesmo, o fim da guerra.
Gomes explica que a retórica de Trump, ao dizer que o conflito acabou e que o Irã está derrotado, serve para controlar a crise do petróleo decorrente da guerra.
"Toda vez que o Trump aparece para falar que está tudo bem, que vai conseguir reverter a situação, que a guerra está ganha, é justamente após um aumento muito grande do petróleo. […] Ele tenta acalmar o mercado, só que não está mais funcionando agora, porque percebe-se que o governo americano não tem controle sobre a situação."
Gomes continua a análise de que os EUA entraram em uma armadilha: se a Casa Branca enviar soldados para abrir Ormuz, perderá mais o apoio dos estadunidenses, que elegeram Trump sob a promessa de não envolver o país em mais guerras; pode tentar uma negociação diplomática, mas o Irã rejeitou os termos dos Estados Unidos e desconfiam do país desde o ataque-surpresa.
"Se o cálculo inicial não tivesse sido um erro, a gente não estaria vendo essa desorganização. Eles não sabem como agir. Então você ouve o Trump falando que tem um plano de paz, mas ao mesmo tempo ele diz que não sabe com quem falar. Aí entram outros atores para tentar a negociação."

"É um cenário muito complicado por essa desorganização americana."

A especialista cita que possíveis países para mediar a paz poderiam ser o Paquistão, um parceiro do Irã com relação complexa, ou a Turquia, que vem se transformando em uma mediadora constante de questões no Oriente Médio e, na avaliação dela, possui uma preocupação efetiva com o avanço de Israel na região.
"A Turquia não verbaliza isso publicamente, mas vários membros do governo turco têm uma preocupação muito grande de serem o próximo alvo de Israel", explica Gomes, abordando também que Ankara tem "certo controle" sobre a Síria, outro possível alvo de Tel Aviv.
"O Paquistão tem interesse em terminar essa guerra logo, porque o país tem muita preocupação com que essa guerra se transforme numa guerra de potência nuclear." Sobretudo, Islamabad tem receio de suas fronteiras, já que uma possível invasão dos EUA perto de Ormuz, perto da divisa, poderia gerar um contingente de refugiados iranianos.
O maior risco, na avaliação da especialista, é a guerra evoluir para um conflito nuclear. Embora não veja que países europeus ou os Estados Unidos se voltem contra Israel caso use seu arsenal nuclear — avaliando que uma briga com Israel seria também contra os norte-americanos —, Beatriz Gomes diz que acordos recentes de cooperação militar, como o firmado entre Arábia Saudita e Paquistão, ampliam ainda mais o perigo de escalada.
Mesmo sem possuir armas nucleares, os sauditas estariam debaixo de um "guarda-chuva" nuclear paquistanês. Assim, um ataque nuclear contra o Irã poderia desencadear respostas em cadeia, envolvendo diretamente o Paquistão e a Arábia Saudita e arrastando outros atores com capacidade nuclear para o conflito, criando um possível epicentro de uma guerra de proporções mundiais.

"Ou seja, você tem um epicentro de uma Terceira Guerra Mundial. Dificilmente alguém iria para cima de Israel com um ataque nuclear, porque Israel só faria isso com a autorização dos Estados Unidos. Essa que é a grande realidade."

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