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Queda de braço entre China e EUA pode beneficiar 'periferias' e a sustentabilidade, avaliam analistas

© AP Photo / Mark SchiefelbeinO presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping - Sputnik Brasil, 1920, 14.04.2026
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A China iniciou recentemente investigações sobre práticas comerciais dos EUA ligadas às cadeias globais de suprimentos e à economia verde. O mecanismo foi anunciado após uma série de restrições estadunidenses a produtos e empresas chinesas nos últimos anos.
Anunciadas no fim de março, as apurações têm prazo de seis meses, mas podem ser estendidas por mais três. Para entender se a iniciativa pode abrir espaço para futuras medidas protecionistas e uma nova fase na disputa econômica global, a Sputnik Brasil entrevistou, nesta terça-feira (14), no podcast Mundioka, especialistas no assunto.
Doutoranda em relações internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), Ingrid Torquato avaliou que o pragmatismo chinês freia ações revanchistas e que as medidas protecionistas não visam retaliar os EUA, mas proteger o mercado nacional, sobretudo setores relacionados à transição energética.
Mundioka #856 - Sputnik Brasil, 1920, 14.04.2026
Mundioka
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Atualmente na China, aprofundando sua pesquisa pela Universidade Fudan, Torquato comentou que o pioneirismo chinês no setor da economia verde está mudando o campo de disputa global.
Segundo ela, após quase 30 anos com investimentos consistentes em setores estratégicos para o desenvolvimento sustentável, a China e suas empresas ganharam escala suficiente para dominar a cadeia de suprimentos e industrial da economia verde no mercado internacional.

"Cerca de 80% dos painéis solares são chineses. A gente pode ver também na questão de veículos elétricos nos últimos anos, a participação da BYD, o quanto que tem se popularizado para fora da China, assim como no Brasil."

A medida foi impulsionada por uma preocupação ambiental por parte do governo chinês, quando o gigante asiático ainda tinha o carvão como principal fonte de energia. Hoje, graças a seus investimentos, Pequim sofreu menos do que o restante do planeta com a crise de petróleo decorrente da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã.

"O preço dos voos subiu, mas tem toda uma estrutura de trens que utilizam energia elétrica. Não tem aumento de preço logístico porque muitos dos veículos, muito da logística, já têm uma base em energia renovável. Então, se não depende do petróleo, também não vai refletir no cidadão."

Por outro lado, o controle chinês desse mercado acirrou a disputa por minérios raros, fundamentais para componentes para energia solar e eólica, entre outros equipamentos relevantes na atualidade. Com know-how e capacidade industrial e de refino desses minérios críticos, a China fica em situação de vantagem ao negociar com países como Chile e Bolívia, que têm o lítio, minério crucial para a produção de aparelhos eletrônicos, devido à sua alta densidade energética.
Mineral de terras raras (imagem referencial) - Sputnik Brasil, 1920, 14.04.2026
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Outro entrevistado do Mundioka, o professor de relações internacionais do Ibmec José Niemeyer comentou que a própria guerra iniciada por EUA e Israel contra o Irã aponta para uma tentativa de mudar a logística de distribuição do petróleo e do gás que passam pelo estreito de Ormuz, por onde passa boa parte dessas commodities com destino a Pequim.
No caso do gás, salientou ele, o elemento é necessário para fabricar hélio, este fundamental para resfriar o processo industrial de fabricação de recursos avançados, como os chips.

"E também um pouco de boro […]. A China vai sofrer muito sem acesso a subprodutos do gás", refletiu.

'Males que podem vir para o bem'

As disputas e tensões entre as maiores potências mundiais da atualidade, ponderou Torquato, tem seu lado positivo.
Ao lembrar da proibição, pelos EUA, da venda de semicondutores de alta tecnologia à China, anos atrás, ele argumentou que, em vez de abalar o desenvolvimento tecnológico chinês, a contenda promoveu investimentos na produção de semicondutores nacionais e possibilitou a independência tecnológica:

"Essa dinâmica de competição, nesse caso, beneficiou o mercado, o desenvolvimento interno chinês, e pode beneficiar outros parceiros ou outros países a partir do momento que essa competição também chama por competição tecnológica — […] [a competição] pode se desdobrar em um novo produto mais barato que permita que outros países ainda em estágio não tão avançado de desenvolvimento tecnológico tentem o próprio sistema de inteligência artificial ou a própria fabricação de semicondutores."

Mas essa chave de virada dependerá da capacidade nacional de aproveitar o desenvolvimento tecnológico estrangeiro que está sendo colocado no país, para investir na própria ciência, no meio ambiente, e criar melhores condições e oportunidades de trabalho na economia verde.
Na opinião do professor Niemeyer, o Brasil é um dos principais países beneficiados na disputa entre EUA e China no setor de energia, em especial pelo desenvolvimento do Corredor Bioceânico, que possibilitará ao Brasil ter acesso mais rápido e barato a mercados no Pacífico a partir do porto de Chancay, no Peru.

"Vamos fornecer a toda a parte oriental do continente euro-asiático. Vamos fornecer a chineses, indianos, japoneses, turcos, além dos europeus."

Niemeyer reforçou a ideia de pragmatismo do governo chinês, que historicamente prioriza as questões internas, agindo discretamente nas relações exteriores:

"Ela [China] sempre olhou mais para dentro, e, quando teve que olhar para fora, foi sempre uma perspectiva comercial, de cooperação econômica, de criar instrumentos de logística internacional."

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