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Paraguai: ouro de tolo ou paraíso liberal para migrantes?

CC BY-SA 3.0 / A.Aguilera Allexbcn / Vista da fronteira com Ponta Porã, no Brasil, Pedro Juan Caballero, Paraguai
Vista da fronteira com Ponta Porã, no Brasil, Pedro Juan Caballero, Paraguai - Sputnik Brasil, 1920, 19.05.2026
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Uma nova leva de "brasiguaios" parece estar despontando no vizinho Paraguai, que emitiu, somente nos três primeiros meses deste ano, 9,2 mil autorizações de residência para brasileiros.
Em 2025, o governo paraguaio concedeu 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros, um recorde, segundo as autoridades do país, sendo que mais da metade, 23,5 mil eram brasileiros, e apenas 4,3 mil, argentinos (4,3 mil), na segunda posição.
Para 2026, a expectativa é de que o número seja ainda maior. Entretanto, internacionalistas com especialidade no Paraguai ouvidos pela Sputnik Brasil alertaram que o fenômeno se deve sobretudo à desinformação.
Professor de geografia e relações internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG), Camilo Carneiro pontuou que os brasileiros que estão migrando têm sido majoritariamente pessoas insatisfeitas com o cenário político do Brasil e em busca da carga tributária mais baixa cobrada no Paraguai.

"Muitas delas, empresários ou mesmo pessoas que são aposentadas, que têm no Paraguai uma esperança de que a sua renda seja maior, porque lá o custo de vida é menor, e majoritariamente pessoas de direita que estão fazendo essa tentativa de imigração no Paraguai, buscando o chamado sonho liberal."

Politicamente, há décadas a direita possui um monopólio político sob o país e favorece o sistema neoliberal que atrai ideologicamente pessoas da direita brasileira, explicou estudioso das relações Brasil-Paraguai, Leandro Baller.
"Você tem extrema direita, uma direita e uma centro-direita, então os políticos vão se revezando, e em grande medida há praticamente 80 anos aí pelo governo de um partido só, que são os colorados", explicou ele.
Baller, que também é doutor em história pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) argumentou que há muito marketing e pouca análise a respeito do sistema bancário, commodities, sistema imobiliário, poder de compra, condições trabalhistas, entre outros aspectos.
Os analistas destacaram que o atual movimento migratório é bem diferente do que ocorrem nas décadas de 1970 e 1980, com os "brasiguaios", um movimento majoritariamente rural. Os brasileiros que ali chegaram durante a ditadura de Stroessner, uma das mais longevas da América do Sul (1954 a 1989), receberam incentivos para colonizar terras na mata atlântica, na fronteira com o Brasil, onde criaram áreas de pastagem e de áreas de produção de soja.
O atual movimento é urbano em um mercado que prioriza o setor agropecuário e o contingente que chega, dificilmente, será plenamente absorvido por grandes montadoras e indústrias altamente mecanizadas.

"Esse sonho do Paraguai, na verdade, é uma ilusão, que os brasileiros que vão para lá querendo pagar menos impostos, essa estratégia de não cobrar impostos adotado pelo Paraguai é inviável no longo prazo, porque o governo não vai ter os recursos necessários para arcar com os serviços públicos, e isso não está sendo percebido", argumentou Carneiro.

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Ao ressaltar que a economia já passou por um período de crescimento forte entre 2013 e 2014, Baller salientou que embora em ritmo mais modesto, o Paraguai cresce constantemente e de maneira muito perene em relação aos seus vizinhos na América do Sul.

"Entre 2013 e 2014, o Paraguai teve um crescimento muito grande em alguns anos, chegando em torno de 14% ao ano. Um crescimento exageradamente grande para um país no centro da América do Sul. E naquele momento o Paraguai já começava a ser chamado de Tigre Guarani, em clara alusão ao que cresciam os tigres asiáticos", lembrou ele.

O imposto de importação, que chega a ser zero, como para eletrônicos, computadores, itens de informática e celulares, cujo comércio que inclui brasileiros como clientes, também garante uma renda alta para o país e grande volume de empregos. O crescimento econômico não significa, porém, distribuição de renda, lamentou.
"Essa renda é muito concentrada. Isso não está sendo levado em consideração pelas pessoas, principalmente, os brasileiros que estão indo ao Paraguai neste momento", comentou. Para essas pessoas, só lhes resta o trabalho no mercado informal, observou.

"Não há migração de capital, mas de pessoas comuns, do trabalhador, do não empresário, da pessoa pobre, trabalhadora, e que parece que estão descobrindo o Paraguai [...] E aí quando a gente fala de trabalhador, esse mercado ele anda para e passo com a informalidade", disse Baller.

A isenção de tributos e as faltas das garantias trabalhistas também impactam negativamente serviços públicos.

"Essa estratégia de cobrar poucos impostos faz com que os paraguaios não tenham hospitais de qualidade em número suficiente e as escolas no interior são muito precárias [...]. Por exemplo, muitas mulheres do Paraguai, de origem brasileira ou não, procurem a maternidade em Foz do Iguaçu para ter seus filhos. Passem a Ponte da Amizade e vão ter filhos no Brasil".

Outro resultado da excessiva abertura de mercado é o processo de desindustrialização, completou o entrevistado.

"A desindustrialização de um país significa empobrecimento da população, dependência econômica em relação ao exterior [...] diminuição dos gastos públicos nos setores de saúde, educação, transportes, por exemplo, privatização das empresas estatais que levam a desemprego, menores salários, ou seja, quem enriquece no modelo neoliberal é uma pequena parcela da população", opinou ele.

Nessa lógica, muitas empresas brasileiras estão se instalando no vizinho para pagar salários mais baixos e ter menos encargos trabalhistas.
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Barreiras específicas para brasileiros

Para além dos obstáculos econômicos, trabalhistas e assistenciais, a barreira do idioma, segundo Baller, é outro problema para a inserção de brasileiros na sociedade paraguaia, cujo portunhol serve apenas para quem está de visita.
"O brasileiro dificilmente sabe falar outro idioma. A gente sabe, a gente tem resistência sobre isso. E no Paraguai isso não é bem visto. Então o brasileiro para ir morar no Paraguai, ele precisa aprender a falar espanhol. No Guarani nem se fala, é muito difícil falar o Guarani, principalmente depois de adulto [...] E essa barreira, ela é posta pelo Paraguai, ela é defendida e ela está muito bem consolidada".
Outro ponto negativo, é o fato de que brasileiros acabaram se tornando latifundiários de terras hoje são "mal" vistos por uma parcela da população paraguaia, sobretudo de camponeses pobres e movimentos sociais.
Ele mencionou cidades no Paraguai em que se fala português, se usa o real, a cultura é a brasileira, as músicas na rádio são sertanejas ou gaúchas com atmosfera e a vivência do sul do Brasil.
"Muitas vezes o empregado é que aprende o português, não o patrão que aprende o espanhol. Isso é uma realidade dentro da área rural do Paraguai. Cidades como Santa Rosa del Mondai, Santa Rita ou Naranjal são áreas onde a população brasileira controla o poder político e econômico",
Desde 2005, uma Lei determinou que agricultores estrangeiros não poderiam adquirir novas terras na área de fronteira, mas fazendeiros brasileiros que enriqueceram, disse o especialista, conseguem burlar as regras devido ao poder que exercem sobre o governo.

"Chegaram a destituir o presidente Lugo, em 2012, que queria fazer uma reforma agrária no país. Ele foi tirado do poder em dois dias. O processo relâmpago de impeachment durou dois dias."

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