- Sputnik Brasil, 1920
Panorama internacional
Notícias sobre eventos de todo o mundo. Siga informado sobre tudo o que se passa em diferentes regiões do planeta.

Símbolo da hegemonia dos EUA: bases militares são ameaça após guerra no Irã e tensão na Groenlândia?

© AP Photo / Vadim GhirdaCom um jato de combate MIG 21 e um helicóptero Blackhawk ao fundo, soldados dos EUA participam de exercício militar conjunto com as Forças Armadas romenas na base aérea de Mihail Kogalniceanu, Romênia, 8 de março de 2017
Com um jato de combate MIG 21 e um helicóptero Blackhawk ao fundo, soldados dos EUA participam de exercício militar conjunto com as Forças Armadas romenas na base aérea de Mihail Kogalniceanu, Romênia, 8 de março de 2017 - Sputnik Brasil, 1920, 09.04.2026
Nos siga no
Especiais
Os Estados Unidos contam com 128 bases militares, a maioria de uso próprio exclusivo, em 51 países dos cinco continentes, conforme o último levantamento do Congresso norte-americano. Desse total, quase metade está concentrada na Europa e no Oriente Médio, regiões que foram alvo de investidas expansionistas da Casa Branca nos últimos meses.
Da Espanha à Romênia, do Egito a Omã, de El Salvador à Austrália, o movimento de instalação de bases militares mundo afora pelos Estados Unidos começou ainda durante a Segunda Guerra Mundial. As estruturas, em sua maioria de uso exclusivo das Forças Armadas norte-americanas mesmo em território alheio, se tornaram um dos principais símbolos da hegemonia de Washington e da consolidação desse poder. O mundo, no entanto, passou a caminhar cada vez mais em direção à multipolaridade, com o fortalecimento das potências regionais. Nesse cenário, a forma como essas estruturas são vistas pelos próprios países aliados pode começar a mudar.
Um dos casos mais recentes ocorreu na Groenlândia, território que passou a ser alvo das investidas expansionistas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e que abriga uma das bases do país. O território autônomo pertence à Dinamarca, aliada de Washington na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Ainda assim, a proximidade não foi suficiente para impedir que Trump chegasse a ameaçar tomar a região por vias militares no início do ano.
A questão ficou em segundo plano desde o fim de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel decidiram atacar o Irã. Como reação, o país persa passou a atacar bases militares norte-americanas na região, em países como Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Esses países foram arrastados para o conflito, mesmo contra a própria vontade. O cenário impactou diretamente o turismo em cidades como Dubai e Doha. Além disso, estimativas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) apontam que o impacto da guerra para as economias do Oriente Médio já pode chegar a US$ 194 bilhões (R$ 988 bilhões).
Essa sequência de acontecimentos pode levar os países a reverem suas posições sobre a presença militar dos Estados Unidos em seus territórios?
Para o professor de relações internacionais aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Williams Gonçalves, a tendência é de um questionamento cada vez maior sobre essas estruturas, principalmente por conta da atual política externa de Trump de "desprezar a aliança política e militar" com diversos aliados até então de primeira hora.
"As suas posições [do líder norte-americano] não convergem mais com as da Europa, por exemplo, e ele desdenha dessas alianças, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Tanto assim é que chegou a ameaçar a soberania dinamarquesa a propósito da questão da Groenlândia e do próprio Canadá, seu vizinho, ao propor que o país se convertesse em mais um estado norte-americano", afirma à Sputnik Brasil, ao citar ainda o caso da Espanha, cujo governo entrou em embates com Trump ao recusar autorizar o uso de bases para ataques contra Teerã.
Soldado dos EUA em veículo de combate em base militar dos EUA em local não revelado do nordeste da Síria, em 11 de novembro de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 02.04.2026
Panorama internacional
Apenas fechamento de bases militares dos EUA garantirá paz no Oriente Médio, afirma professor

Bases militares e a nova realidade global?

Conforme Gonçalves, os países que mais concentram bases norte-americanas mostram muito sobre como esse projeto expansionista pela via militar foi iniciado: são eles Japão e Alemanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, formaram o Eixo, foram derrotados e se tornaram aliados norte-americanos com o fim do conflito. Desde então, segundo o especialista, tiveram "a sua soberania comprometida" pela existência de tais estruturas.
"Agora, o que nós assistimos é um desafio a essa hegemonia dos Estados Unidos [muito formada também pelas bases]. A ordem internacional está em mudança e o presidente Donald Trump exprime, pela sua política e seu relacionamento com o mundo exterior aos Estados Unidos, o inconformismo do país ao ver que essa era está se esgotando. Desse modo, é mais que possível, é provável que essas bases venham a ser negociadas e até contestadas", afirma, ao citar também que as unidades são "anacrônicas" à nova realidade internacional.
A professora de história naval e pós-doutora em estudos marítimos pela Escola de Guerra Naval (EGN) Jéssica de Freitas e Gonzaga da Silva acrescenta que essas estruturas foram parte crucial da estratégia norte-americana ao longo da Guerra Fria e, sobretudo, para a manutenção da OTAN em locais como a Turquia e regiões estratégicas do Oriente Médio.
"Os Estados Unidos assumem uma postura que continua sendo mahaniana (ligada a Alfred Mahan, estrategista naval que defendia que o domínio do mar seria garantido principalmente com a presença no exterior). O país, além, claro, de ocupar Filipinas, Guam e Porto Rico, não tem de fato uma colonização como Espanha e Portugal tiveram nesse caso. Por isso, a presença dessas bases militares é tão importante", explica.
Bandeiras em miniatura dos EUA e de Israel em marcha por Israel em Washington, D.C. EUA, 14 de novembro de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 26.03.2026
Panorama internacional
Há divergências entre aliados: EUA perdem capacidade de deter ações de Israel, afirma analista

Soberania comprometida?

A professora de história naval recorda o conceito de soberania, que surgiu no século XIV com o objetivo de firmar o Estado moderno e retirar as interferências estrangeiras sobre a tomada de decisão dos governos locais. Com o fenômeno da globalização e a consequente integração entre os países, Gonzaga afirma que a soberania passou a ser cada vez mais "compartilhada".
"A presença de bases militares norte-americanas de fato compromete o exercício pleno da soberania, mas é óbvio que os Estados têm consciência de que essa soberania pode ser compartilhada. Isso ocorre principalmente porque há uma troca: os Estados Unidos podem garantir segurança contra eventuais inimigos ou proteger uma determinada área contra o terrorismo", diz.
Já Williams Gonçalves afirma que, por mais que exista afinidade entre os governos e a Casa Branca, possuir uma base não significa acessar apenas a região militarmente, mas também "informações e o conhecimento" sobre esse determinado país. "Então, indiscutivelmente, a soberania é comprometida", complementa.
O professor aposentado da UERJ avalia ainda que o momento atual é de declínio "relativo" dos Estados Unidos e que não há espaço no mundo para a ampliação de suas estruturas militares em outros países. Pelo contrário, o cenário aponta para redução. Mesmo assim, o especialista afirma que o panorama não significa uma "perda total de poder", mas sim uma crescente incapacidade de Washington de agir unilateralmente.
"A resistência à política imperial tende a aumentar, especialmente quando ela se torna mais explícita. Os Estados Unidos sempre interferiram em outros países [...], mas agora há uma mudança. A globalização está sendo corroída, o nacionalismo volta a ganhar força e alguns países mostram unidade nacional que outros não têm", finaliza.
Logo da emissora Sputnik - Sputnik Brasil
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!

Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.

Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).

Feed de notícias
0
Para participar da discussão
inicie sessão ou cadastre-se
loader
Bate-papos
Заголовок открываемого материала