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Novo ataque ao Pix reflete temor dos EUA com a perda do domínio geoeconômico, avaliam analistas

© Foto / Bruno Peres / Agência BrasilImagem mostra um aplicativo bancário sendo usado para pagamento financeiro em transação via Pix em Brasília (DF). Brasil, 16 de janeiro de 2025
Imagem mostra um aplicativo bancário sendo usado para pagamento financeiro em transação via Pix em Brasília (DF). Brasil, 16 de janeiro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 08.04.2026
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Em entrevista à Sputnik Brasil, economistas apontam que a eficiência do Pix e sua capacidade de se tornar uma ferramenta regional incomodam Washington. Já para o Brasil, o sistema é um ativo estratégico da soberania econômica e tecnológica.
Em relatório recente, o governo dos Estados Unidos tornou a atacar o Pix como prática prejudicial a bandeiras de cartão de crédito norte-americanas e criticou o fato de o Banco Central "deter, operar e regular o Pix" e conceder tratamento preferencial ao sistema de pagamento.
As críticas vêm quase um ano depois de o sistema de pagamento brasileiro se tornar um dos pivôs das tarifas impostas pela Casa Branca, com críticas diretas do presidente estadunidense, Donald Trump.
O incômodo e as críticas do Salão Oval não impediram a expansão do Pix. Segundo o Banco Central, o sistema de pagamento já alcança mais de 170 milhões de brasileiros, o que corresponde a 80% da população. O Pix fechou o segundo semestre de 2025 crescendo em termos de transação e volume financeiro, totalizando R$ 78,4 bilhões de pagamentos, que movimentaram R$ 68,2 trilhões.
A expectativa é de que os números aumentem significativamente neste ano, já que somente em janeiro foram registrados mais de 7 bilhões de transações via Pix.

Por que o Pix incomoda os EUA?

À Sputnik Brasil, Ruy Santacruz, professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que a visão do governo norte-americano reflete o desejo de manter a posição, que ele vê escapar lentamente, como o centro do mundo em termos econômico, financeiro, comercial e produtivo.

"Então ele [Trump] está pegando cada detalhezinho onde puder, ele vai tentando reafirmar a liderança americana. Aqui, especificamente, o Pix causa um problema com os cartões de crédito."

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No caso do Pix, o problema é agravado pela presença da China no continente, questionando a hegemonia norte-americana em seu "quintal" e devido à popularidade do sistema de pagamentos. Além de ser aceito em outros países com grande presença de turistas brasileiros, outros países pensam em atrair uma expansão do Pix para seus sistemas financeiros, como a Colômbia.
"Se isso se difundir por toda a América Latina, é possível que os cartões de crédito com bandeiras americanas percam ainda mais espaço e percam o faturamento. Então, é possível, sim, considerar que é uma questão de manter influência na América Latina, mas eu diria uma influência mundial. Ele está atirando para todos os lados."
Somado a isso, Hugo Garbe, professor e economista-chefe da G11 Finance & Restructuring, aponta à reportagem que esse desconforto norte-americano aumenta diante da possibilidade de o sistema evoluir para a interoperabilidade internacional, especialmente no comércio intrarregional, mitigando a dependência do dólar como moeda de liquidação. E, ainda que essa substituição seja parcial e gradual, seu efeito simbólico e estrutural é significativo.
"A hegemonia do dólar não se sustenta apenas por fundamentos macroeconômicos, mas também por uma arquitetura institucional que inclui sistemas de pagamento, clearing e liquidação. Ao oferecer uma alternativa eficiente, pública e de baixo custo, o Pix passa a representar uma inovação que desafia essa arquitetura."
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (terceiro da esquerda para a direita, em primeiro plano) discursa ao lado de Cyril Ramaphosa (na ponta direita), presidente da África do Sul; Narendra Modi (segundo da esquerda para a direita), primeiro-ministro da Índia; e Li Qiang (na ponta esquerda), premiê da China, durante a 17ª Cúpula do BRICS, no Rio de Janeiro. Brasil, 7 de julho de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 31.07.2025
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O economista afirma que o Pix constitui um ativo estratégico do Brasil sob a ótica da soberania econômica e tecnológica. Ele aponta que, diferentemente de modelos privados dominados por grandes corporações globais, o sistema brasileiro combina infraestrutura pública com participação privada, permitindo ao Estado coordenar padrões, garantir inclusão financeira e preservar autonomia regulatória.
"Esse arranjo fortalece a capacidade do país de conduzir sua política monetária e seu sistema de pagamentos sem dependência crítica de agentes externos. Em termos tecnológicos, também sinaliza uma mudança relevante, na medida em que demonstra a viabilidade de soluções domésticas em um setor historicamente concentrado em poucas plataformas globais."

O Pix pode ser tema volátil nas eleições?

Do ponto de vista brasileiro, Garbe acredita que, no plano político, especialmente em um contexto eleitoral, o tema tende a adquirir volatilidade. Segundo ele, por já ser um sistema difundido na sociedade brasileira, com forte penetração entre diferentes estratos sociais, qualquer percepção de ameaça externa pode ser mobilizada discursivamente como elemento de defesa da soberania nacional, enquanto críticas internas podem explorar riscos regulatórios ou concorrenciais.
"Assim, o debate tende a transcender o campo técnico e assumir contornos simbólicos, amplificando sua sensibilidade no ambiente eleitoral", avalia o economista.
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Por sua vez, Santacruz ressalta ser óbvio que o país não pode abrir mão do Pix, pois a ferramenta se mostrou "absolutamente democrática" e capaz de abrir o acesso ao mercado financeiro a pessoas de baixa renda e garantir a pessoas de renda mais alta facilidade de conforto para realizar transações.
"Para o Brasil, é absolutamente impensável você abrir mão de um sistema como o Pix. Ele está consagrado. Nenhum presidente da República brasileira conseguiria hoje em dia dizer o seguinte: 'Olha, nós vamos recuar no Pix para os EUA, lá estão encrencando'. Isso não aconteceria jamais. Esse cara não seria eleito nem para síndico de prédio nunca mais na vida dele."
Por conta disso, ele não considera que o tema será central nas eleições, exceto como estratégia eleitoral de reafirmar a proximidade do bolsonarismo com o governo Trump.

"Como o Trump é um aliado ideológico da direita do Flávio Bolsonaro, afirmar um governo mais alinhado à direita seria mais próximo de aceitar uma intervenção do Trump", avalia Cruz.

Há como manter o Pix sem prejudicar a relação Brasil-EUA?

Para Santacruz, não há como o Brasil encontrar um meio-termo com os EUA em relação ao Pix, porque nesse caso "é ter ou não ter o Pix", e eles "não querem que a gente tenha porque prejudica as bandeiras dos cartões americanos", como Visa e Mastercard.
No entanto, ele não acredita que o tema seja um problema tão grande, pois os dados indicam que a redução causada no faturamento das bandeiras de cartões não é tão significativa.
"É pouco para influenciar uma relação bilateral Brasil e EUA. Eu acho que não é tão importante, não é calçado, não é aço, não é nada que seja tão importante assim."
Já Garbe considera que há espaço para uma estratégia de equilíbrio por parte do Brasil. Ele diz que a tensão pode ser mitigada por meio de maior transparência regulatória, reforço de princípios de neutralidade competitiva e abertura controlada à interoperabilidade internacional, inclusive com participação de agentes estrangeiros sob regras claras.
Porém, o desafio central consiste em preservar as vantagens estruturais do Pix, especialmente seu caráter inclusivo, eficiente e de baixo custo, sem alimentar percepções de fechamento de mercado.

"Em última instância, trata-se de conduzir uma diplomacia econômica que reconheça a natureza estratégica dos sistemas de pagamento, mas que evite sua politização excessiva, mantendo o foco na eficiência, na inovação e na cooperação internacional."

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