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Análise: caos provocado por EUA e Israel no Oriente Médio acelera projeto energético Rússia-China

© POOL / Acessar o banco de imagensO presidente da Rússia, Vladimir Putin, ao lado do seu homólogo chinês, Xi Jinping, durante visita a Pequim, em 2 de setembro de 2025
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, ao lado do seu homólogo chinês, Xi Jinping, durante visita a Pequim, em 2 de setembro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 01.04.2026
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas destacam que incertezas alimentadas pelo bloqueio no estreito de Ormuz fazem com que Pequim acelere busca por maior confiabilidade no abastecimento de gás. Imbróglio pode fazer com que aliança com Moscou no Power of Siberia 2 ganhe status de prioridade no setor energético chinês.
Em setembro do ano passado, a Rússia e a China assinaram um acordo para construir o Power of Siberia 2, gasoduto que ligará a península russa de Yamal ao norte do território chinês atravessando o leste da Mongólia. A obra deve aumentar a capacidade do envio anual de gás russo à China dos atuais 38 bilhões de metros cúbicos, por meio do Power of Siberia 1, para 106 bilhões de metros cúbicos.
Um projeto dessa magnitude, com mais de 2.500 quilômetros de comprimento, requer anos de planejamento e negociação entre as partes. No entanto, devido à instabilidade no Oriente Médio causada pelos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, seu desenvolvimento pode ser acelerado.
Em retaliação às hostilidades de Tel Aviv e Washington, Teerã realizou bombardeios pontuais a diversos países do golfo Pérsico que possuem bases norte-americanas. A região é notória pela abundância de reservas de petróleo e gás. As autoridades iranianas também determinaram o fechamento parcial do estreito de Ormuz, garantindo a circulação apenas aos navios com destino a países aliados.
Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas afirmam que as incertezas causadas pelas tensões no Oriente Médio aumentaram a urgência na China por fontes energéticas seguras e estáveis, como a família de gasodutos Power of Siberia.
Marcos Cordeiro Pires, professor de economia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT/INEU), explica que crises energéticas como esta tendem a gerar mudanças profundas.
"Quando se tem um problema como o que os americanos criaram no Irã, que coloca em xeque o suprimento de 20% do petróleo do resto do mundo, é óbvio que isso vai fazer com que todos os países passem a analisar suas estratégias. E a China é bastante ciosa desse aspecto, de não apenas organizar um enorme processo de transição energética, mas também de diversificar suas fontes de tudo."
Pires destaca que o gasoduto também é importante para a Rússia, que enfrenta embargos econômicos na Europa Ocidental, que anteriormente era uma importante cliente do gás de Moscou. Para o professor, o Power of Siberia 2 apresenta uma "nova redefinição da geopolítica energética".

"Hoje, se nós observarmos a resiliência de que a Rússia tem diante da sua guerra contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte [OTAN] no campo da Ucrânia, isso só foi possível, dentre outras coisas, porque em 2014, depois que derrubaram o governo na Ucrânia, a Rússia iniciou uma parceria com a China para a construção de um gasoduto que está viabilizando para a Rússia um escoamento de sua produção que, de outra maneira, deixou de ir para a Europa."

Bernardo Salgado Rodrigues, professor adjunto do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ), afirma que atualmente há uma "geopolítica dos gasodutos" que tem transformado essas infraestruturas energéticas em instrumentos de poder.

"Em termos gerais, o fortalecimento do eixo Rússia-China tem grande potencial para redesenhar o equilíbrio de poder no setor energético. Se levarmos em consideração que a China é um dos maiores importadores de gás do mundo […] e que a Rússia é uma das maiores potências exportadoras e de maiores reservas, a parceria pode criar uma via de suprimento alternativa que reduza a dependência chinesa de rotas marítimas tradicionais e a influência de outros grandes fornecedores, como os EUA e o Oriente Médio."

Para Rodrigues, a construção do Power of Siberia 2 possui três fatores principais na modificação do mapa energético global:
Redirecionamento do fluxo russo de gás do mercado europeu para o asiático, em especial, o chinês;
Formação de um novo eixo geoeconômico independente das rotas marítimas do golfo Pérsico;
Aceleração da desconexão entre as infraestruturas energéticas do Ocidente e do bloco eurasiano.

"No caso da guerra no Irã, a lógica de acumulação de poder e riqueza serve como um catalisador de risco, um acelerador de processos que já estavam em processo. Ainda que os navios chineses tenham realizado a passagem pelo estreito de Ormuz, após negociações com as partes relevantes na região, tal fator é um sinalizador para que a China priorize a segurança do fornecimento terrestre em detrimento das rotas marítimas vulneráveis."

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A China é só o começo?

A construção do Power Siberia 2, como qualquer obra dessa magnitude, será repleta de desafios. Além dos milhares de quilômetros de tubulação que passarão por três países, serão montadas estações de bombeamento e estruturas para a compressão do gás, possibilitando a viagem da Rússia até a China.
Para Pires, esse projeto de Moscou e Pequim pode representar o início de algo maior, como a interligação de gasodutos para outros países da Eurásia. Segundo o professor, é importante destacar que a Índia, por exemplo, foi "constrangida recentemente pelos EUA por imposição de tarifas para a compra do petróleo russo" e agora sofre com as questões no estreito de Ormuz.

"Essa integração, principalmente entre Rússia e Índia, é algo que é desejado e que vai ser estimulado por conta de toda a instabilidade. E é um problema sério porque quando a gente olha justamente a questão dessas ligações energéticas, o tanto que os EUA prejudicaram o próprio interesse europeu ao estimular não apenas a guerra na Ucrânia, mas também a própria desmobilização de todo o fornecimento de gás russo para a Europa Ocidental."

Rodrigues, por outro lado, acredita que desafios geográficos, econômicos e geopolíticos podem ser um obstáculo para construir uma rede de gasodutos que saia da Rússia e atravesse a Ásia. No entanto, o professor ressalta que isso não significa que o gás russo não tenha espaço em outros países asiáticos além da China.

"O planejamento estratégico russo para esses mercados tem sido o GNL [gás natural liquefeito]. O vice-primeiro-ministro russo, Aleksandr Novak, afirmou que negociações estão em andamento com Filipinas, Índia e Tailândia para desviar o suprimento europeu para navios-tanque de GNL, que podem atracar em terminais de importação existentes."

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